035 - Core 2019

Crônica de Bolas: Os Gêmeos

"Você ouviu isso?"

O deslizar de sons de estalos e estalos fora fraco, quase inaudível. Se não tivesse sido um dia tão parado, Naiva teria pensado ser um truque da brisa presa nos galhos de um aglomerado próximo de zimbros atrofiados. Lança na mão, ela estudou a terra coberta de neve. Uma encosta íngreme acima deles inclinava-se vertiginosamente em direção ao monstruoso cume branco da montanha chamada Gelo Eterno. O corte profundo de um vale levava para baixo até onde seu grande grupo de caça estivera acampado desde a lua nova. Ao redor, os altos picos de Qal Sisma cortavam o céu como tantos dentes denteados. Dragões deslizavam preguiçosamente em círculos nas correntes ascendentes acima dos picos.

Dragões e humanos não eram os únicos caçadores nas montanhas.

Ela vasculhou o campo de destroços de rochas onde o zimbro crescia. Nada se movia que ela pudesse ver, mas mais alguns estalos e tiques baixos soaram.

"Bai, garras de goblin fazem esse barulho na rocha."

Baishya ajoelhou-se a dez passos de distância em um afloramento exposto de rocha que se projetava acima do campo de neve densamente compactada, que haviam atravessado pela metade. Com a cabeça baixa, ela ergueu uma mão pedindo silêncio.

"Bai." Naiva manteve a voz baixa. "Precisamos continuar nos movendo."

"Você é impaciente demais. Minha visão me trouxe exatamente aqui, tenho certeza disso."

"Não há nada para ver."

"Sim, há. Você apenas não consegue ver."

"Não acho que você consiga ver também. Você apenas diz isso para atrair a atenção da Avó porque não é tão boa na caça quanto eu."

Baishya olhou para trás por cima do ombro com o familiar erguer de queixo e revirar de olhos. Todos no clã diziam que as duas garotas eram exatamente iguais, mas Naiva sabia absolutamente, com certeza, que ela pessoalmente nunca tivera aquele olhar presunçoso de complacência no rosto, nunca mesmo.

"Não importa quão acuradamente você atire sua lança e quão peritamente você empunhe uma faca, você não tem utilidade como caçadora se não conseguir manter sua boca fechada. Especialmente não para reclamar de mim. Você não precisava ter vindo comigo."

"Alguém tem que manter você segura quando você ouve vozes dizendo para escalar montanhas sagradas que são proibidas para pessoas comuns — " Naiva interrompeu-se.

Um "whumph" baixo como o de um urso enorme batendo o pé estremeceu pelo ar. Rachaduras dispararam pela superfície dura da neve mais acima na encosta.

Baishya pressionou as mãos contra o rosto como se uma luz brilhante a estivesse cegando. "Eles estão aqui," disse ela em um tom de maravilhamento, alheia ao perigo.

A neve quebrou, começando a deslizar. Naiva lançou-se para frente, arrastou Baishya do afloramento e as jogou para baixo atrás dele. Elas se achataram em um leve ressalto, com as costas pressionadas contra a rocha. O estrondo retumbante da avalanche as ensurdeceu. Naiva virou seu manto externo de pele de krushok, segurando-o aberto com os braços conforme a neve caía em cascata sobre o afloramento e rugia encosta abaixo. Mas não seria o suficiente. A montanha chamava-se Gelo Eterno porque seu campo de neve era tão sólido e estável, um lugar sagrado onde caçadores não ousavam caçar e apenas sussurradors caminhavam quando eram atraídos até lá pelas vozes dos ancestrais. No entanto agora toda a neve e gelo de gerações quebrara, e ia enterrá-las.

Naiva não temia a morte. Mas estava subitamente furiosa por Baishya estar tão determinada a provar-se como xamã que tivera que arrastar sua gêmea em uma busca imprudente. Então morreriam juntas como haviam nascido juntas, trancadas em uma tumba fria.

As mãos de Baishya começaram a brilhar com uma luz esverdeada. A visão assombrou tanto Naiva que ela esqueceu de ter medo. Conforme a neve jorrava, caindo em cascata sobre o topo do ressalto, deslizando ao redor da curva do afloramento, enterrando-as no gelo dos ancestrais, sua irmã começou a moldar e dar forma à neve esmagadora em uma parede à frente delas. A neve trovejava contra esta barreira, curvando-a para dentro. Naiva prendeu a respiração, pensando que a neve estilhaçaria e cederia.

Mas a parede mágica aguentou.

O ruído diminuiu. O estrondo desvaneceu em um silêncio grávido. Deveria estar escuro demais para ver, exceto que as mãos de Baishya brilhavam com a luz misteriosa e tênue.

Místico Garra de Chocalho | Arte de: Tyler Jacobson
Místico Garra de Chocalho | Arte de: Tyler Jacobson

A voz de Naiva congelara em sua garganta. Seu hálito soprava nuvens de névoa diante de seus olhos, apenas não era o seu hálito.

A parede dissolveu-se em uma névoa branca como a queda suave de uma forte tempestade de neve. Figuras diáfanas saíram da queda de neve. Tinham formato majoritariamente humano: altos, esguios, caminhando sobre duas pernas mas não na neve, e sim nas rajadas de ar perturbadas que subiam do colapso catastrófico. Uma vestia um pano cor de luar enrolado na cintura, salpicado com dardos de verde como olhos brilhantes. As outras vestiam lenços tênues tão delicados quanto teias de aranha cobertas de orvalho. No lugar de cabelos e barbas, tinham filamentos crescendo de sua pele pálida. Estes delicados tentáculos parecidos com cordas enrolavam-se e ondulavam em padrões estranhos.

Baishya tocou os próprios ouvidos como se tentasse abafar um clamor uivante de múltiplas pessoas gritando todas de uma vez. Naiva nada ouvia, ainda ensurdecida pelas consequências do som retumbante ou talvez porque não era digna; ela não conseguia ouvir o que os elementais estavam dizendo, se é que estavam dizendo algo. Os olhos de Baishya reviraram na cabeça e ela caiu para frente em um desmaio.

Eles as haviam atraído até aqui para matá-las e comê-las! Naiva agarrou sua lança.

Baishya deu um solavanco para frente e apertou com força o braço de sua irmã. "Não! Não seja estúpida. O povo-do-vento veio nos avisar, não nos ferir."

Como se a voz dela fosse um golpe estilhaçante, os elementais desapareceram em uma espessa nuvem de flocos de neve; ou talvez aquilo fosse apenas um feitiço de ocultação usado para esconder sua retirada.

"Você não pode simplesmente bater primeiro e fazer perguntas depois, Nai! Você tem que ouvir."

"Não ouvi nada!"

"Você nunca ouve."

Baishya sacudiu a neve de seu manto e saiu de sob o ressalto. Seu arquejo de choque disparou medo nos ossos de Naiva. Ela saiu ao lado de sua irmã. Naiva sempre caminhara audaciosamente onde Baishya rastejava com hesitação. Mas mesmo para Naiva aquilo era demais; ficou de boca aberta diante do caminho destrutivo cortado pela avalanche. Largas faixas e manchas de rocha nua haviam sido expostas na encosta da montanha. Metade do maciço campo de neve desmoronara, jorrando para o vale para sufocá-lo em vastas pilhas de neve.

"A Avó e o acampamento estão lá embaixo!" Naiva gritou, imaginando seus corpos quebrados. Mas não chorou. Lágrimas não os trariam de volta.

"Eles estão bem."

"Como você pode saber?"

"O povo-do-vento me disse. Chamaram-me aqui em cima para me dar uma mensagem para a Avó."

"O que disseram?"

Ela esfregou os olhos como se estivessem queimando. "Tenho que contar à Avó."

"Não a mim? Você não confia em mim?"

"Por que você sempre torna tudo sobre você?"

"Nem sempre torno tudo sobre mim!"

Um estrondo fraco soou conforme outra avalanche rasgava uma encosta invisível.

"O som também causa avalanches," Baishya acrescentou em um sussurro.

"Como se eu não soubesse disso!"

"Então por que você ainda está falando?"

Naiva engoliu um retruque. Era tão irritante quando Baishya tinha razão, mas ela tinha, e Naiva sabia não ser bom arriscar sons altos onde outra avalanche poderia facilmente quebrar. Agarrou sua lança e a mochila. Escolheram seu caminho o mais rápido que era seguro através dos restos do campo de neve. A avalanche atingira o campo de destroços em cheio, lançando pedras montanha abaixo. Ali encontraram os cadáveres de um pequeno bando de goblins, esmagados e sufocados.

"Eu te disse que algo estava nos espreitando," Naiva murmurou.

Baishya acenou com a mão pedindo silêncio.

Um objeto raspou suavemente na rocha. Naiva girou justamente quando um goblin agachado, salpicado de sangue, saltou de trás de um rochedo direto nela. Suas garras buscaram sua cabeça, mas ela atingiu o torso dele com a haste de sua lança e o enviou tombando. A ponta da garra dele prendeu-se em sua placa de ombro de couro. Ela usou o ímpeto dele para atirá-lo para longe de si e ao chão. Ele atingiu com força, os pés esgravatando em busca de apoio conforme tentava se levantar. Ela foi mais rápida, com um corte em seu quadril para aleijá-lo, entrando e saindo através da pele dura e cartilagem, seguido por uma estocada no rosto. A primeira estocada falhou, e a ponta raspou na rocha. O goblin mordeu o braço dela, dentes prendendo-se em seu braçal de couro. Ela pisou forte uma vez, jogando a cabeça dele para trás novamente, então circulou a ponta de sua lança de volta e o empalou com uma estocada através do olho até o cérebro.

O sangue vazou brilhante sobre a neve.

Ela permitiu-se um momento de diversão sombria por ter razão para ser grata pela avalanche. Um único goblin não representava perigo para um caçador, mas contra tantos ela e Baishya poderiam ter sido sobrepujadas.

Baishya estava com a faca em punho, chutando cada um dos goblins esmagados para garantir que não restava vida neles. Naiva limpou sua lâmina na neve, sacudiu a rede de caça e rolou os pequenos corpos para dentro dela.

"A tribo não está morrendo de fome, Nai. Ninguém quer comer goblin."

"Não vamos deixar carne para trás. Não com dragões tão perto."

Arrastando a rede carregada atrás de si, caminharam penosamente até onde aglomerados de zimbros resistentes ofereciam um caminho mais estável para baixo no vale. Nuvens de névoa branca ainda subiam em direção ao céu ao longo do caminho da avalanche. Os dragões, tomando aquilo como um jogo, voavam dos picos distantes para soprar fogo sobre as pilhas de neve. Água do degelo agitava-se na fenda do vale em explosões crescentes de águas brancas.

Cachoeiras de Thornwood | Arte de: Eytan Zana
Cachoeiras de Thornwood | Arte de: Eytan Zana

"Mesmo que tenham sobrevivido à avalanche, como podem sobreviver a tal inundação?" Naiva sussurrou, com o coração gelado. Odiava estar com medo. Isso a deixava zangada.

"O povo-do-vento me prometeu." No entanto a voz de Baishya tremia, não mais tão certa. Estendeu a mão para Naiva, e deram as mãos para mútua segurança. Fora assim que sempre fora: nascidas quando a parteira cortara a barriga de sua mãe morta, mesmo então estavam de mãos dadas.

O riacho ao fundo do vale inchara em um rio impetuoso varrendo muito além de suas margens e agora marrom com detritos e solo e vegetação arrancada. Não podiam descer diretamente ao vale para não serem varridas pela inundação, então tomaram uma rota mais longa escolhendo seu caminho ao longo da encosta em ângulo.

"Poderíamos estar nos movendo mais rápido se não tivéssemos que arrastar este peso morto." Baishya gesticulou para os goblins sem vida amontoados na rede.

"Eu digo isso a mim mesma sobre você o tempo todo!"

Baishya riu e parou de reclamar, mas na verdade a mente de Naiva estava remoendo cada desastre possível. Se a Avó estivesse morta, o que então? Seria melhor ir para Ayagor, onde havia um acampamento permanente dedicado à alimentação do Dragão Soberano Atarka? Ou juntar-se a um novo bando de caça, um dos muitos que vagavam amplamente pelo vasto território de Qal Sisma para encontrar novas fontes de caça? Ou viajar para as terras de fronteira onde pequenos grupos de caça viviam em cavernas defensáveis e faziam patrulhas?

Ela pretendia sobreviver, e isso significava encontrar pessoas que as aceitassem. Pessoas que não se importariam com a distração de Baishya quando ela queimasse uma panela de cevada torrada, ou seu olhar sonhador para o céu quando ela deveria estar raspando um couro. Pessoas que não apenas entregariam sua gêmea a Atarka assim que descobrissem que ela era uma xamã. No entanto, e se Baishya fosse um fardo mais pesado que a rede de goblins mortos? E se não houvesse grupo que arriscasse acolher uma sussurradora jovem e inexperiente cuja presença poderia fazer todos serem mortos? Poderiam as duas garotas sobreviver sozinhas? Ou Naiva teria que deixá-la partir?

"Olhe lá!" Baishya parou bruscamente, respirando com dificuldade.

As águas começaram a recuar, deixando o fundo do vale limpo de vegetação. Até as árvores haviam sido arrancadas do solo e giradas vale abaixo para irem parar em pilhas instáveis. Uma colina erguia-se acima de um desses montes de destroços. Coroada com abetos resistentes, permanecera acima da inundação. Pessoas abrigavam-se ali, pequenas como formigas desta distância.

Quando saíram da encosta da montanha suas pernas estavam cobertas de lama e todo o corpo de Naiva doía. Mas um grito as saudou conforme alcançaram a colina. Uma sentinela acenou para que entrassem sob as árvores. Vários fogos ardiam conforme o grande grupo de caça se secava. Nenhuma tenda sobrevivera à corrida para a segurança, mas os caçadores tinham seu equipamento.

A Avó estava cuidando de várias pessoas feridas. Sua expressão severa relaxou ligeiramente ao vê-las, mas este toque de alívio foi toda a emoção que ela se permitiu.

"Naiva, o que você tem aí?"

"Um bando de goblins mortos que estavam tentando se esgueirar até nós."

A Avó assentiu secamente. Como sempre, ela simplesmente esperava que Naiva tivesse feito a coisa certa sem nunca se dar ao trabalho de elogiá-la. "Baishya, venha de lado comigo."

Naiva entregou a rede a outros caçadores e seguiu a Avó e Baishya para dentro das árvores.

"O que aconteceu, garota? Algumas pessoas estão murmurando que você indo até a montanha sagrada causou a avalanche. Escapamos por pouco. Pior, este vale levará gerações para se recuperar. Temos contado com a caça rica aqui para nos alimentarmos agora que Atarka exige tanta carne."

"Foi o povo-do-vento."

"Você viu o povo-do-vento? Não se comunicam conosco desde que baixamos nossas cabeças para Atarka. Duvido que confiem em nós agora."

"Eles me deram uma mensagem para você, Avó."

"Para mim?"

"Para Yasova Garra de Dragão."

Yasova Garra de Dragão | Arte de: Winona Nelson
Yasova Garra de Dragão | Arte de: Winona Nelson

Naiva inclinou-se para mais perto, mãos fechadas em punhos, chocada ao ouvir Baishya proferir aquela palavra. Atarka banira o nome Garra de Dragão e comera cada pessoa que ousara usar o termo em sua presença.

"Naiva, não deixe ninguém se aproximar até que ela termine." A Avó agarrou o braço de Baishya. "Conte-me tudo."

Na sombra dos abetos o ar parecia mais frio que nunca. Uma velha pele de neve circulava a metade dos troncos das grandes árvores voltados para o norte, onde o sol nunca chegava. Baishya soltou todo o seu fôlego em uma exalação sibilante. Sua voz ficou mais áspera conforme ela escorregou em um transe de sussurro, afundando de volta na visão que o povo-do-vento lhe concedera. Naiva não era xamã, mas sempre fora capaz de sentir aspectos vagos dos pensamentos de sua gêmea. Ela também pareceu afundar no meio da avalanche mortal quando todo o mundo estava tombando ao redor delas; no entanto, não era a memória, mas a visão através da qual caíam.


)

Há uma sombra, uma grande sombra. Não são nuvens, nem é noite. Ondulações varrem o vasto abismo aéreo do céu. A sombra é uma criatura magnífica, aterrorizante e escura e poderosa, e é cega, ou talvez tenha nascido em um lugar de cegueira e não saiba como ver. Suas asas batem tempestades através dos céus. Das tempestades caem ovos-pedra gigantes em cores diferentes. Alguns despencam sem nunca acordar, mas os que acordam se desenrolam enquanto caem e sacodem-se no largo vasto abismo do céu. Suas asas se abrem, pois não são ovos. São os filhos da grande sombra que vive betwixt e between, em um lugar e em lugar nenhum. São dragões recém-nascidos enrolados em uma bola, e caem tombando do céu em um turbilhão de gelo e asas.

De um bater das asas da grande sombra, caem sete desses ovos-pedra sobre um mundo que não é Tarkir, embora não haja nome para ele na linguagem do povo-do-vento.

Primeiro o mais brilhante se desenrola. Com o bater de asas pálidas, enquanto desacelera sua descida, abre os olhos e fala: "Arcades Sabboth." Ao nomear-se, toma o controle de seu próprio destino. Nenhum dragão permitiria que outro o nomeasse. Ao contrário das pequenas feras dos mundos inferiores, eles sempre sabem exatamente quem são.

Então ergue-se um dragão cujas escamas têm um brilho metálico. Sua voz é comedida e curiosa, como se surpreso e deleitado ao descobrir que também tem um nome: "Sou Chromium Rhuell. Que interessante. O que tudo isto significa?"

Uma massa maciça de verde-avermelhado lampeja para fora para revelar chifres espirais e um uivo selvagem: "Palladia-Mors é o meu nome! Ninguém mais pode tê-lo!"

Dois dos maiores ovos-pedra caem como se já estivessem mortos. Chocam-se contra o solo duro e cavam crateras de impacto na encosta de uma montanha. Solo e rocha espirram para fora de cada impacto para formar um anel de detritos.

"Que lugar é este?" diz Chromium Rhuell enquanto desliza para baixo para pousar um tanto sem graça — ele ainda é muito jovem — no pico de uma montanha isolada que se ergue no meio de um vasto platô. A montanha tem um formato cônico de encostas suaves, simétrico e agradável, com uma grande cratera no topo. Ele perscruta o interior da cratera mas não vê nenhum imenso ovo quebrado. Um vento morno sobe das profundezas, quente e sulfúrico. "Ah! Que calor agradável!"

Ele abre suas asas, deixando o sol secar a umidade que permanece em suas escamas ainda macias. Esticando seu pescoço flexível, estuda a paisagem. A grande sombra ondula através de uma extensão de floresta e pastagem em direção a uma cordilheira de montanhas distantes. A luz do sol retorna após sua passagem, dourando a cena com cores vívidas.

Desfiladeiro de Madeira | Arte de: YW Tang
Desfiladeiro de Madeira | Arte de: YW Tang

Arcades Sabboth pousa ao lado dele para banhar-se. "Tantas árvores em todo lugar ao redor do nosso poleiro. E olhe, há todo tipo de animais abundando aqui, alguns sobre quatro pés e alguns sobre dois. Alguns são selvagens, e alguns domesticaram-se a si mesmos. Devem todos ter nomes, assim como nós temos. O que é aquele conjunto de estruturas perto do rio? Parece muito ordenado e interessante."

A dragão verde-avermelhada pousa mais abaixo para explorar os detritos frescos espalhados pelo impacto dos dois ovos na montanha. Snorta com desprezo pelos corpos estilhaçados caídos quebrados lá dentro. "Estes dois eram fracos demais para acordar. Já vão tarde."

"Olhe!" Chromium fixa o olhar no céu. "Há mais dois!"

Dois pequenos ovos-pedra tombam em direção ao solo, como um pensamento tardio.

Palladia-Mors grunhe. "Mais fracos, inúteis." Ela volta sua atenção para as pastagens distantes onde feras pastam em bandos abundantes. "Vou caçar."

Com um sopro que quase se incendeia em chama, ela lança-se ao céu.

A encosta da montanha corta a trajetória dos dois últimos ovos-pedra. Perdendo o interesse nos ovos-pedra perdidos, Arcades abre suas asas e voa em direção ao conjunto de estruturas. No entanto, Chromium Rhuell não pode deixar de se perguntar o que aconteceu com os últimos, estes irmãos mais novos, especialmente quando nenhum tremor de impacto sacode o chão.

Quando circula o pico, nada vê em suas encostas inferiores: nenhuma cratera de impacto, nenhum dragão recém-nascido voando, nada. Apenas um denso crescimento de árvores cortado aqui e ali por prados. É como se os outros ovos-pedra tivessem se dissolvido, e talvez se dissolveram mesmo. Talvez não fossem de mais substância neste mundo do que as Ur-asas que os geraram e recuaram para o reino da sombra cega. Ele se pergunta o que Arcades está tramando e se deveria ir atrás dele, então nota outra queda de ovos nos sopés de uma cordilheira de montanhas distante conforme as asas da grande sombra fazem outro bater: "Mais ovos-pedra caindo! Primos!"

Intrigado, voa para longe para buscá-los.

Assim, ele não vê o emaranhado de asas que se desdobram pouco antes do impacto. O sexto ovo-pedra se abre em uma dragão verde sobressaltada pouco antes de ela se chocar em uma clareira na base da montanha e rolar várias vezes. Seu pouso desajeitado surpreende um grupo de caçadores que, com redes, lanças com pontas de ferro e cães magros e feios, acabaram de abater uma grande fera carnívora. O sangue dela ainda está fumegando, fragrante e morno e, assim, a fome que consome o ventre dela é seu primeiro pensamento. Ela ruge para espantá-los.

"Sou Merrevia Sal. Dêem-me a carne, ou os matarei."

Os caçadores sobressaltados e seus cães ficam tão intimidados por sua ferocidade inesperada e rugido estilhaçante que não notam o último ovo-pedra. Ele se abre em não um, mas dois pequenos dragões nascidos gêmeos juntos. A nem vinte passos da clareira eles atingem a copa, despencando através dos galhos e, com baques gêmeos, param no chão da floresta em meio a um emaranhado de agulhas e samambaia.

"Ai," diz o menor dos dois. Esfregar sua cabeça contra o chão para limpar um filete de sangue onde os galhos duros arranharam as escamas ainda tenras.

O outro tenta sacudir suas asas machucadas para abri-las mas está preso por galhos caídos como uma rede sobre ele. Um tronco de árvore quebrado prende seu corpo. "Estou preso," diz ele.

"Vou ajudar você," diz o primeiro, estudando o outro com um olhar aguçado. "Você é Nicol, não é? Esse é o seu nome."

"Claro que é o meu nome. Hsst, quieto, Ugin. Olhe lá fora. Que tipo de saudação estão dando a ela? Não confio neles."

Na clareira Merrevia Sal ruge novamente. Os caçadores recuam da fera que mataram. Ela é grande comparada aos bípedes, mas quando se lança para frente em direção à carcaça, sua asa direita arrasta um pouco. A queda a feriu. Os caçadores trocam olhares como fala. Com acenos e gestos, espalham-se. Algo em seu comportamento mudou. Ainda são cautelosos e temerosos, mas conforme ela se farta, eles lentamente movem-se para cercá-la com uma forma de astúcia menor, sonsa e covarde. Quando ela ergue a cabeça para tossir fumaça de aviso para eles, eles recuam; quando a atenção dela retorna à sua refeição, eles rastejam para frente novamente.

"Fique parado." Ugin começa a mexer nos destroços com suas garras dianteiras e boca, tentando puxá-los para fora sem derrubar todo o monte em um estrondo que atrairá atenção para eles.

Nicol não consegue desviar o olhar, tomado por uma confusão, um frenesi agitando seu ventre: o sangue e a antecipação incham como fome; como ousam estes pequenos e fracos bípedes assaltar um dos seus?

Os caçadores lançam uma grande rede sobre a cabeça dela. Com um uivo de surpresa ela investe para cima, para voar. Os caçadores agarram-se às pontas da rede e, a princípio, sua força avassaladora ergue aqueles que conseguem segurar-se direto do chão, seus pés chutando o ar. Ao superar as árvores mais próximas a rede se emaranha tão profundamente em suas asas que ela perde sua sustentação e debate-se para baixo. Esmaga um caçador ao pousar sobre ele, contorcendo-se e rugindo. Ela morde a corda, mas agora sua asa danificada também está presa em um galho e ela não consegue manobrar. Cães latem excitadamente, mordiscando seus flancos conforme ela se contorce.

"Depressa! Temos que ajudá-la." diz Nicol.

"Quieto. Se eles nos virem, você estará preso e à mercê deles."

Dragão | Arte de: Jack Wang
Dragão | Arte de: Jack Wang

Nicol sibilia. É verdade que nada podem fazer enquanto ele estiver preso. É enlouquecedor. É errado!

Com uma tosse de faíscas pungentes ela repele o primeiro ataque. Seu fôlego escaldante leva dois caçadores aos joelhos. Guincham de dor conforme as queimaduras esbranquiçam sua pele. Os outros recuam. Um entre eles grita ordens e, novamente, eles se reúnem, novamente, preparam suas lanças. Atacam de todos os lados, gritando alto, incitando uns aos outros. Ela abre o ventre de um com as garras, entranhas derramando-se em uma massa de viscosidade e fedor. Mas a morte dele dá ao líder uma abertura para esquivar-se do seu outro lado e mergulhar sua lança profundamente nas escamas ainda macias de seu baixo-ventre. Sangue quente jorra do ferimento, banhando o líder de cima a baixo em vermelho. Ela tomba de lado, sua asa presa rasgando com um som horrível. Outro caçador cai sob a massa de seu corpo contorcido, mas agora sua cabeça está vulnerável. Dois caçadores perfuram seu olho direito. Cães lançam-se para o seu ventre aberto, esgravatando para cavar fundo e puxar para fora suas vísceras macias.

No entanto ainda ela luta, ainda ela batalha porque é um dragão, e dragões nunca se curvam diante de criaturas menores. Ela tritura um cão entre os dentes. Lado esquerdo arrastando, as duas lanças ainda balançando em seu olho, ela se puxa para dentro das árvores, buscando fuga embora não haja fuga conforme os caçadores sobreviventes, incluindo o líder vestido com o sangue dela, a perseguem.

Nicol ainda está preso. Abre a boca para rugir fúria, mas Ugin grampeia talões sobre seu focinho, abafando-o. "Silêncio."

A fortuna favorece os dois jovens dragões neste dia: a caçada leva os caçadores para longe deles. Mas eles ouvem os gritos e o latir frenético. Quase perdida entre todo o barulho vem a tosse fraca da dragão conforme ela tenta queimá-los. Há mais contorção, um uivo de dor, ganidos agonizados, um grito mortal.

"Depressa, Ugin!" diz Nicol. "Não é tarde demais. Ela ainda os está matando."

"Chute com sua perna traseira direita."

Nicol chuta, deslocando um peso.

"Aquele foi o último."

Impaciente, Nicol investe para frente, escalando sobre um emaranhado de galhos de casca áspera conforme o restante dos destroços desliza para fora no chão.

Conforme ele e Ugin disparam para dentro da clareira repleta com os cadáveres de cinco caçadores e três cães, um coro de gritos triunfantes racha o ar. O odor de mortalidade corta como uma rajada de vento através das árvores. A morte de um dragão tem cheiro de mel. Sua doçura é o seu poder, embora estes caçadores não saibam disso ainda.

"É tarde demais," suspira Ugin.

O calor da raiva ferve do fundo do coração de Nicol. Ele vai queimá-los. Queimá-los.

Ugin agarra sua perna traseira direita e o puxa até parar. "Há muitos deles e apenas dois de nós. Somos menores que nossa irmã."

"Não estamos feridos."

"Nada podemos fazer por ela."

"Podemos vingá-la. Estas criaturas insignificantes não podem ter permissão para nos atacar."

"Precisamos encontrar os outros primeiro. Segurança em números, como os caçadores tiveram. Nenhum deles poderia tê-la pego sozinho."

"Que outros?"

"Outros dragões que caíram conosco. Nossos irmãos. Você não os notou?"

Nicol olha para o céu sem nuvens e para o sol vertiginosamente brilhante. O sol é magnífico, mais ousado e brilhante que qualquer outra coisa, ofuscante e poderoso, a antítese da sombra e do medo.

"Não tenho medo dos caçadores," diz ele, certo de que o sol nada teme.

Montanha | Arte de: Jonas De Ro
Montanha | Arte de: Jonas De Ro

"Claro que não tem."

"Não tenho!"

Ugin é jovem porém inteligente. Ele vê que discutir nada lhe renderá. "Venha, Nicol. Vamos subir ao topo do pico e ver se conseguimos avistar nossos irmãos."

Nicol não vai admitir que não notou nenhum dragão exceto Merrevia Sal. Mas mais que isso, ele despreza fugir como um fracote atingido pelo medo. No entanto os cães começaram a latir com os ganidos ferozes que significam que pegaram um novo cheiro. Os caçadores são insignificantes, verdade, e sua irmã já matou cinco deles, mas eles provaram que podem trabalhar juntos para realizar uma tarefa que seria impossível para qualquer um sozinho.

"Para que lado?"

"Para cima."

Ugin toma uma corrida desajeitada e salta com um bater de asas, então aterra pesadamente no chão. Teria sido engraçado se não estivessem prestes a serem atacados por matadores encorajados.

"Eu consigo fazer," diz Nicol.

O coro de latidos frenéticos intensifica-se conforme vários cães correm para a clareira. Um surto de adrenalina corre por ele. Ele salta para frente sobre o cão líder e arranca sua cabeça com uma única mordida. Sangue salgado satura sua boca. Ele mastiga várias vezes e engole. Teria um gosto melhor se pudesse saboreá-lo, mas dentes mordiscam seus flancos enquanto outros cães correm ao redor dele, abocanhando.

"Nicol! Eles estão vindo."

"Apenas covardes correm!"

"Apenas tolos confundem prudência com covardia."

Aborrecido porque Ugin tem razão, Nicol golpeia com uma garra em um grande círculo, repelindo os cães. Mais irrompem pelos arbustos na borda da clareira. As vozes dos caçadores estão ficando mais altas. Quando ele se impulsiona com suas pernas traseiras e bate as asas, ele sobe mais rápido que o esperado; mesmo assim, ele ainda é desajeitado. Seus pés com garras inferiores roçam pelas copas pontiagudas dos abetos. Ele mal voa para fora da clareira sem se emaranhar nas árvores novamente. Mas ele está fora, longe dos caçadores, alguns dos quais agora correram para dentro da clareira. Encaram-no de baixo, sem dúvida maravilhados.

Conforme sobe acima da floresta, começa a voar em direção ao pico. Olha para trás, subitamente preocupado. Ugin desapareceu.

"Por aqui!" Seu gêmeo já o passou.

Correm até o cume e pousam em um emaranhado de asas.

Nicol limpa o sangue de seu focinho em suas pernas dianteiras. O sangue já está esfriando e coagulando, mas a batida de seu coração ainda continua forte. Quão fácil foi arrancar a cabeça do animal de seu pescoço! Ele poderia ter rasgado todos os cães porque os dentes deles não conseguem penetrar suas escamas. São os caçadores que são perigosos, com suas armas e a maneira como trabalham juntos para alcançar algo que não podem fazer sozinhos.

Então ele vê a cratera de impacto mais próxima e dentro dela o corpo de um dragão, muito maior que ele ou Ugin. Não sobreviveu à queda.

"Que morte é pior?" pergunta ele. "Nunca acordar, ou acordar e viver seus poucos momentos em um frenesi de medo e luta?"

Ugin não responde. Ele encara toda a paisagem ao redor. O mundo não é novo, mas eles são novos, como bebês cujos olhos não conseguem entender totalmente o que veem: floresta verde, planícies gramadas verde-amareladas, os fios prateados de rios serpenteando seu caminho através de um vasto platô. Todo tipo de criaturas vagueia por este mundo largo. Tudo espera para ser descoberto. Ugin desloca seu olhar para cima e por um longo tempo encara os céus acima.

"De onde viemos?" pergunta ele. "Para onde foi nosso progenitor? O que jaz além do céu?"

"Estou vendo um!" Nicol avista um dragão mergulhando baixo sobre um bando de animais. É excitante observar a presa dispersar-se em medo. O dragão apanha uma fera correndo com tal graça e poder.

Arte de: Chris Rahn
Arte de: Chris Rahn

Os ganidos ainda soam lá de baixo conforme os cães encontram os detritos da floresta onde ele e Ugin pousaram. Quando pensa na irmã morta, ele quer despedaçar todos os caçadores e cães, mas talvez a culpa não resida neles. Eles apenas aproveitaram a oportunidade para conseguir algo que queriam. Talvez a culpa resida nos dragões que não sobreviveram.

Ele ainda consegue ouvir o uivo de morte de Merrevia. Morrer não é maravilhoso. É ruim. Mas ser o caçador: isso é uma coisa melhor. Ele escala até um afloramento que lhe permitirá soltar-se em uma corrente ascendente; já está ganhando um senso para este mundo, para o modo como ventos invisíveis e correntes podem ajudá-lo a encontrar seu caminho.

Antes de lançar-se, ele para, sentindo a falta da presença de seu gêmeo, e volta-se.

Ugin não se moveu. Ainda encara sonhadoramente a paisagem.

"Seu tolo," diz Bolas, "temos que acompanhar os outros. Avisá-los sobre os caçadores. Aprender como encontrar nossa vingança. Depressa!"

Ugin volta um olhar calmo para Nicol. Seus olhos são como cristais com profundezas que dão lugar a mistérios.

Ele diz: "Alguém está procurando por você, Yasova Garra de Dragão. Venha a mim."


)

Um grito de aviso rompeu a voz rouca de Baishya. Baishya piscou descontroladamente, balançou conforme a visão a deixava, e colapsou nos braços fortes da Avó. Naiva agarrou sua lança e correu para a borda das árvores.

Três dragões haviam pousado na borda do acampamento improvisado. Eram crias de Atarka, com corpos troncudos e cristas de galhada. Os dois grandes bufavam cachos de chama ameaçadores, mas como a maioria das crias de Atarka, não tinham muito em termos de mente para pensar. O menor, no entanto, tinha um olhar de astúcia em seus olhos fogosos. Falou apenas em Linguagem de Dragão, esperando que entendessem.

"Sentimos cheiro de magia no ar. Entreguem seus xamãs para nós, ou mataremos todos vocês."

O pulso de Naiva acelerou, e sua boca ficou seca. Apertou a mão em sua lança enquanto trocava olhares com os caçadores não feridos, todos os quais estavam, como ela, com as lanças mantidas em pé ao lado deles — destinadas a parecerem não ameaçadoras, podiam defender em um momento de aviso. E no entanto defender significava atacar os dragões, e tal ataque causaria uma guerra entre Atarka e o clã. Os humanos não podiam vencer esta guerra; fora isso que a Avó entendera há dezoito anos.

Era melhor morrer lutando ou viver se encolhendo?

"Que arautos se aproximaram deste humilde bando?" A Avó emergiu sozinha das árvores. Não carregava arma alguma; o cajado de garra de dragão que outrora anunciara sua posição como chefe do clã fora escondido nas profundezas de uma caverna secreta, guardado por sussurradoras ocultas. Um falso fora esculpido e dado a Atarka para destruir. Mas a Avó era arma o suficiente em sua própria presença. Se ela temia algo, Naiva ainda não aprendera o que era. "Sou Yasova, Primeira Mãe deste bando de caça. Você tem um nome, honrada cria?"

A cria cuspiu uma língua de chama inofensivamente no chão. "Uma grande queda de neve arrancou o gelo e a neve da montanha. Como vocês não estão mortos na queda de neve? Despedaçados como as árvores? Sentimos o odor fétido de magia. Este trabalho é proibido a vocês por ordem do Dragão Soberano Atarka."

A Avó gesticulou em direção aos abetos erguendo-se retos e altos atrás deles. "Acampamos sobre esta colina," mentiu ela, pois qualquer um que soubesse qualquer coisa sobre acampamentos ou tivesse meio cérebro conseguia ver que não havia sinal de fogueiras e abrigos temporários. "A avalanche e a inundação passaram abaixo de nós. Pedimos sua permissão para continuar nossa jornada."

O dragão piscou uma vez e depois uma segunda vez conforme os pensamentos rastejavam por sua mente lenta. "Para onde vocês vão?"

Estavam planejando ficar um ciclo completo da lua no vale verdejante antes de retornar em direção a Ayagor, então Naiva surpreendeu-se com as próximas palavras da Avó.

"Fomos designados pelo nosso convocador de caça para patrulhar a cordilheira oriental de Qal Sisma contra as incursões de clãs inimigos. Gostaríamos de continuar viajando enquanto ainda há luz do dia. Pelo seu trabalho, e por respeito, reunimos um pequeno lanche para vocês."

Ela captou o olhar de Naiva e ergueu o queixo na direção da rede. Com a ajuda de um dos outros caçadores, Naiva arrastou-a para frente e sacudiu os cadáveres sobre a encosta rochosa. Os dois dragões grandes fungaram ansiosamente, olhando para o seu líder em busca de permissão para comer. Até o pequeno distraiu-se com a oferta de um petisco inesperado. Eram um bando ganancioso, e sua fome era sua fragilidade.

Enquanto eles se rasgavam nos goblins, a Avó puxou todos de volta para o abrigo das árvores. "Preparem-se para mover," disse ela. "Os feridos que não podem se mover devem permanecer aqui com suprimentos até que possamos retornar por eles."

"Para onde estamos indo realmente?" perguntou Naiva.

A Avó deu-lhe um olhar impaciente. "Você já deveria saber."

As bochechas de Naiva queimaram de humilhação. Dedos roçaram sua manga, e ela virou-se para encontrar Baishya ao seu lado, com o rosto corado, como em uma febre.

"Você não ouviu, Nai? A visão foi passada para mim pelo povo-do-vento mas não veio deles."

"De quem veio?"

"De Ugin, o Dragão Espírito."

"Ugin está morto. A Avó estava lá e o viu morrer. Ela nos contou essa história cem vezes."

"Sim. É por isso que temos que ir ao túmulo de Ugin. Precisamos descobrir o que esta visão pressagia."

Crônica de Bolas: A Primeira Lição

Naiva agachou-se em uma saliência de rocha, olhando de volta para as montanhas. Seu grupo de caça finalmente alcançara um platô elevado ontem, após dias viajando através da paisagem acidentada e traiçoeira. Quando Naiva era uma garotinha, a Avó trouxera ela e Baishya ao platô elevado. Naquela época — todos aqueles anos atrás — as montanhas estavam cobertas com neve espessa e geleiras maciças. Agora a cobertura de neve estava fragmentada, com a rocha aparecendo; a avalanche que quase matara ela e Baishya no Pico Eterno fora uma de muitas que arrancavam a neve e o gelo dos picos outrora gélidos. O mundo estava mudando. Se você não mudasse com ele, seria varrido.

Ela vasculhou o céu em busca de qualquer sinal da cria de Atarka que os vinha seguindo por dias, mas ela desaparecera. Quando ela se virou para olhar sobre o platô, prendeu a respiração. Longe, um longo dragão mergulhou e deu piruetas, então subiu em direção ao céu com uma graça sinuosa e ondulante que nenhum pássaro poderia imitar.

Ela olhou para baixo em uma cavidade cercada de rochas onde os outros caçadores estavam enrolando os couros sob os quais haviam se abrigado durante a noite.

"Bai, venha ver."

Sua irmã gêmea escalou ao seu lado, semicerrando os olhos contra o sol nascente. "Não é uma das crias de Atarka. Longo e esguio demais."

"Se não é, então não deveria estar caçando em território de Atarka. O que está demorando tanto para todos começarem a se mover?" Ela novamente olhou para baixo para onde os caçadores estavam preparando suas armas e mochilas para a marcha do dia. Todos vestiam pesados casacos de couro, exceto o mais alto entre eles, o orc nascido no clã Kolaghan chamado Fec, com sua crista acinzentada de cabelo preto rígido. Ao contrário dos outros, ele não vestia nada no torso, apenas uma pesada saia de tiras de couro trançadas. Um par de espadas estava pendurado em cruz em suas costas manchadas, e ele segurava um cajado robusto em sua mão esquerda. "Provavelmente é aquele velho orc que está nos atrasando. Não vejo por que temos que tê-lo conosco."

"A Avó tem seus motivos para tudo o que faz. Agora fique quieta. Lá vem ela."

Yasova escalou até elas, caindo sobre um joelho ao lado das garotas. O platô elevado estendia-se diante delas, tão largo e nu que parecia que a pele da terra não tinha roupas para protegê-la. Uma linha rala de árvores atrofiadas marcava o curso de um riacho que serpenteava pelo platô. De resto, a paisagem austera era nada além de extensões de grama, cavidades pantanosas, poças de água gelada derretendo de manchas de neve e saliências de rocha nua como esta, projetando-se acima da grama em meio a um amontoado de rochedos. O vento nunca cessava, ondulando pela grama, puxando fios soltos do cabelo de Naiva.

Terras Altas Acidentadas | Arte de: Eytan Zana
Terras Altas Acidentadas | Arte de: Eytan Zana

"Você vê o dragão?" Naiva apontou para leste.

"Claro que vejo." A Avó protegeu os olhos para cortar o brilho. "Aquele é um dragão de Ojutai. É curioso encontrar um aqui no território de Atarka, e nunca é bom quando coisas curiosas acontecem."

"Pode ter vagado para cá acidentalmente."

"Uma cria de Ojutai? Não. São inteligentes demais para fazerem qualquer coisa por engano."

"Dragões podem ser espertos e não apenas famintos?"

"Você não tem prestado atenção às lições de história da Avó?" Baishya cutucou a gêmea nas costelas com o cotovelo, embora a grossa túnica de couro que Naiva vestia tenha absorvido a maior parte da força, então o impacto nem sequer a balançou. "Ojutai é um grande mestre. Todas as suas crias são mestres menores."

"Mestres de saber dracônico, não de saber humano," disse a Avó com um contrair de lábios reprovador. "Ele começou os expurgos. Os outros dragões soberanos seguiram seu exemplo."

"Os expurgos?" Naiva arrependeu-se de fazer a pergunta conforme Baishya revirou os olhos.

"Você escuta alguma coisa, Nai?"

"Ninguém no nosso grupo de idade atira uma lança de caça ou dispara uma flecha com mais precisão do que eu. O que me importam histórias antigas?"

"Basta." A Avó levantou-se rigidamente de uma maneira que preocupou Naiva, que estava acostumada a ver sua avó como eternamente forte e capaz. Mas quando seu olho captou o de Naiva, nem um fiapo de fraqueza apareceu em seu olhar duro. "Teremos que dar uma volta larga e seguir pelo curso d'água, usando as árvores como cobertura. Quero chegar ao túmulo de Ugin sem me enredar com aquele dragão."

Ela virou-se para olhar de volta para a cordilheira ocidental de Qal Sisma.

"Aquela cria de Atarka ainda está nos seguindo, você acha?" Naiva perguntou. "Não a vejo desde ontem."

"Nem eu," disse a Avó. "Não gosto de ela ter desaparecido. Talvez tenha ficado entediada. Talvez esteja nos espreitando por motivos que passam por pensamento em sua mente pequena. Algumas das crias de Atarka têm uma astúcia baixa que as torna particularmente perigosas. Garotas, vocês caminharão comigo no centro da nossa linha."

Baishya assentiu com um sorriso, pois não amava lugar nenhum melhor que estar perto da Avó, mas a raiva de Naiva inflamou.

"Você disse que eu teria permissão para patrulhar assim que alcançássemos o platô!"

"Isso foi antes da cria de Ojutai. Venha."

Sem sentido discutir com a Avó.

Mas Naiva fervilhava enquanto partiam, e fervilhava enquanto caminhavam, formando palavras com os lábios sem lhes dar fôlego para fazer som. De vez em quando sua gêmea rolava um olhar lateral para ela e mexia as sobrancelhas, zombando dela, até que finalmente seu humor começou a suavizar com a provocação familiar. A caminhada matinal na sombra do crescimento emaranhado ao longo das curvas preguiçosas do curso d'água foi desagradável, não que ela algum dia admitisse que o zumbido constante de insetos e o puxão de videiras espinhosas e o roçar de urtigas a incomodavam. Qualquer caçador que se prezasse estava acima de comentar sobre tais desconfortos mundanos. Os outros caminhavam com propósito sombrio enquanto espantavam os insetos que mordiam incessantemente.

Pouco antes do meio-dia, alcançaram uma curva em ferradura no rio onde uma poça profunda se formara longe da corrente principal. A Avó ergueu uma mão. "Faremos uma pausa aqui e pescaremos peixes para o nosso jantar. Rakhan e Sorya, fiquem de vigia."

Naiva caminhou até a borda da linha das árvores e, usando as folhas como cobertura, espiou os céus. Um grande raptor deslizava na distância, talvez um gavião ou águia. Um bando de tentilhões de cauda longa patrulhava em busca de insetos ao longo da borda da vegetação espessa junto ao curso d'água. Após um pouco, a Avó aproximou-se para ficar ao lado dela, com Baishya em seus calcanhares.

"Não há sinal do dragão de Ojutai," disse Naiva. "Talvez tenha voado de volta para o seu próprio território."

"Talvez." A Avó estudou-a até que Naiva começou a mudar de um pé para o outro, temendo que estivesse prestes a ser repreendida quando fora a primeira a avistar o dragão. "Naiva, você se saiu bem. Protegendo sua gêmea. Matando os goblins, e pensando adiante para trazê-los para o acampamento. Claro, você acompanha sem reclamação. Espero isso de você."

Ela se saíra bem!

A Avó gesticulou em direção ao campo aberto. "Você vê aquele círculo de pedras lá fora?"

A certa distância do curso d'água, em meio à grama alta, uma saliência de rocha erguia-se cerca da altura de um homem acima do chão. A rocha era cercada por um amontoado de rochedos como se tivesse sido outrora um fogacho gigante. Um par de abutres pousava em um dos rochedos. Olhavam para dentro do círculo à maneira de carniceiros, curiosos sobre algo que poderia morrer logo mas ainda não morrera.

"Quero que você escale o afloramento e tenha uma visão clara, já que nosso ponto de observação é limitado aqui. Se os abutres não têm medo, então nós não precisamos ter. Aproxime-se cautelosamente de qualquer forma."

"Claro!"

"Baishya pode ir com você."

"Pensei que ia pescar com você, Avó," Baishya protestou.

"Você precisa de prática. Se Atarka algum dia suspeitar que você é uma sussurradora, ela a comerá. Vá."

Naiva estava ansiosa para começar. Deixou sua mochila com os outros e, carregando apenas sua lança e faca, apressou-se para dentro da grama alta. Embora a grama fosse alta o suficiente para escondê-la da vista, ela farfalhava conforme ela se movia, um incômodo com o qual ela nunca tivera que lidar nas montanhas onde a grama nunca crescia tão alta.

Floresta | Arte de: Titus Lunter
Floresta | Arte de: Titus Lunter

Atrás, Baishya arquejou, "Espere."

Perturbados pelo ruído e movimento, os abutres lançaram-se ao ar.

"Hssh. Quieta." Naiva desacelerou ao alcançarem os rochedos externos do círculo. Parou com as costas contra a curva áspera do rochedo mais próximo e espiou para dentro em direção ao centro abrigado.

A extremidade cega de um cajado chicoteou pelo seu rosto, quase a atingindo conforme ela se esquivou para trás. Ela girou sua lança para frente e, com um rápido movimento circular, pegou a ponta do cajado do atacante e o golpeou com força para trás. A pessoa que o segurava tropeçou, parando conforme ela atingiu seu cajado novamente. Ela abaixou sua lança sob a ponta e investiu, e o estranho aparou o golpe conforme girou seu cajado para baixo. Mas o esforço o desequilibrou. Ele cambaleou para trás para sair do caminho dela. Ela saltou, pretendendo derrubá-lo ao chão, mas em vez disso parou, encarando.

Um jovem a encarava, arquejando pesadamente enquanto se apoiava em seu cajado. O ombro esquerdo de sua vestimenta estava pegajoso com sangue fresco. Seus vestígios vermelhos haviam se espalhado pelo pescoço para manchar seu queixo.

Ele tremia de dor, uma morte fácil, e merecia ser morto por invadir território Atarka. No entanto ela hesitou conforme ele apertou o cajado mais forte para permanecer ereto, como qualquer guerreiro orgulhoso deveria fazer.

Em uma voz rouca ele disse, "Você é do clã Temur. Procuro por Yasova Garra de Dragão."

Como se este discurso drenasse o último de suas forças, ele tombou inconsciente ao chão.

Baishya aproximou-se ao seu lado, encarando. "Quem é ele?"

"Busque a Avó."

Baishya inspirou bruscamente como se desgostasse da rispidez do comando de sua irmã, sacudiu-se e apressou-se para longe.

Naiva pressionou a ponta de sua lança contra a lateral do pescoço dele. Esperou como um caçador espera. No silêncio, teve tempo de examiná-lo mais de perto. Tinha a cabeça raspada e vestia calças largas e uma túnica cinza clara envolta com uma faixa na cintura e cinto com um belo fecho circular de ouro decorado com fios feitos de minúsculas correntes de prata. Um movimento reluziu em sua visão periférica conforme os dois abutres pousaram no topo do afloramento que ela pretendera escalar.

"Vocês só podem tê-lo se a Avó decidir que não vale a pena salvar," disse ela aos pássaros, mas seu olhar desviou-se de volta para os olhos fechados, lábios ligeiramente abertos e rosto magro dele. Ele não se parecia em nada com os jovens com quem ela crescera; parecia misterioso e intrigante.

Ele se agitou, gemendo, e ela preparou-se caso ele se levantasse lutando, mas o queixo dele afundou de volta e ele ficou imóvel. Ela deu um passo atrás conforme Baishya reapareceu com o grande orc um passo atrás. Fec vistoriou a clareira abrigada dentro das pedras antes de assobiar um "tudo limpo!"

Só então a Avó entrou no círculo de rochas. Caminhou ao redor do homem inconsciente, examinando-o de cada ângulo, então baixou-se para remover o cajado de sua mão solta.

"Ele disse que está procurando por Yasova Garra de Dragão," disse Naiva.

"Exatamente como na minha visão," disse Baishya ansiosamente.

"Você viu ele?" Naiva não queria que Baishya o tivesse visto primeiro.

"Não, não ele. Não me importo com ele. Ouvi aquelas palavras. Lembra?"

Talvez as vozes deles o tenham acordado, ou talvez ele estivesse o tempo todo lutando seu caminho de volta à consciência. Suas pálpebras tremeram. Até aquele leve movimento perturbou seu ferimento. Com um sibilo de dor, ele acordou, abrindo os olhos. Piscando, seu olhar mudou de uma garota para a outra e de volta com um aperto de olhos de confusão.

"Quão forte bati minha cabeça?" sussurrou ele. "Minha visão me mostra duas. Diz-se que as sussurradoras Temur têm o poder de criar uma duplicata de si mesmas a partir do gelo. Seria uma o revenante mágico da outra?"

Zombaria em Espelho | Arte de: Ryan Alexander Lee
Zombaria em Espelho | Arte de: Ryan Alexander Lee

A mão da Avó apertou a lança que carregava: uma lança comum com ponta de obsidiana, não a lendária lança de garra de dragão que outrora anunciara sua posição como governante de todo o povo Temur. "Você está sendo caçado por uma das crias de Ojutai, não está?"

"Estou."

"Eu deveria matá-lo e entregá-lo ao seu dragão soberano. Sua presença coloca meu povo em risco."

"Você não pode matá-lo," exclamou Naiva. "Ele veio te encontrar! Se você não o curar, ele morrerá."

"Todos morremos, agora ou depois," respondeu sua Avó em seu tom mais enlouquecedoramente calmo. "Isto poderia ser uma armadilha por parte de Ojutai para me encontrar."

"Então você é Yasova, guardiã do passado e protetora do agora não escrito."

"Por que isso importa para você?"

"Há três meses, meu mestre teve um sonho. Quando acordou, disse-me que eu estava destinado a fazer uma longa jornada. Disse que era hora de compartilhar nossos segredos."

"Muita gente afirma ter segredos, mas poucos deles valem a pena ser compartilhados," a Avó disse.

Ele deu vários suspiros irregulares para reunir força para mais palavras. "Ojutai destruiu os registros que Shu Yun preservou por tantas gerações. Ele quer destruir nossa memória do passado, e de nossos ancestrais, para que nosso povo saiba apenas o que os dragões soberanos desejam que saibam. Mas a história que o Dragão Espírito contou aos primeiros xamãs sobreviveu porque não foi apenas escrita. Também foi passada de mestre para estudante, memorizada e entregue à geração seguinte."

A fronte da Avó franziu-se. Um vislumbre despertou em seus olhos, um lampejo de excitação, um frêmito de medo e esperança. "O Dragão Espírito falou com seus xamãs?"

Refúgio do Dragão Espírito | Arte de: Raymond Swanland
Refúgio do Dragão Espírito | Arte de: Raymond Swanland

"Sim, e eu sei — " Ele interrompeu-se, tossindo. Gotículas vermelhas mancharam seu queixo, e sua respiração ficou mais irregular conforme lutava para permanecer acordado.

"Nunca saberemos se você não o curar," gritou Naiva.

"Nai tem razão," concordou Baishya. "Deixe-o provar a verdade de suas palavras."

A Avó franziu o cenho. "Fec? Algum sinal da cria de Ojutai?"

O orc agachou-se no topo de uma das rochas menores, embora Naiva não conseguisse imaginar como ele conseguira escalar até lá com sua perna ruim. "O céu está vazio. Isso me parece um mau sinal."

A Avó ajoelhou-se ao lado do jovem. "Qual é o seu nome?"

"Sou Tae Jin, Yasova Garra de Dragão."

"Não use esse título novamente."

Ela pegou a mão que ele estava pressionando contra seu ferimento e a moveu para o seu outro lado. O sangue brotou contra o pano no instante em que a pressão foi removida. Ela tirou a luva e colocou a mão nua, dedos espalhados, sobre o ferimento. O brilho da magia iluminou sua mão, sua força vital como uma lanterna queimando a agonia em seu corpo. Ele cerrou os dentes, sem emitir som, mas o suor brotou em sua testa apesar do vento frio soprando sobre eles.

A magia desvaneceu. Os olhos da Avó pareciam cansados e exaustos, mas ela não deu nenhum outro sinal do preço que a magia de cura cobrara dela enquanto sentava-se sobre os calcanhares.

"Diga-me algo que eu não saiba, e posso deixá-lo viver."

Ele inspirou e expirou livre da tosse excruciante. "Estas são as palavras de Ugin, o Dragão Espírito, que as proferiu em dias antigos para um de meus ancestrais Jeskai."

Então ele começou a falar em um tom mal audível e quase mecânico como se fosse meramente um funil através do qual uma voz muito mais antiga falava através de gerações.


)

Se você deseja dominar o caminho, então deve aprender e repetir e lembrar. Conhecimento é também memória. Esquecer o passado é perder um pedaço de nós mesmos. Quanto mais para um povo inteiro que perde seu passado.

Minha própria história é simples. Aquele que eu mais amei em todos os mundos é aquele que me matou.

Como aconteceu? Isso é menos simples, e levará mais tempo para contar. Ouça cuidadosamente, pois ele pode vir aqui algum dia, e se isso acontecer, então você deve tomar cuidado, pois quaisquer palavras que ele proferir para lisonjear e persuadi-lo serão mentiras.


)

A Avó sibilou agudamente.

Baishya pegou a mão dela. "Você está bem? Algo a está afligindo?"

"Não, foi apenas uma lembrança ruim. Vá em frente, Tae Jin. Agora estou interessada."

Ele assentiu, como se esperasse esta resposta, e continuou falando.


)

Nós dragões caímos do céu em uma terra que não nos conhecia, nem nós a conhecíamos. Naturalmente, éramos muitos filhotes. Cada um encontrou este novo mundo à sua maneira.

Nasci gêmeo de Nicol, onde em cada outro ovo havia apenas um. Acordamos juntos, nomeamos-nos juntos, tocamos o solo de nosso novo lar no mesmo instante. Testemunhamos a morte de uma irmã e, desta maneira, aprendemos que criatura alguma está segura. Nem mesmo nós.

Quando Nicol e eu deixamos o topo da montanha, voamos em busca de nossos irmãos. A morte de nossa irmã me assombrava por quão brevemente ela vivera e quão selvagemente morrera. Quanto a Nicol, ela o enfurecia porque o assustava, embora ele o negasse. Se você algum dia tiver a infelicidade de conhecê-lo, eu nunca recomendaria que sugerisse a ele que ele em qualquer ponto de sua longa vida sentiu medo.

E quanto aos nossos irmãos sobreviventes? Suponho que você nunca tenha ouvido falar deles. Os nomes dos dragões anciões foram outrora celebrados com temor e respeito. É tão fácil esquecer. Memória alguma está segura.

Mas que voo tomamos naquele primeiro dia, vendo tudo com olhos recém-nascidos! O céu, tão largo! Nuvens como névoa, e rios correndo através de uma vasta terra coberta com vegetação e feras. Eu era apaixonado por saber o que cada coisa era e descobrir seu nome e um propósito.

Nicol encarava tudo também, o céu tão largo e as nuvens como névoa, e então disse: "Como poderíamos ter impedido aqueles caçadores de matá-la?"

"Uma vez que entendermos melhor o mundo, encontraremos a resposta. Você não está excitado em explorar?"

"Deveríamos ter interferido."

"Você estava preso."

"Eu não estava preso! Poderíamos ter tramado algo, se você não tivesse hesitado."

"Fizemos o que sabíamos fazer na época."

"Não foi o bastante! Precisamos aprender o que poderíamos ter feito para impedir."

"Você não está curioso sobre o mundo?"

"Quero saber quem são aqueles caçadores, e de onde vêm, e como podemos destruí-los. Aprenderam que podem matar um de nós agora, então não nos temerão."

"Olhe ali," respondi, esperando distraí-lo. "Um de nossos irmãos!"

Em um vale alto nas montanhas estendia-se um lago profundo e escuro. Um dragão longo e esguio com brilho metálico em suas escamas estava estendido em um afloramento plano de rocha nua, pernas dianteiras pendendo sobre a borda, sua cabeça elegante suspensa sobre a água como se tivesse caído no sono. Conforme voamos excitadamente ao redor dele, buscando um lugar para pousar, algo monstruosamente grande girou nas águas do lago, desaparecendo em profundezas mais turvas. De seu poleiro no afloramento, Chromium Rhuell olhou para cima bruscamente e com o maior desagrado.

Arte de: Chase Stone
Arte de: Chase Stone

"Por que vocês me perturbam, jovens?"

"Não somos mais jovens que você! Caímos do mesmo bater de asas!" Sem pedir permissão, Nicol pousou ao lado de nosso irmão. Eu apressadamente desci ao lado dele.

"Vocês eclodiram depois, portanto são mais jovens. E devo dizer, são bastante pequenos. Leva ambos para fazer um de mim." Ele nos olhou como se medisse nosso valor de acordo com o nosso tamanho. "Vocês arruinaram minha observação das várias criaturas que vivem no lago."

Nicol esticou o pescoço para olhar para baixo nas águas turvas. "Você está caçando?"

"Caçando? É tudo o que você pensa? Quais são seus nomes? Não, espere. Não precisam me dizer."

"Você vai tentar adivinhar nossos nomes?" Nicol perguntou sarcasticamente.

"Eu não adivinho. Dragões nascem com o dom dos nomes. É da nossa natureza conhecer nomes sem que nos digam. Exatamente como conhecemos nossos próprios nomes no momento em que acordamos para a consciência." Ele fechou os olhos, nada temeroso de nós, então abriu-os para nos examinar com um olhar aguçado e implacável que me irritou porque ele estava tão seguro de si mesmo. Mas sua curiosidade e confiança também me intrigaram. "Por que vocês cada um só tem um nome?"

Nicol nada disse enquanto riscava um sulco na rocha. Vapor bufou pelos lados de sua boca fechada.

"Nascemos gêmeos juntos," disse eu, sentindo-me um pouco defensivo em nome de meu gêmeo e talvez um pouco no meu próprio também.

"Ah, então vocês têm dois nomes, mas os dividem entre si, um para cada. Isso explicaria seu tamanho também, e talvez por que pareçam tanto mais jovens. Hum. Interessante."

"Como é interessante?" Nicol exigiu, cauda chicoteando de lado a lado.

"Existe uma ordem subjacente ao mundo. É difícil discerni-la porque muito dela está escondida de nossos olhos. Naturalmente, a maioria das criaturas carece da paciência ou do desejo de aprofundar-se neste livro de conhecimento."

"Eu não careço de nada," disse Nicol.

Chromium Rhuell bufou fumegante e desdobrou suas asas o suficiente para expressar desagrado. "Tenho certeza de que não. Mas por ora, vão embora, pequenos. Quero retornar às minhas observações. Não consigo com vocês dois aqui falando tão alto e incomodando a vida selvagem."

"E quanto à caça?" Nicol perguntou.

"Se caçar é tudo o que lhe interessa, então pode muito bem ir encontrar Palladia-Mors. Ela certamente não tem ambição maior."

Ele nos encarou até tomarmos a pista e partirmos.

Em uma vasta extensão de pastagens, uma enorme dragão verde-avermelhada com chifres curvos rugia enquanto perseguia um bando de feras de quatro patas. Soprou chamas sobre a última, e ela colapsou, estremeceu e expirou. Ela circulou de volta e estabeleceu-se ao lado do cadáver para comer.

Eu voei até lá, Nicol ao meu lado. Quando pousamos perto dela, ela voltou olhos vermelhos brutos para nós e cuspiu um sopro de aviso de fogo em nossa direção.

"Isto é meu. Meu."

"Você é Palladia-Mors," disse eu educadamente. "Nossa irmã mais velha. Chromium Rhuell sugeriu que viéssemos até você para aprendermos sobre caça."

"Vão caçar os seus." Ela arrancou um grande naco de carne e, com sangue manchando seu focinho e dentes, mastigou e engoliu, então virou a cabeça novamente para nos encarar furiosamente. "Vocês são tão pequenos, vocês dois. Pequenos runts. Provavelmente pequenos demais para caçar."

Arte de: Svetlin Velinov
Arte de: Svetlin Velinov

"Nós podemos caçar!" Nicol arranhou raivosamente a terra, então acrescentou, "Melhor do que você, uma vez que aprendermos como."

Ela agarrou o cadáver carbonizado da fera e o atirou em nós com uma risada violenta. Nicol saltou lateralmente, sobressaltado, mas eu permaneci agachado onde estava pois vi que o arremesso me erraria, como de fato errou. Seu peso chocou-se contra a terra, salpicando-nos com fluidos.

"Aí, podem ficar com as minhas sobras. A carne desta está dura e seca. Pretendo matar uma mais saborosa para o meu próprio jantar."

Ela abriu suas magníficas asas e lançou-se ao céu. A força de seus batimentos de asas nos achatou como ventos de tempestade, e então ela se fora, lançando-se atrás do bando em fuga. Farejei o animal morto, buscando do que restava de seu espírito alguma indicação de seu nome e substância: era um íbex, velho para sua espécie; tivera uma vida pacífica, e isso dava ao seu sangue e carne um certo odor agradável.

Arranquei um pedaço de carne. Era prazeroso comer, mesmo que um pouco duro. "Venha provar isto."

"Não aceitarei as sobras de ninguém." Nicol sentou-se sobre a cauda, esticando-se para ver quão alto conseguia alcançar. "Não somos tão pequenos. Somos maiores que qualquer uma das feras que vagueiam por esta terra. Você vem comigo?"

Parecia desperdício deixar a fera morta mas, enquanto eu considerava a carne esfriando, insetos assentavam sobre sua pele para cavar e pequenos carnívoros rastejavam para mais perto, parando a uma distância segura, esperando partirmos. Outras criaturas também haviam começado o trabalho de devorar a carne morta, embora fossem tão pequenas a ponto de serem invisíveis a olho nu. Aquilo que decai está também sendo consumido.

A revelação varreu-me como o ímpeto quente de uma tempestade: dentro da teia invisível que é a vida e a morte, nada se perde.

"A morte é meramente parte de um ciclo maior," disse eu, bastante impressionado com minha incrível sabedoria.

"Quero matar algo," disse Nicol. "Você vem?"

Era a segunda vez que ele perguntava se eu vinha com ele. Para ser justo, nunca estivéramos separados, nunca havíamos caminhado ou voado o menor span sem o outro ao alcance do ouvido. Eu não conseguia imaginar estar no mundo sem ele ao meu lado.

"Sim. Vamos aprender como caçar juntos."

Dragões são caçadores naturais. É para o que nascemos: caçar e nomear e acumular conhecimento. Mas mesmo assim, os íbexes e gazelas da planície eram velozes e astutos nos modos de evitar serem saltados. Tinham mais prática em escapar do que nós tínhamos em pegar.

Certa vez Palladia-Mors deslizou por nós justamente quando havíamos enfim encurralado com sucesso uma pequena gazela. Com facilidade zombeteira, ela arrebatou o animal antes de nossas garras se fecharem sobre ele. Com um rugido provocador, ela voou para longe com ele em suas garras. Nicol quis persegui-la, mas eu fechei minha boca em sua cauda e o segurei debatendo-se até que ele se acalmou o suficiente para ouvir.

"Ela vence se nos enfurecer. Você quer que ela vença?"

Ele tossiu um fio de fumaça fuliginosa das profundezas de sua frustração mas, depois disso, tomamos cuidado para voar longe dos campos de caça de nossa irmã mais velha para que ela não se incomodasse em nos atormentar.

"É da natureza dela caçar e não pensar em mais nada," disse eu. "Mas não somos como ela. Podemos pensar em mais coisas além de apenas caçar. Caçar é o que fazemos para nos alimentar, não como vivemos no mundo."

No entanto, no momento em que finalmente arrastamos um animal retardatário fraco demais para correr mais que nossas pífias tentativas de captura, eu estava exausto e Nicol estava tão frustrado que arrancou os membros da criatura, engoliu-os rápido demais e os tossiu de volta.

"Aqueles caçadores não deveriam ter sido capazes de matar nossa irmã," disse ele quando pôde falar.

"Posso comer em paz sem que sua obsessão arruíne minha refeição?" perguntei, mastigando cansadamente uma tira de carne de flanco.

"Os caçadores trabalharam juntos. Se aprendermos a trabalhar juntos, então poderemos caçar melhor que Palladia-Mors."

Comi pensativamente, considerando suas palavras. Era verdade que havíamos caçado à maneira de nossa irmã mais velha, cada um caçando sozinho, contando com nossa velocidade e força individuais. E se houvesse uma maneira melhor?

Limpamo-nos em um banco de areia quente e cochilamos no sol da tarde. Após esta estadia agradável, Nicol esqueceu sua frustração e estava ansioso para pôr-se ao trabalho. Passamos anos, como vocês Jeskai mediriam o span dos dias, aperfeiçoando várias técnicas para caçar em conjunto. Eventualmente fomos capazes de capturar facilmente o espécime mais suculento e saudável de qualquer rebanho, não importa quão velozes e astutos os animais fossem.

A esta altura, já havíamos explorado novos territórios. Várias vezes fomos perseguidos por um grande dragão feio chamado Vaevictis Asmadi que, com seus irmãos, guardava furiosamente um território que reivindicavam para seus próprios campos de caça embora tivesse espaço abundante e caça suficiente para muitos caçadores culparem. Então, exploramos mais longe, pois para nós, parecia que a terra era vasta e o oceano que a cingia uma barreira intransponível. Éramos tão jovens e ignorantes naqueles dias.

Arte de: Steven Belledin
Arte de: Steven Belledin

Um dia, pousamos em uma colina em meio a uma planície ricamente florestada. Deste ponto de observação, vimo-nos olhando sobre um assentamento ribeirinho habitado pelos bípedes chamados humanos. Em geral, evitávamos humanos. Não tinham um gosto bom, e eu não gostava de comer coisas que podiam falar.

O assentamento era circundado por um muro construído de vigas de madeira costuradas com revestimento de pedra, os espaços entre as vigas entrelaçadas compactados com terra. Havíamos observado outros tais assentamentos onde estas pequenas e frágeis criaturas se protegiam flutuando em números. Este era de longe o maior, com a maior variedade de estruturas e o maior número de humanos espremidos dentro de seus confins insalubres. Em suma, era possível senti-lo de uma grande distância.

Para nossa surpresa nosso irmão Arcades Sabboth tomara residência dentro do grande muro circular. Um pátio espaçoso fronteava um edifício muito grande construído de madeira com um telhado de palha de pico alto. Em um pátio carregado de pedras de rio planas, ele descansava à vontade. Escudos de bronze decorados com espirais flanqueavam-no em ambos os lados, tão polidos que qualquer pessoa que se aproximasse seria refletida em seu brilho. Diante dele, plantada em um vaso de bronze cheio de ágatas, erguia-se uma árvore esguia com um tronco fino esculpido em marfim e folhas moldadas em ouro.

Pessoas vestindo braceletes e broches de prata e ouro o atendiam. Alguns eram escribas sentados de pernas cruzadas em esteiras, pincelando letras em pano de casca. Suplicantes humildemente vestidos ajoelhavam-se perto da árvore com cabeças baixas, aguardando um julgamento.

Eu queria observar a cena por um tempo, pois me assombrava bastante ver um dragão interagindo com humanos de tal maneira íntima. Mas Nicol estava impaciente, ansioso para conhecer este irmão reluzente cujas escamas eram de um branco ofuscante sob o sol e que presidia sobre os humanos com tal segurança.

"Eu não sabia que humanos confiariam em dragões," disse ele.

Como os humanos moviam-se ao redor de nosso irmão sem medo, aproximamo-nos abertamente. No entanto, quando chegamos à vista dos campos cultivados ao redor da cidade, as pessoas correram para os muros. Trombetas soaram como aviso. Arqueiros tomaram posições ao longo do caminho do muro. Mal chegamos ao alcance e rajadas de flechas aceleraram para cima, mirando nossos ventres. Algumas flechas atingiram o alvo. Seu toque em minhas escamas grossas era pouco mais que uma sensação de formigamento, mais irritante que perigoso, no entanto uma memória vívida da morte de minha irmã inflamou-se em meus pensamentos e sufocou a raiva no meu peito.

Nicol subiu para pairar no céu por um momento, esticado como gostava de fazer para parecer maior. Seus chifres curvos captaram a luz do sol e brilharam. Então ele girou em um parafuso gracioso e mergulhou em um rasante. Sua rajada de fôlego de fogo queimou ao longo da torre mais alta e do caminho do muro adjacente. Soldados infelizes gritaram e caíram conforme o fogo os queimava.

Um corpo enorme chocou-se contra Nicol, enviando-o tombando pelo ar. Ele mal bateu as asas o suficiente para se manter no alto conforme nosso irmão mais velho, Arcades, circulava de volta para outro ataque. Eu disparei entre eles, clamando.

"Irmão! Não pretendemos mal algum. Queremos apenas falar com você."

Guiei um Nicol furioso, machucado e batido de volta à colina de onde tínhamos visto a cidade pela primeira vez. Pousamos em seu outeiro gramado. A morte não era mais uma estranha para mim, pois havíamos matado nossa cota de presas, mas os gritos dos soldados moribundos me perturbaram de uma maneira que os últimos momentos dos animais que caçamos não haviam perturbado. Nicol estava sangrando pelo arranhão das garras de Arcades ao longo de seu flanco. Estava bufando, batendo o pé, resfolegando.

Eu disse, "Lá vem ele!"

Arcades pousou, asas abertas largas. Seu olhar era tão brilhante quanto o sol e suas garras estavam para fora.

Antes que Nicol pudesse falar eu disse, "Perdoe-nos, Irmão. Pensamos que as criaturas estivessem acostumadas com dragões."

É da natureza dos dragões conhecerem os seus.

"Vocês são os gêmeos, Nicol e Ugin."

"Eu sou Nicol Bolas," disse Nicol.

"Você é?" perguntei. "Quando foi que isso aconteceu?"

"Tenho dois nomes. Todos os dragões de verdade têm dois nomes."

"Ugin está bom para mim," disse eu, descartando aquilo como mais uma das mudanças de humor mercuriais de Nicol. Voltei-me educadamente de volta para nosso irmão mais velho. "Irmão Arcades, por que os humanos nos atacaram quando nos aproximamos?"

Ao contrário de nossa irmã rugidora, Arcades falava em uma voz comedida, ressonante, profunda e calmante. "Meus súditos pensaram que vocês os estivessem atacando."

"Por que pensariam isso?" perguntei.

"Não somos os únicos dragões no mundo."

"Sabemos disso," disse Nicol. "Há Palladia-Mors, e Chromium Rhuell. Já conhecemos ambos."

"E o bando de Vaevictis. São uma verdadeira gangue de saqueadores. E mais além deles, alguns voando sozinhos e alguns em bandos. Eu protejo os humanos dos outros dragões que vagueiam por esta terra. Mas também estou ensinando os humanos a um caminho de vida melhor, um governado não apenas pelas suas próprias tendências primitivas e violentas."

"Por que você se importa com os humanos?" Nicol perguntou. "Eles mataram uma de nossas irmãs, quando caímos pela primeira vez."

Arcades mudou a posição de suas asas em sinal de aceitação. "Esta luta é o caminho da vida e da morte, não é? Humanos têm o direito de viver, exatamente como nós."

Nicol flexionou as garras mas nada disse, e pude ver que o esforço lhe custava. Mas talvez ele estivesse aprendendo a se acalmar e pensar mais.

Arcades não conhecia Nicol como eu conhecia e por isso continuou falando, tendo perdido o lampejo de raiva de Nicol. "Humanos são criaturas interessantes. Ao contrário da nossa espécie, eles trabalham juntos. Querem vir ver? Podem visitar por um tempo como meus convidados de honra, contanto que sigam as regras de lei e ordem que estabeleci nesta colônia."

Nicol olhou para mim. "Eu gostaria disso," disse ele em um tom frio e plano.

Fiquei satisfeito em ouvi-lo ser tão razoável. Pensei que o conhecia até os ossos, mas eu ainda não sabia do que ele era capaz.

Assim, foi então que acompanhamos Arcades de volta à cidade. Ele nos tornou conhecidos ao povo ali, e eles nos saudaram com temor e respeito, embora, talvez, não com tanto temor e respeito quanto mostravam a Arcades, a quem chamavam de "Dragão Soberano."

Arte de: Even Amundsen
Arte de: Even Amundsen

Ali permanecemos por anos. Observamos conforme os humanos cercavam mais território com mais muros, conforme pessoas nasciam em números crescentes e construíam mais casas e limpavam mais campos, conforme enviados comerciais vinham de cidades distantes para a cidade em crescimento. Enfiei meu focinho em tudo, e fiz amizade particular com uma velha anciã sagrada chamada Te Ju Ki, cujo único propósito na vida, ao que parecia, era pensar sobre coisas que não podiam ser vistas. Ela vivia sozinha em uma câmara redonda cujas paredes eram feitas de lajes de pedra. Como a pedra, ela era dura e seca. Embora fosse murcha de membros e frágil de corpo, sua mente era tão afiada quanto obsidiana.

Nicol não tinha paciência para o modo de ser desapegado dela no mundo; ele queria estar onde Arcades estava, guiando e aconselhando o povo. Nicol tornou-se útil de cem maneiras, cavando em cada fenda da vida e emoção humanas. Mas a ganância e excitação e ansiedade e competitividade dos humanos me cansavam quando eu estava perto demais, então a solidão do caminho de Te Ju Ki me atraiu. Absorvi a sabedoria calma que ela exalava.

Dias inteiros passavam em silêncio enquanto ela e eu sentávamos em sua câmara circular. Seu telhado há muito caíra, e ela me informou uma vez que a torre semi-colapsada era um artefato de construtores que haviam permanecido aqui antes do povo que agora vivia neste lugar.

"Não somos os primeiros, e não seremos os últimos," disse ela. "Vemos apenas nossa mão diante do rosto, mas houve outras mãos aqui antes das nossas, e virão outros depois de nós. Até este mundo é apenas uma camada em meio a muitas outras."

Ela conhecia muitos esquemas como auxílio à meditação, mas eu gostava mais de quando ela girava globos de luz no ar. Fios translúcidos de magia prendiam cada um dos globos aos outros de modo que, conforme giravam no ar, permaneciam ao mesmo tempo separados e no entanto ligados por conexões misteriosas demais para eu compreender. Chamava cada um de "plano," embora eu não soubesse o que ela queria dizer com a palavra naquela época. Quando perguntei se os globos eram um experimento mental ou se realmente existiam, ela disse que não importava porque nenhum ser físico poderia cruzar entre planos. Mas eu não me importava com aquilo. O modo como os globos radiantes se entrelaçavam e moviam-se em e ao redor uns dos outros me fascinava tanto quanto a sabedoria que ela proferia em seu sussurro rouco de voz.

"Tudo o que vive está entrelaçado. Tudo o que morre é consumido por algo mais, por outro animal ou pela decadência. Nesta podridão jaz o cerne da vida nova, pois ela retorna ao mundo conforme as sementes criam raízes e crescem. Não há fim, apenas ciclos infinitos de transformação."

"Você morrerá algum dia."

"Sim."

"Isso não te assusta?"

"Minha essência continuará a existir em outras formas. Fragmentos do meu ser transformar-se-ão em novas e notáveis entidades com suas próprias jornadas a fazer. Como isso é assustador?"

"Parece assustador para mim. Dragões morrem?"

"Todas as coisas terminam. Às vezes isso não é o mesmo que morrer. Você deseja que eu o ensine como criar os globos e girá-los? É um exercício para acalmar a mente."

Eu desejava. Oh, como desejava. Mas era uma tarefa árdua, e eu não aprendia rápido.

Certo dia enquanto eu estava sentado ao sol manifestando um único globo de luz acima de minha perna dianteira esquerda, bastante orgulhoso demais da minha minúscula realização, veio um terrível tumulto de gritos e berros da direção dos armazéns do palácio. Sob o reinado de Arcades Sabboth, o reino habitava em paz e ordem, então os clamores de medo e agonia irregular cortaram com intensidade brutal a tarde silenciosa.

Minhas escamas formigaram como se assaltadas por cem flechas — nada que pudesse me perfurar mas apenas me alarmar. Algo estava acontecendo. Algo ruim.

O globo dissolveu-se com um estalo que se tornou uma nuvem de luzes dispersas por uma lufada de vento. Às pressas, fiz meu caminho até o pátio em frente aos armazéns, um lugar onde carroças e vagões e cavalos de carga podiam descarregar e carregar carga. Sangue salpicava o pátio de paralelepípedos. Um homem estava de joelhos nas pedras. Uma faca ensanguentada cravada no peito de outro homem contava a história macabra de um assassinato violento. Guardas do palácio cercavam o assassino que encarava suas mãos ensanguentadas em perplexidade.

"Mas ele é meu irmão. Como isso aconteceu? Quem o esfaqueou?"

Testemunhas empurraram-se para frente. "Você se voltou contra ele. Gritou para ele que ele estava roubando seu direito de primogenitura e pretendia te enganar. Então você puxou a faca e o esfaqueou."

Sua voz era ofegante e perdida. "But aquela disputa entre nós foi toda resolvida anos atrás quando nossos pais nos deram o negócio de carretagem para tocarmos juntos . . . " Ele balançava a cabeça repetidamente como se tentasse sacudir para fora um verme nocivo que tivesse se enterrado dentro dele. "Nunca mais brigamos depois disso, nem um só dia."

As palavras caíram vazias, dada a evidência.

Assassinato | Arte de: Tyler Jacobson
Assassinato | Arte de: Tyler Jacobson

Os guardas o levaram embora. Enquanto um intendente ordenava que o corpo fosse removido e o sangue lavado das pedras, ergui meus olhos para o telhado de um dos edifícios próximos. Nicol repousava ali, estendido ao longo da cumeeira, observando a cena com um olhar ávido.

"O que você fez?" exigi na linguagem dos dragões.

"O que eu fiz? Não me movi daqui."

"Você ficou de lado e deixou acontecer? Poderia ter intervindo."

Um esgar de satisfação franziu seu semblante. "E se eu intervi?"

A sensação de formigamento intensificou-se. "O que você quer dizer? O que você fez, Nicol?"

"Descobri uma maneira melhor de conseguir vingança. Você vem ou vai ficar com sua sábia de voz mansa e seus pedacinhos insossos de sabedoria?"

"Vindo para onde?"

"Vou vingar nossa irmã, como deveríamos ter feito há muito tempo."

Ele abriu as asas e, sem sequer despedir-se adequadamente de nosso irmão, voou tão rápido que sumiu de vista antes que eu realmente percebesse que ele pretendia deixar tudo aquilo para trás. Apressou-me a encontrar nosso irmão.

"Um magistrado ouvirá o caso e dará uma sentença. Nem chegará a ser trazido ao meu conhecimento. Não há necessidade de se preocupar com isso, Ugin. Pode voltar aos seus estudos." Ele disse quando o encontrei.

"Mas você não acha estranho que os dois irmãos tenham trabalhado juntos em paz por anos e então isso aconteceu subitamente?"

"Humanos têm esses problemas," ele explicou tendenciosamente para mim. "Eles mantêm suas emoções pesadas por anos, e então uma centelha acende, e explodem. Aconteceu antes, e acontecerá de novo."

Mas meu coração permaneceu inquieto.

"O que você teme?" Te Ju Ki perguntou-me ao anoitecer, quando retornei à sua câmara sem telhado.

"Não sei. Mas meu coração não descansa."

"Você não pode continuar seus estudos neste estado, Ugin. Sinto muito. Talvez você precise de um tempo longe."

Continuei pensando em Nicol, voando para longe. Vou vingar nossa irmã.

"Sei para onde ele está indo. Preciso segui-lo."

"Sua jornada é o seu caminho a percorrer, Ugin. Que você encontre o que busca."

Eu não queria partir, mas precisava seguir. Algo momentoso acontecera. Fez-me pensar em estar parado no leito seco de um riacho em um deserto quando uma tromba d'água escurece as colinas distantes. As águas da enchente estão vindo mesmo se você ainda não consegue vê-las.


)

"Baixo! Protejam-se!" gritou Fec. "Ele o espreitou através da grama!"

Um farfalhar alto como o som de chuva varreu-os, embora o céu permanecesse limpo. Os abutres lançaram-se ao céu em uma corrida frenética de asas.

uma sombra caiu sobre eles conforme a cabeça e o pescoço sinuoso de um dragão ergueram-se por trás do afloramento. Era uma criatura deslumbrantemente bela, escamas de um branco-cinza pálido com um toque de azul. Uma crista azul escura erguia-se do centro de sua cabeça entre dois chifres longos e elegantes. Seu olhar marcou cada um deles e descartou cada um deles com um brilho de inteligência em nada parecido com a fome bruta das crias galhadas de Atarka. Então viu o jovem ainda sentado no chão. A criatura sibilou, fios de uma névoa fria e enevoada vazando de suas narinas.

Dançarino da Brisa Astuto | Arte de: Todd Lockwood
Dançarino da Brisa Astuto | Arte de: Todd Lockwood

Tae Jin saltou aos pés, pressionando seus antebraços juntos em um gesto de súplica. Seria afinal uma armadilha? Teria ele entregado a Avó a uma das crias de Ojutai?

Um grande pássaro voou de trás do dragão e pousou no afloramento. Não era pássaro mas um aven, vestindo um colete elaborado que pendia quase até seus pés com garras. Sua cabeça era coroada por uma crista e chifres longos similares aos do dragão que servia.

Quando a cria falou em um estrondo estalado de dracônico, o aven traduziu.

"Tae Jin, pelo comando do Grande Mestre, você é acusado do crime de sacrilégio e sentenciado a morrer pelo gelo. Será meu prazer e honra matá-lo."

Crônica de Bolas: Coisas Invisíveis

Naiva crescera sob o domínio do Dragão Soberano Atarka. Por toda a sua vida ela observara sua avó, Yasova, outrora conhecida como Garra de Dragão do clã Temur, entregar obedientemente carne ao local de reunião em Ayagor para que Atarka pudesse banquetear-se. "Para manter o povo vivo, alimentaremos o dragão," a Avó dizia a cada ano quando alguns dos caçadores mais velhos resmungavam sobre perder os velhos caminhos. No entanto, a cada ano, menos lembravam dos dias antes da queda dos khans e, assim, menos reclamavam e, claro, para os jovens como Naiva, o domínio de Atarka era tudo o que jamais conheceram.

Então, quando ela estava presa em um círculo de rochedos com a Avó e Baishya de um lado e, do outro, um belo jovem errante que trouxera a ira de um dragão sobre eles, ela sabia o que a Avó faria. A outrora poderosa Yasova Garra de Dragão cederia à cria de dragão de Ojutai que se agigantava sobre eles, exigindo matar o guerreiro renegado.

Não deveria ser assim! Ao sugar um fôlego ríspido, ela desejou ter fogo como os dragões tinham fogo para que pudesse escaldar a grande fera e transformá-la em cinzas. Desejou poder golpear mesmo que isso significasse sua própria morte. Não era melhor lutar do que ceder repetidamente até que sua alma fosse esmagada e você negasse seu próprio nome?

O dragão abriu sua bocarra como um aviso para repelir o restante deles. O frio irradiava do fundo de seu corpo maciço, pronto para congelar qualquer criatura que estivesse em seu caminho.

A Avó captou o olhar de Naiva. Lá vinha: ela faria o gesto de mão para recuar; ela deixaria o estranho encontrar seu destino, na morte.

Mantendo sua mão escondida do aven sobre a rocha, a Avó gesticulou Matar.

Conforme o dragão empinou a cabeça para golpear Tae Jin, Baishya estendeu os braços em direção à terra, uma luz esverdeada quente acumulando-se em suas mãos e fluindo para o solo. O hálito pungente do dragão disparou em direção a Tae Jin. Impossivelmente, um rochedo rolou lateralmente para o caminho de seu hálito. Uma crosta espessa feita do hálito gélido do dragão estalou ao redor da rocha, solidificando-se antes de atingir Tae Jin.

Uma flecha lampejou no alto para atravessar uma das asas do aven. Conforme o aven cambaleou, crocante de dor, Naiva atirou sua lança. A ponta de obsidiana atravessou a bela vestimenta do aven e entrou direto em seu peito emplumado. A Avó lançou sua própria lança, e a arma atingiu a cabeça do aven para o golpe de morte.

O dragão rugiu, o pescoço chicoteando de lado a lado em sua fúria. Tae Jin esquivou-se entre os rochedos. Um segundo fluxo de seu hálito gélido explodiu no chão aberto onde ele estivera parado há pouco.

Regente da Queda de Gelo | Arte de: David Gaillet
Regente da Queda de Gelo | Arte de: David Gaillet

Naiva saltou lateralmente para empurrar a Avó para uma fresta estreita entre dois rochedos. Lâminas de grama congelaram e estilhaçaram em seus calcanhares. A parte de trás de suas pernas ficou dormente, mas suas calças de feltro deram-lhe alguma proteção. Olhando para trás, viu Baishya de joelhos, dobrada, exausta e quase desmaiando pelo esforço de mover a rocha. Fec disparou uma flecha inútil contra o dragão que ricocheteou em seu couro escamoso, mas ele nem sequer olhou para o lado dele. Serpenteou sua cabeça para baixo para chocar-se contra o rochedo que Baishya movera e atrás do qual ela agora se abrigava. Naiva arrancou sua faca de esfolar da bainha e correu de volta para sua gêmea, alcançando-a justamente quando o dragão usou uma garra maciça para empurrar o rochedo para o lado como se fosse o mero seixo.

O corpo dele agigantando-se acima delas preenchia toda a sua visão. Ela apertou Baishya contra si. Ao menos morreriam como haviam nascido: juntas.

Um uivo retumbante rachou o ar. A cria de Ojutai empinou para trás, girando conforme um dragão vermelho coroado com galhadas — a mesmíssima cria que as vinha seguindo — mergulhou do céu e chocou-se contra ela. As duas feras rolaram sobre a grama, agarrando-se e arranhando-se. O peso de sua batalha sacudiu o chão. Fogo encontrou gelo em um turbilhão de brasas e flocos de neve cintilantes.

Naiva ergueu Baishya aos pés. "Consegue caminhar?"

Baishya assentiu, sem fôlego demais para falar. Apoiou-se em Naiva, tremendo, rosto pálido.

"Eu não sabia que você conseguia fazer aquilo!" Naiva exclamou.

"Eu também não," Baishya sussurrou.

A Avó apareceu. "Recuem para as árvores. Tae Jin!"

Correram em direção à linha das árvores conforme os dragões rolavam para mais longe. Naiva estava grata pela grama alta agora já que as escondia. Os rugidos e guinchos dos dragões batalhando cobriam o ruído de seus passos e sua passagem através da grama sussurrante. Tinha tantas perguntas mas tempo algum para perguntar. Com Baishya ainda apoiando-se pesadamente nela, entrou sob as árvores. Baishya soltou-se e caiu ao chão, encostando-se em um tronco enquanto trabalhava para recuperar o fôlego.

Perto da poça, os caçadores que haviam ficado para trás para pescar já haviam jogado suas mochilas e se preparado para mover-se, tendo ouvido a confusão.

Uma sentinela agachada em uma árvore chamou lá de cima: "Está voando para longe."

Naiva parou para olhar para trás. O dragão de Ojutai escorregou das garras da cria de Atarka e partiu para o céu, mas a cria saltou e pegou uma de suas pernas traseiras com um golpe poderoso de uma garra dianteira, arrastando o outro dragão de volta para a terra. Ela sentiu o impacto de seus corpos unidos através das solas de suas botas. Seus gritos e uivos trovejavam e, no entanto, a natureza titânica da batalha a revigorava. Como seria ter tanto poder surgindo através de você? Seria aquilo que a magia parecia para Baishya? No entanto o poder drenara sua irmã também, e sua própria vida estava em perigo apenas porque ela possuía o dom da xamã.

Naiva deixou-a para apressar-se até onde os outros esperavam em um grupo apertado. Os caçadores encaravam o jovem, o sangue em sua túnica e a tatuagem brilhante em seu ombro exposto.

Fec disse, "Devemos voltar. A cria de Ojutai não ousará nos seguir profundamente no território do Dragão Soberano Atarka."

"A batalha deles ainda não terminou," disse a Avó.

"De qualquer modo, estamos expostos e vulneráveis agora que dragões estão nos espreitando."

"Dragões estão sempre nos espreitando. Devo considerar as circunstâncias que nos trouxeram aqui. A visão do povo-do-vento. A missão deste jovem." Ela lançou um olhar de volta para a borda das árvores onde Baishya sentava de pernas cruzadas no chão, de costas para eles, ambas as mãos pressionadas na terra. "Dêem-me silêncio para considerar."

Tae Jin permaneceu em repouso, esperando a anciã dirigir-se a ele.

Naiva aproximou-se ao seu lado.

"Você quase morreu," disse ela em voz baixa. Seu próprio pulso ainda acelerado como um martelar em seus ouvidos. "Como pode estar tão calmo?"

Ele voltou seu olhar escuro para ela. "Morrerei de um jeito ou de outro, seja agora ou depois. A disciplina nos ensina a aceitar o que não pode ser escapado."

"Você estaria morto se não fosse pela cura da minha avó."

"Isso é verdade. Ouvi falar dos poderes de cura de seu povo, e sou grato pela habilidade dela. Mas a magia de cura é conhecida por todas as tribos." Ele parou, então disse quase timidamente, "A rocha me salvou. Não vi tal exibição de magia da terra antes. Posso saber o seu nome?"

"Aquela não fui eu. Foi minha gêmea, Baishya." Mesmo entre a tribo, as pessoas frequentemente confundiam Naiva e sua irmã. Haviam pregado peças com isso quando eram mais jovens, fingindo ser a outra. No entanto, sob o escrutínio dele, a irritou que ele pensasse que ela era outra pessoa, alguém cuja força e habilidade ele admirava.

Mas então ele sorriu. "Ah. Você é a que atirou a lança com tal precisão e abateu o aven. Posso saber o seu nome?"

O calor queimou em suas bochechas, mas ela não desviou o olhar. Queria que ele a reconhecesse, não apenas sua gêmea. "Chamaram-me de Naiva."

"Basta!" A Avó bateu a base de sua lança na terra. "Quando uma visão oferecida pelo povo-do-vento intercepta um errante trazendo conhecimento dos Jeskai, não posso recusar tais presságios. Seguiremos ao túmulo de Ugin."

Naiva pensou que Fec discutiria, mas ele meramente baixou a cabeça em aquiescência, assim como os outros caçadores. A Primeira Mãe falara, então estava decidido.

A esta altura os dragões haviam sumido de vista, embora vez ou outra um trovão fraco marcasse a direção de sua batalha. O grupo movia-se em um passo rápido, mantendo-se sob a cobertura frondosa. Caso a cria de Atarka se provasse vitoriosa e viesse checá-los, ainda tinham a desculpa de estarem caçando, mas ignoraram todos os sinais de caça: uma área pisoteada onde um bando de krushoks selvagens viera beber; uma presa de mamute quebrada; fezes de saiga. Como sempre, os caçadores caminhavam sem falar; Mattak, Oiyan, Darka, Rakhan, Sorya e Fec eram os companheiros mais confiáveis da Avó, disciplinados e habilidosos.

Naiva emparelhou o passo com Tae Jin. Queria perguntar a ele sobre si mesmo, mas parecia tão desajeitado soltar perguntas pessoais. Em vez disso, caçando uma abertura melhor, lembrou do aspecto mais intrigante da história que ele vinha contando.

"Como pode haver outros mundos, como a velha sábia na história afirma?"

"Os planos, você quer dizer? Fiz a meu mestre a mesma pergunta. Ele não sabia."

Olhou para trás e viu a Avó vindo atrás deles, fechando a lacuna com sua passada confiante.

"Avó, você acredita que existem outros mundos?"

A Avó deu-lhe um olhar pensativo. "Sua irmã nada lhe disse sobre planos? Achei que ela lhe contava tudo."

O peito de Naiva apertou-se. "Você falou sobre tais assuntos com Baishya e nunca comigo?" perguntou ela indignada.

"Existe uma grande quantidade de conhecimento secreto que uma xamã deve saber e que outras pessoas nunca aprendem." Sem esperar Naiva responder, ela voltou-se para Tae Jin. "Você não terminou a história de Ugin. Temos uma distância considerável a caminhar, e nenhum dragão à vista no momento. Conte-me mais sobre Ugin. E sobre Bolas."

Ao proferir o nome Bolas, sua boca assentou-se em uma linha severa. Deu a ele um olhar expectante.

O jovem assentiu obedientemente. Pela pressão de seus lábios e o cerrar de seus olhos, Naiva conseguia notar que ele estava reordenando seus pensamentos, recuando da conversa comum que acabara de ter com ela para sua memorização mecânica de uma história antiga.

Estudante de Ojutai | Arte de: Jason A. Engle
Estudante de Ojutai | Arte de: Jason A. Engle

Caminharam em silêncio sob as árvores sussurrantes.

Finalmente, ele começou a falar.


)

Eu não queria partir, mas precisava seguir. Algo momentoso acontecera. Fez-me pensar em estar parado no leito seco de um riacho em um deserto quando uma tromba d'água escurece as colinas distantes. As águas da enchente estão vindo mesmo se você ainda não consegue vê-las.

Ao longo dos anos de nossas andanças, Nicol e eu cruzamos muito do continente conforme caçávamos e explorávamos. O reino em expansão de nosso irmão Arcades habitava longe da montanha de nosso nascimento. Eu tive que refazer nosso caminho, e no entanto a parte mais estranha e desafiadora era voar sozinho. Não havia Nicol ao meu lado para conversar, para caçar, para cochilar durante as longas tardes sonolentas quando o sol aquecia a coceira de nossas escamas. A solidão é muito boa como uma disciplina para iluminação mas, mesmo em um assentamento de Arcades, eu meditara na companhia da sábia anciã Te Ju Ki. Ao longo de todas aquelas dias e semanas de silêncio eu ainda era capaz de ouvir o som da respiração de outra criatura viva ao lado da minha.

Não agora. Agora eu tremia a cada noite, ouvindo apenas meus próprios murmúrios, meu rastejar enquanto eu arranhava uma cavidade para mim mesmo dormir, o sussurro do bater do meu coração, a passagem de ar para dentro e para fora dos meus pulmões. Mas lentamente enquanto eu voava e caçava meu caminho de volta através da terra larga e selvagem, comecei a ouvir como todas as coisas respiram. Até as plantas respiram. Envolto pela respiração do mundo, vida alguma está jamais sozinha; cada um de nós está incrustado em uma teia vasta, uma entidade entre miríades de miríades.

Às vezes o adensamento desta teia viva me confortava. Às vezes o puro peso de coisas vivas aglomeradas ao meu redor como um trovão incessante que nunca para. Naqueles momentos, o clangor e o rugido da vida perturbavam meu espírito. Às vezes seu clamor me humilhava, pois entre estas multidões fervilhantes, eu era apenas uma única criatura cuja existência poderia ser apagada e esquecida em um instante. Um carvalho jovem pode ser esmagado pelos passos de auroques passando, e ninguém seria o mais sábio. Um filhote recém-nascido pode cair do ninho e ser perdido na grama como se nunca tivesse existido. Não que um dragão seja tão insignificante quanto um carvalho ou um pardal, ou assim eu pensava, não entendendo então que mesmo a vida mais minúscula e breve tem seu lugar. Que até o nome de um dragão pode ser engolido pela passagem do tempo e desaparecer no abismo do esquecimento.

O mundo é largo, então eu não esperava alcançar meu gêmeo, muito menos topar com ele por acaso enquanto tentava seguir a rota que havíamos tomado para chegar aqui. Porque aquela rota ambulara e meandrada ao longo de tantos anos, enquanto eu deveria voar reto e rápido em perseguição, eu esperava apenas descobri-lo assim que alcançasse nossa montanha de nascimento, pois estava certo de que ele se dirigia para lá.

Assim, um dia um som retumbante me sobressaltou enquanto eu deslizava através de um trecho acidentado de colinas. Tristes pequenos postos avançados de humanidade amontoavam-se atrás de paliçadas de troncos. Agricultores vestidos de peles trabalhavam com varas de escavação e facões com lâmina de bronze para limpar solo para as plantações. Um uivo de riso ecoou por um longo vale retalhado com campos retilíneos, emoldurados por muros de pedra seca para manter o gado longe do grão em crescimento. Mas muros baixos de pedra não podiam manter longe as depredações de dragões saqueadores decididos a divertirem-se com a destruição.

Embora eu não os visse há anos reconheci Vaevictis Asmadi e seus irmãos imediatamente pelas suas cristas vermelhas ferozes e seu comportamento agressivo. A princípio, pensei que estivessem queimando casas longas e celeiros com telhado de palha por prazer barato, mas a destruição visitada sobre os assentamentos infelizes era tangencial ao seu propósito principal. Estavam perseguindo um dragão. Sua presa mergulhava e abaixava em cada fenda e vale oferecido pelas colinas ondulantes conforme fugia, tentando escapar deles.

Naturalmente, reconheci sua forma e coloração imediatamente.

"Nicol!" gritei.

Se ele me ouviu, não deu sinal, meramente desapareceu sobre o topo de uma colina e para baixo atrás da linha das árvores. Mas meu grito atraiu a atenção deles para mim.

Com um rugido, o maior deles, o próprio Vaevictis, veio arremessando-se em minha direção. Suas asas abertas bloqueavam metade do céu. Suas garras pingavam com o sangue de gado rasgado.

Eu não conseguia correr mais que ele. Naquele instante de percepção eu congelei. Uma corrente ascendente curvou-se sob minhas asas, mantendo-me pairando no alto, caso contrário eu teria me chocado contra o chão conforme minha visão embaçou e meu fogo minguou. A morte me assustava afinal; eu falhara com Te Ju Ki. A vergonha do meu fracasso era uma rocha no meu coração, um fardo de chumbo me arrastando para a terra.

No entanto Nicol precisava de mim.

Acontecesse o que acontecesse comigo, eu não podia permitir que ele morresse.

Então, alcancei meu minúsculo arsenal de truques mágicos e girei um par de globos transparentes, leves como penas, a partir do nexo de cores e para dentro do ar. Com um sopro, eu os assoprei na direção de Vaevictis. As orbes brilhantes o sobressaltaram tão profundamente que ele tombou, cauda sobre a cabeça, tentando parar. Freneticamente ele clamou por seus irmãos, que estavam queimando sem consideração vale acima e abaixo enquanto humanos gritavam e corriam.

Arte de: Chris Rahn
Arte de: Chris Rahn

Naturalmente, disparei atrás de Nicol, embora tenha arriscado um olhar por sobre o ombro justamente antes de o vale sumir de vista. Girados pelo vento, os globos flutuaram contra as escamas reluzentes do dragão medonho e gentilmente estouraram.

Seu berro de medo sobressaltado rachou o ar.

Então voei para trás de uma colina e não mais conseguia vê-lo. O alívio estremeceu através de mim. Eu sobrevivera afinal.

Do nada um corpo imenso roçou contra o meu. Minhas garras saíram enquanto eu me preparava para golpear o atacante.

"Aquele foi um belo truque para pregar!" riu Nicol.

Levou um momento para eu recuperar minha voz, presa como estava como um osso em minha garganta.

"De onde você veio?" raspei eu.

"Eu te vi. Achou que eu te abandonaria para ser despedaçado por nossos primos? São criaturas odiosas que não têm um cérebro para esfregar entre os quatro. Espero que aquele saco de vento quente rosnante sufoque em sua raiva." Ele riu suavemente conforme voamos adiante.

Após um longo tempo, uma vez que meu coração cessara sua medida galopante, eu ri também, pensando em quão ridículo Vaevictis parecera enquanto os globos cintilantes inofensivamente se dissolviam contra o calor de suas escamas impenetráveis.

"O que eram aqueles globos?" Nicol perguntou naquela noite. Havíamos parado para descansar em um topo de colina pedregoso com vista para uma planície florestada.

"São uma magia que Te Ju Ki vem me ensinando." Pausuei, tentando pensar em uma maneira de explicar o que ela vinha me ensinando sobre planos e mundos, mas ele meramente snortou e falou por cima de mim.

"Oh. Aquela velha criatura humana. Você ainda não terminou com ela?"

"Por que eu terminaria com ela?"

"Ela é humana."

"Ela viveu mais que nós. Eu acho."

"Humano nenhum, por mais velho que seja, pode ser jamais tão sábio quanto o mais jovem dos dragões, pois nascemos com a maior dignidade, inteligência e poder de todas as criaturas." Ele inclinou-se mais para perto, seus olhos brilhando com uma luz inquietante cujo igual eu nunca vira antes nele. Seu tom me provocava. "Eu aprendi algo especial. Você quer saber o que é?"

Eu me recusei a dizer sim porque realmente não me importava com seu modo orgulhoso e provocador.

"Você não quer saber?" ele exigiu com um sopro de chama direcionado a uma árvore inocente cujos galhos superiores prontamente pegaram fogo e queimaram como uma das tochas usadas para iluminar assentamentos humanos à noite.

"Acho que não gosto do modo como você fala sobre humanos. Alguns deles são tolos, é verdade, e alguns são zangados ou gananciosos ou egoístas, mas outros são criaturas inteligentes, sábias, carinhosas. Embora eu conceda que sejam pequenos e fracos como indivíduos. Facilmente quebrados."

"Sim, de fato, são facilmente quebrados," disse ele com um estrondo de riso desdenhoso.

"O que quer dizer com isso?"

"Você verá. E eu revelarei meu aprendizado especial para você de qualquer modo, porque somos gêmeos e devemos compartilhar tudo. Você conhece o grande oceano cujas ondas quebram sobre a terra?" Ele inclinou-se mais para perto com um trejeito presunçoso em seu focinho feroz. "Existem outras terras que jazem além dele, e ainda mais criaturas que vivem nessas outras terras."

"Sim, eu sei."

Um clarão de ira acendeu em seus olhos por eu não ter ficado maravilhado com sua revelação.

Eu tinha meu orgulho também. Talvez eu não estivesse seguindo Arcades todo este tempo, como ele fizera, estudando comportamento e costumes e leis e armas, mas tudo o que existia me intrigava. Assim, quando eu não estava meditando e estudando magia com Te Ju Ki, observava todos os detalhes da vida ao redor da cidade central e dos assentamentos próximos que caíram sob seu domínio, incluindo dois portos à beira-mar.

Porto do Interior | Arte de: Daniel Ljunggren
Porto do Interior | Arte de: Daniel Ljunggren

Então, disse eu, "Alguns construíram barcos com velas no lugar de asas e cruzaram as águas e retornaram para contar a história. A ideia de velas no lugar de asas é bastante engenhosa, não acha?"

"Tenho certeza de que dragões ensinaram a eles tudo o que sabem, já que existem dragões nessas outras terras também. Embora eu tenha certeza de que aqueles dragões não são realmente como nós e nossos irmãos. Somos os primeiros, afinal, e portanto os mais poderosos."

"Como você sabe que somos os primeiros? Nunca vimos aquelas outras terras e aqueles outros dragões. Podem ter caído das asas de nosso progenitor antes de nós."

"Não, absolutamente não."

Pelo que entendi que ele queria dizer: ele não queria considerar que aquilo pudesse ser verdade.

Às vezes simplesmente não valia a pena discutir com Nicol. De qualquer modo, eu estava com sono.

No dia seguinte conforme voamos em belo tempo e ótimo espírito lado a lado um com o outro, não quis perturbar nossa amizade. Talvez se eu tivesse me aprofundado mais, teria tido aviso do que estava por vir.

Mesmo rápido como voamos, focados em nosso objetivo, levou dias e dias para refazermos nossa jornada. Nosso primeiro indício de que havíamos de fato alcançado nosso destino veio na presença de rochedos riscados com o rastro de garras em um quarto de círculo de curva dupla. Estes estavam posicionados ao alcance da visão de dragão uns dos outros na borda de uma planície larga na qual pastavam rebanhos tumultuosos de bisões, antílopes, búfalos-d'água, cavalos e cervos-vermelhos.

"Estes são marcadores grandes demais para humanos terem feito," disse eu.

"Estou com fome," ele respondeu.

Trabalhando juntos, facilmente matamos quatro espécimes gordos e enviamos o restante correndo para longe. Havíamos mal nos estabelecido para nos rasgarmos em nosso banquete ainda quente quando o rugido de um dragão estilhaçou nosso idílio pacífico. Palladia-Mors mergulhou do céu, e saltamos para trás conforme ela pousou com um baque de sacudir o chão.

"Achei que vocês dois tivessem ido para sempre! Este é o meu território de caça agora. Todo ele."

Nicol a observava cautelosamente enquanto eu tentava acalmá-la. "Estamos apenas de passagem em nosso caminho para a montanha de nascimento."

"Você não quer ir lá," disse ela conforme arrastava os quatro cadáveres para fora do nosso alcance com as garras.

"Por que não?"

"Problema demais. Aqueles humanos ficaram convencidos demais e acham que são caçadores de dragões." Ela farejou cuidadosamente ao redor dos animais mortos, sangue manchando seu focinho, então engoliu um antílope com um estalo de dentes e uma deglutição convulsiva. Girando seu olhar de volta para nós, rosnou com um estrondo que sacudiu meus chifres. Tinha o dom de se inflar para parecer duas vezes maior e dez vezes mais feroz do que já era. Tive que lutar para não recuar diante dela, mas sabia melhor que dar qualquer sinal de medo na frente de um predador violento. "Matarei os líderes deles quando tiver vontade, mas não agora. Agora vou comer este delicioso banquete que vocês tão convenientemente caçaram para mim."

Nicol parecia pronto para lançar-se contra ela e lutar, mas com um chicote de minha cauda, atraí sua atenção e o levei para o lado.

"Nós dois podemos pegá-la juntos," disse ele. "Somos maiores agora, quase tão grandes quanto ela."

"Talvez, mas vale a chance de ela ferir ou matar um de nós? Achei que estivéssemos indo para a montanha de nascimento."

Ele piscou uma vez e depois uma segunda vez, mais devagar, e por um instante, pensei que seus olhos giraram em círculos preguiçosos que rodopiaram meus pensamentos ao redor e ao redor. Talvez fosse hora de confrontar um de nossos irmãos diretamente . . . Sacudi-me para livrar-me da distração irritante, cavando um sulco no solo com impaciência. Nada frutífero seria servido por um embate com os outros dragões. O mundo era largo o suficiente para podermos viver facilmente em harmonia, mesmo que significasse ficar fora do caminho daqueles que guardavam seu território com fervor ciumento.

"O que ela quis dizer com caçadores de dragões?" perguntei. "Por que ela está evitando a montanha de nascimento?"

"Descobriremos logo."

Voamos adiante, ficando com mais fome porque Palladia-Mors abandonara as três carcaças gordas para nos seguir. Não havia absolutamente ponto algum em caçar contanto que ela permanecesse perto o suficiente para arrebatar qualquer nova captura de nós assim que a derrubássemos.

Mas quando a montanha apareceu na distância com suas longas encostas suaves e formato simétrico, ela deu meia-volta.

Nicol manteve um olho nela conforme ela recuava, mas eu não conseguia tirar meu olhar da montanha. Um frêmito de sentimento me agitava. Não tínhamos pais como humanos mediam família. Tínhamos apenas um progenitor, não visto, nunca falado, de cujos batimentos de asas havíamos caído como pragana sacudida de um feixe de trigo. A montanha era apenas o lugar imprevisto onde havíamos acordado, um acaso, uma coincidência. No entanto, o pico me chamava como se tivesse uma voz feita de fios invisíveis que me atraíam cada vez mais perto de seu coração secreto, fundido.

Montanha | Arte de: Rebecca Guay
Montanha | Arte de: Rebecca Guay

A montanha não mudara, ou assim pensei ao nos aproximarmos. Mas a paisagem ao redor dela mudara. Na época de nosso nascimento em queda, uma floresta densa estendera-se em cada direção ao redor da montanha, cortada aqui e ali com clareiras aleatórias feitas por uma erupção de solo pedregoso ou a queda de uma árvore gigante. Naturalmente, a dura memória da morte de nossa irmã em uma tal clareira permanecia tão fresca quanto o sangue quente das feras que havíamos matado antes, cuja carne fora roubada de nós por nossa irmã viva.

Mas agora. Agora, que mudança encontrou nossos olhos assombrados! A floresta fora retalhada com estradas rudes ligando assentamentos fortificados, cada aglomerado de edifícios cercado com uma paliçada alta. Fora dos muros, cabanas apinhavam-se contra a paliçada como tantos mendigos estendendo as mãos em direção a uma tigela cheia de comida. Dentro dos muros erguiam-se casas longas de uma construção mais grandiosa, cada uma cercada por uma cerca decorada com tiras de tecidos elaboradamente tecidos e cordões de pequenos sinos de latão. Com cada rajada de vento o ar badalava.

Os portões do assentamento tinham o dobro da altura de um homem. Estavam esculpidos com uma cena austera e violenta de caçadores humanos enterrando suas lanças no corpo prostrado de um dragão moribundo.

Mas havia pior ainda que isso. A maior casa longa erguia-se no centro, elevada sobre um monte artificial de terra e cercada por um muro de pedra que, ao meu ver, parecia protegê-la das outras casas longas. No topo de seu portão, amarrado a um pilar maciço, escarninhava o crânio de um dragão. O caminho que levava do portão à entrada da grande casa longa corria sob arcos feitos pelas costelas de um dragão amarradas a postes.

Nicol sibilou com um som longo, baixo e furioso. "Transformaram nossa irmã em um ornamento!"

Eu estava chocado demais para falar.

Embora voássemos bem alto acima, trombetas saudaram nossa chegada. Pessoas armadas correram para o caminho do muro. Mais apressaram-se para colocar imensos virotes de ferro no ventre de lançadores de virotes que pareciam bestas massivas e aterradas. Mais rápido do que percebi ser possível, vários desses virotes foram lançados em um arco mortal em nossa direção. Embora Nicol tenha se esquivado do caminho deles, minha garra traseira esquerda foi cortada por um golpe de raspão. O arranhão não era muito, mas alguma substância asquerosa fora espalhada na ponta e seu veneno escaldou minha carne. Meu berro de dor sacudiu os céus. Cinco gotas do meu sangue caíram do corte raso, despencando em direção à terra, cada gota tão grande quanto um punho humano. Pessoas empurravam e se acotovelavam, rasgando e batendo conforme lutavam para ficar sob o sangue que caía.

Duas pessoas inclinaram a cabeça para trás e foram atingidas bem no rosto com um respingo do meu sangue. Uma afundou ao chão como em prece, mãos unidas no peito, e aqueles que não alcançaram o sangue a tempo prostraram-se ao redor dela. O outro uivou de alegria, braços erguidos triunfantemente enquanto sacudia lança e faca em direção ao céu em desafio, ou como agradecimento por um presságio celestial.

A briga agitara tanto a multidão que as últimas três gotas espatiifaram-se no solo. Pessoas caíram de joelhos para enfiar terra manchada de sangue em suas bocas. Era uma cena estarrecedora, mas não podíamos demorar.

"Ugin!" Nicol gritou. "Venha. Venha!"

Uma segunda rodada de virotes thumphou para fora das balistas, vindo em nossa direção. Voei o mais rápido que pude para sair de alcance. Minha garra latejava com uma agonia maliciosa. Dormência rastejava perna acima.

"Preciso pousar, Nicol."

"Não! Continue voando."

Eu não tinha forças para discutir. Através da minha névoa de dor, avistei mais assentamentos retalhados da floresta. Até o menor assentamento tinha ao menos uma balista para guardá-lo. Aqueles que viviam dentro das paliçadas portavam armas de lâmina de ferro, enquanto aqueles que viviam nas cabanas do lado de fora labutavam em campos pedregosos com ferramentas de pedra sob o açoite de feitores cruéis. Os portões da maioria das paliçadas eram adornados com os crânios de ursos e lobos gigantes, enquanto alguns portavam esculturas destinadas a parecerem dragões que haviam sido aramadas juntas a partir de crânios humanos em uma zombaria medonha dos nobres lineamentos de um dragão. Em quatro outros assentamentos, um crânio de dragão verdadeiro ornamentava a casa do chefe. Notavelmente, estes assentamentos ficavam mais distantes do primeiro, como as pontas de um pentagrama. Mesmo com dor, notei tais detalhes.

Finalmente, Nicol apiedou-se do meu estado miserável e circulou de volta para o pico da montanha de nascimento. Ali, fraquejando, gasto e exausto além da medida, pousei na rocha nua da alta borda da cratera. Se dragões pudessem chorar, eu teria chorado.

"Por aqui." Nicol guiou-me para a sombra voltada para o norte onde a cobertura de neve do ano passado ainda permanecia.

Enfiei o pé na neve, rompendo sua crosta para dentro da camada gelada abaixo. O alívio do seu frio picante acalmou minha carne ardente. Deixei cair minha cabeça ao chão, arquejando suavemente conforme a dor diminuía.

Nicol empoleirou-se no ponto mais alto da cratera, vistoriando a paisagem.

"Eles escalarão atrás de nós," disse ele como se acolhendo o confronto.

"Não é este pico alto demais para ser escalado por frágeis humanos?" Parecia impossível voar agora. Queria fechar os olhos e dormir, mas não ousava. Após tanto tempo vivendo em meio à ordem e paz do governo de Arcades, eu não conseguia captar totalmente quão diferente este lugar era.

"Não são tão frágeis quanto você os pensa," disse Nicol. "Ganância não é frágil. Ambição não é frágil. Suas armas podem nos matar porque são espertos. Porque trabalham juntos, como fizeram quando mataram nossa irmã. Virão atrás de nós porque somos dragões. Querem tomar nosso poder para si mesmos."

"Então deveríamos partir imediatamente. Se aquele virote tivesse cortado mais fundo, seu veneno poderia ter me matado! Não admira que Palladia-Mors evite este lugar terrível."

"Oh não, Ugin. Você não tem medo dessas pessoas, tem?"

Em vez de responder, lambi meu pé ferido, sugando sangue de gosto azedo e cuspindo-o no chão.

Ele abriu as asas como se em desafio a quaisquer humanos encarando a montanha de muito abaixo de nossa altura exaltada. "Viemos aqui para vingar nossa irmã, e vingá-la-emos."

"Não agirei como Vaevictis e seus irmãos, massacrando criaturas inocentes com luxúria indiscriminada!"

"Você não terá que matar ninguém de jeito nenhum, irmão. Isso eu lhe prometo. Tenho um plano, um plano muito astuto, porque ensinei a mim mesmo a fazer algo que ninguém mais consegue fazer."


)

"Isso é o bastante por ora, Tae Jin." A Avó ordenou uma parada conforme as sombras do final da tarde estendiam-se longas pela terra. Seu próprio rosto caía em sombra; algo que ele dissera em sua história a perturbara, Naiva notava, mas não sabia como perguntar ou se a Avó revelaria suas preocupações.

Ele baixou a cabeça obedientemente.

Havia alcançado o destino escolhido pela Avó: um amontoado de rochedos onde grupos de caça patrulhando as fronteiras do território Atarka frequentemente acampavam. Saliências nas rochas haviam sido aprofundadas para oferecer abrigo do vento e da chuva e cobertura do olhar de criaturas voadoras. Havia até um fogacho engenhosamente moldado em uma câmara oca construída de pedra disfarçada entre os outros rochedos; muitas pequenas fendas e furos canalizavam a fumaça lenta e invisivelmente para o ar. Além dos rochedos, o rio quebrava-se sobre uma série de terraços descendentes parecidos com prateleiras em uma espuma agitada cujo falatório constante também fornecia uma forma de ocultação.

"Não acenderemos fogo, para que os dragões não nos encontrem pelo seu calor e cheiro," a Avó acrescentou.

Claro, a falta de fogo não era sacrifício algum para caçadores. Seu equipamento os protegia do frio, e carregavam provisões.

Designada para o serviço de sentinela, Naiva pegou uma tira de carne seca e fez seu caminho até a borda das árvores, ainda remoendo sobre a revelação sobre mundos. Mas realmente era mais sobre Baishya recebendo treinamento secreto. Claro que sussurradoras viviam em perigo constante de Atarka. Claro que fazia sentido que xamãs compartilhassem seu conhecimento apenas com outros como si mesmos. Mas aquele sentimento de ser deixada para trás ainda a corroía.

Sussurradora dos Ermos | Arte de: David Gaillet
Sussurradora dos Ermos | Arte de: David Gaillet

Ela escalou um dos rochedos mais externos, enfiando-se contra ele para tornar-se parte do rochedo. Ao menos ela tinha este mundo e sua beleza e desafios. O ponto de observação dava a ela uma excelente visão para o noroeste através de uma extensão plana de tundra varrendo em direção à cordilheira oriental de Qal Sisma. Onde a tundra quebrava contra os contrafortes, um vasto abismo fendia a terra. O desfiladeiro profundo e sua rocha estilhaçada estava longe demais para se ver claramente, afogado pelas sombras do crepúsculo que avançava, mas uma névoa azulada fraca pairava acima do abismo como o hálito de uma pessoa em uma manhã fria nubla o ar gelado.

Passos rasparam na rocha. Tae Jin escalou ao lado dela e acomodou-se em um agachamento.

"É para lá que estamos indo," Naiva disse. "O túmulo de Ugin. A alguns dias de caminhada."

"Já esteve lá antes?"

"Sim. Uma vez. Quando tínhamos doze anos."

"Nós?"

"Ei!" Baishya chamou suavemente de baixo, então subiu escalando. O sol captou seu rosto justamente quando ela alcançou o topo, dando às suas feições um brilho que Naiva invejou. Sorriu cativantemente para Tae Jin, o que irritou Naiva ainda mais por quão simples tais trocas pareciam para Baishya enquanto Naiva lutava com seus próprios desejos surgindo e complicados.

"Eu e Baishya, digo, e algumas outras crianças em quem a Avó estava de olho."

"No que a sábia Yasova estava de olho?" Ele não olhara para nenhuma das duas, apenas em direção ao abismo e ao modo como a luz mudava acima dele conforme o sol se punha. Quase parecia que alguém acendera um fogo azul lá embaixo nas profundezas, visível como traçados mutáveis de névoa reluzente flutuando na borda do abismo.

Baishya tocou-a no armo em aviso. "Isso é assunto da tribo, Nai."

Irritada pela repreensão, ainda indignada pelo que a Avó mencionara, Naiva prosseguiu imprudentemente. "Atarka odeia magia. Ela a teme. A Avó pensou que se pudesse aprender cedo quais crianças provavelmente se tornariam sussurradoras, poderia melhor escondê-las da ira de Atarka. Pensou que talvez se dormissem perto do túmulo de Ugin, a presença ancestral do Dragão Espírito pudesse despertar a magia delas cedo. Então ela poderia prepará-las para ocultar seu poder de Atarka ou partir para as montanhas para se esconderem."

"Nai! Não cabe a forasteiros saberem nossos segredos."

"Pelo que me deram a entender!" disse ela rispidamente antes de voltar sua atenção para Tae Jin, que observava a troca com cauteloso interesse. "Ugin está morto. Não houve sonhos ou presságios."

"Não até agora," interrompeu Baishya. "O povo-do-vento trouxe-me uma visão. E parece que seu mestre teve uma visão de Ugin também. Está certo?"

Ele assentiu com a maior seriedade. "É no que meu mestre acredita. As tempestades que geram dragões aumentaram em força desde a morte de Ugin. Ele acredita que isso significa que alguma essência do Dragão Espírito ainda perdura, e encontrou força para estender-se. É por isso que ele me enviou — "

Naiva o cutucou para silenciá-lo. Estar perto dele era quase avassalador — seus lábios, seus olhos, os sentimentos juvenis comuns de interesse e desejo — mas isso não significava que ela parasse de escanear o céu e a terra em busca de ameaça. As nuvens a oeste começaram a empilhar-se como com uma tempestade vindo.

"Ali," disse ela justamente quando um assobio soou de Mattak, que estava no serviço de sentinela.

Uma sombra estranha e desconjuntada aproximava-se através do crepúsculo, vindo direto em direção a eles. Seu voo era estranhamente lento e desajeitado. Tiveram tempo de descer apressadamente do rochedo antes que a forma se agigantasse perto, resolvendo-se em sua verdadeira natureza: a cria de Atarka estava carregando o corpo inerte do dragão de Ojutai em suas garras. Deslizou rente ao solo em direção ao seu esconderijo e largou a carcaça logo além dos rochedos. O impacto estremeceu através do chão, dobrado conforme a cria atingiu com força ao lado dele, e com uma explosão fogosa, ateou chama ao longo da grama seca. Sangue pingava de marcas de garras afundadas profundamente em seus flancos da batalha. Já estava gravemente ferida, ingurgitada de dor.

"Saiam! Minha prima me contou verdade antes de morrer. Traidora! Matadora de dragões!"

Farejando-os, saltou entre os rochedos.

Baishya gritou um aviso destinado a chegar aos outros caçadores, mas não poderiam alcançá-los a tempo.

"Baixo!" Tae Jin lançou-se por ela, desviando-se das pernas dianteiras massivas do dragão conforme elas batiam contra a terra.

Naiva empurrou Baishya com força para trás de uma rocha, então caiu e rolou para a cobertura do rochedo adjacente. O hálito de fogo da cria escaldou a grama onde haviam estado paradas. Chamas lamberam os pés de Naiva conforme ela girou sua lança e espiou para fora.

Tae Jin saltara para longe de sua cauda chicoteante. O corte de raspão de uma de suas pernas traseiras o atingiu no ombro, e ele cambaleou para trás.

Seu uivo caiu como um estrondo de trovão. "Eu mato vocês!"

Naiva saltou para o aberto e gritou bobagens para atrair o olhar dele. Conforme o dragão sibilou em surpresa com sua aparição súbita, Tae Jin bateu seus antebraços juntos. Um vislumbre de geada como névoa estremeceu em suas palmas. Com um sibilo de magia poderosa, as faíscas brancas alongaram-se para tornar-se uma longa lâmina fantasmagórica que cintilava, brilhante porém sem substância física, seu punho brilhante seguro em suas mãos. Ele dardejou sob a cabeça dele e, incrivelmente, retalhou o ventre escamoso com um golpe poderoso da lâmina insubstancial. Sua rapidez em esquivar-se para o lado o salvou do jorro de entranhas que derramou no chão em uma bagunça viscosa e fedorenta.

A criatura chocou-se para frente, sibilando conforme sua cabeça bateu contra a terra. Tae Jin girou para trás para evitar ser esmagado, tropeçou e caiu com força. No entanto o dragão ainda tinha vida em si. Lançou-se para frente, abocanhando-o. Tanto a Avó quanto Fec gritaram contra ele, investindo de cada lado para esfaqueá-lo no pescoço, tentando atraí-lo. Baishya invocou sua magia novamente, deslizando uma rocha enorme lateralmente até que se encunhou contra o ombro da cria, prendendo-a. Ilesa, ela poderia ter sacudido o fardo, mas suas lutas estavam enfraquecendo.

Dragão Perseguidor de Rebanhos | Arte de: Seb McKinnon
Dragão Perseguidor de Rebanhos | Arte de: Seb McKinnon

Naiva enterrou a ponta de obsidiana de sua lança no olho sem piscar do dragão, a pedra afiada cortando a superfície externa dura e deslizando fundo através da orbe prateada até o cérebro macio por baixo. A fera estremeceu e com um último suspiro tossiu brasas brilhantes.

Ela arrancou sua lança. As brasas desvaneceram, assentaram na terra e morreram.

O vento soprou em seu rosto, despejando o cheiro quente de mel de sangue de dragão em suas narinas. Matar um dragão era um crime. No entanto ela exultou, pois não hesitare. Como uma verdadeira caçadora, não recuara diante do ataque. Dragões eram mais poderosos que humanos, mas podiam ser mortos.

No entanto, o que era a espada fantasmagórica que rasgara o ventre dele? Estaria Tae Jin morto?

Ela caminhou cautelosamente ao redor da massa do cadáver com seu aroma de enxofre e mel. Tae Jin jazia de costas, rosto frouxo, olhos fechados, mas ainda respirando. Sangue fresco estava espalhado por sua túnica. O tecido fora retalhado no ombro direito, uma aba pendendo para baixo. O pano rasgado expunha a musculatura treinada e, cortada através dela, uma marca brilhante como o rastro de uma garra de dragão gêmea que rasgara seu ombro e descera por seu peito. Nunca vira tal marca antes, tão impressionante e bela.

Ajoelhando-se, tocou seu rosto levemente. Seus olhos abriram-se. Vendo-a, ele piscou uma vez, e depois duas como se garantindo que ela não estava dobrada.

"Você é muito brava," disse ele.

Ela corou, tão satisfeita pelo elogio que não conseguiu responder. Mas quando ele sorriu, encontrou sua voz afinal. "Está morto. Nós o matamos. Que arma era aquela que você usou?"

"Você mentiu para nós, Tae Jin."

A voz ríspida da Avó interrompeu conforme o restante do grupo se aglomerava em um eriçar de lanças para encarar os dragões mortos e o jovem errante.

"Você usa a marca de dragão de um guerreiro de fogofantasma. Shu Yun fez um trato de que todos os guerreiros de fogofantasma morreriam em troca do restante do povo Jeskai ter permissão para viver. Então diga-me: como é que você sequer existe?"

Crônica de Bolas: Sussurros de Traição

A Avó era uma mulher formidável, outrora conhecida como Yasova Garra de Dragão do clã Temur. Agora que o título fora banido pelo dragão soberano, era chamada de Primeira Mãe pelas tribos Atarka. A velha mulher estava em meio a um amontoado de rochedos ao lado da carcaça ainda quente de uma cria morta. Mas em vez de examinar o dragão, ela olhava para baixo para um jovem cujo ombro portava um corte raso de uma garra de dragão. Seu sangue escorria sobre a marca brilhante de um guerreiro de fogofantasma que se curvava sobre seu ombro e descia pelo peito.

"Você escondeu sua magia de nós, Tae Jin. Todas as nossas vidas estão perdidas se os dragões descobrirem que abrigamos um guerreiro de fogofantasma. Diga-me a verdade, ou devo matá-lo."

Naiva supunha que a lâmina de fogofantasma que Tae Jin conseguia invocar usando magia Jeskai proibida pudesse ser páreo até para a habilidade de luta da Avó, talvez até para todo o grupo de caça, mas o jovem ajoelhou-se com a cabeça humildemente baixada. Não fez ameaças. Não ofereceu bravata. No entanto ele também não tremeu. Não tinha medo dela, nem da morte.

"Minha mãe era uma escriba que serviu a Shu Yun antes da queda. Ela sobreviveu ao expurgo de Ojutai e dedicou-se a salvar o que pudesse da história e do conhecimento do Caminho Jeskai. Alguns errantes e batedores conseguiram escapar e esconder-se nas montanhas. Estas pessoas carregam tudo o que resta do antigo caminho. Minha mãe me enviou para o ermo para estudar com o homem que se tornou meu mestre. Ele é quem me enviou a você. Ele me ensinou o caminho da lâmina de fogofantasma para que não fosse perdido."

Lâmina de Fogofantasma | Arte de: Cyril Van Der Haegen
Lâmina de Fogofantasma | Arte de: Cyril Van Der Haegen

"Que você é um guerreiro de fogofantasma é uma surpresa desagradável," disse a Avó. "Será isto algum tipo de armadilha por parte de Ojutai? Este é exatamente o tipo de truque indireto que um oponente astuto e inescrupuloso poderia usar para expulsar sua presa do esconderijo. Sendo sua presa eu, e o que ele acredita que eu sei."

"Meu mestre recebeu uma visão do Dragão Espírito."

"Ugin está morto." Naiva pensou que teria que se repetir para sempre. "Não é mesmo, Avó?"

"Continue, Tae Jin." A Avó ergueu uma mão para sinalizar silêncio a Naiva.

Como o gesto irritou Naiva, descartada tão casualmente. Tae Jin nem sequer olhou para ela ao responder.

"Sim, Ugin está morto, mas meu mestre recebeu uma visão apesar disso. O Dragão Espírito disse-lhe que era hora de compartilhar a história contada aos nossos ancestrais Jeskai."

"Uma história da qual nunca ouvi falar ou sequer suspeitei." A Avó grunhiu para marcar seu desagrado. "Shu Yun gostava de seus segredos — "

"Ele não é o único," Naiva murmurou, mesmo sabendo quão infantil e desrespeitosa soava.

Baishya a cutucou com um sibilo reprovador.

A Avó continuou falando como se não tivesse acabado de ser interrompida. " — então não é surpresa que ele tenha mantido a história de Ugin longe do restante de nós."

"O Caminho Jeskai pende por um fio. Meu mestre diz que se a história for conhecida em mais de um lugar, então é mais provável que sobreviva."

"Sobreviver com que propósito?" Naiva exigiu. "Os dragões nos governam agora. Os antigos caminhos são apenas um cadáver deixado de fora para ser consumido por carniceiros."

"Se perdermos o passado, perdemos a nós mesmos," repreendeu a Avó. Ela passou a mão pelo seu manto, feito da pele de seu amado Anchin, e estava prestes a dizer mais quando Fec chamou suavemente.

O velho orc escalara uma rocha plana, sua forma visível como uma sombra mais escura conforme a última luz do dia morria. Estrelas brilhavam no alto, mas ele olhava para o horizonte onde estrelas não eram visíveis. Ergueu o rosto para o ar e tomou uma inalação profunda.

"Há uma tempestade vindo," disse ele.

As nuvens ao norte haviam se empilhado de uma maneira portentosa sobre as fronteiras acidentadas que Atarka considerava a borda de seu território de caça. Flashes de relâmpago cruzavam os alcances mais altos, rastros de luz que lampejavam e morriam. Estavam longe demais para ouvir trovões.

Ilha | Arte de: Florian de Gesincourt
Ilha | Arte de: Florian de Gesincourt

"É uma tempestade de dragões, e está vindo rápido," Fec acrescentou. "Conheço bem o cheiro e o gosto delas."

A Avó franziu o cenho. "Não gosto de permanecer tão perto dos dragões mortos, mas não podemos enfrentar uma tempestade de dragões na tundra aberta. Será ainda mais perigoso à noite. Nos abrigaremos nas rochas até que passe. Examinarei o ferimento do jovem uma vez que estejamos no abrigo. Consegue caminhar?"

Antes que Tae Jin pudesse responder, Fec interrompeu. "Você já gastou uma grande quantidade de força curando-o, Primeira Mãe. Muito mais que isso, e você se ferirá."

"Consigo caminhar." Tae Jin cerrou os dentes ao se levantar. Quando Naiva deu um passo à frente para auxiliá-lo ele a dispensou com a mão, e Baishya segurou o cotovelo dela como se achasse que sua gêmea não conseguira captar o indício.

A Avó designou Mattak, Oiyan e o silencioso ainok Darka para o serviço de sentinela ao redor da entrada escondida da câmara de rocha. O restante teve que se curvar para passar por uma passagem baixa cortada com vários dutos de chaminé. Nenhum dragão poderia entrar, e os dutos significavam que qualquer hálito de fogo se dissiparia antes de alcançar a câmara central. Fundo na rocha, Rakhan acendeu um fogo. Pela sua luz fraca, a Avó examinou o corte.

"É raso e pode curar sozinho. Garotas, guardem nosso visitante."

"Aonde a senhora vai?" Baishya perguntou.

"Esta é uma chance rara para Fec e eu pegarmos o fígado e os corações da cria agora que o ventre dela já está aberto. Atarka nunca precisará saber."

"Não quer minha ajuda, Avó?" Baishya perguntou justamente quando Naiva disse, "Eu gostaria de ver como são as entranhas de um dragão!"

"Hoje não, com uma tempestade de dragões soprando. Vocês duas fiquem aqui, cobertas."

"Sim, Avó," disse Baishya obedientemente.

Naiva fervilhava, exalando agudamente. Queria reclamar, mas não na frente do estranho.

A Avó beliscou sua bochecha. Não tinha um toque gentil, mas o gesto era um sinal de afeto embora doesse. "Você pode cuidar do corte do rapaz, Naiva."

Ela saiu com Fec, deixando Rakhan e Sorya embebendo carne seca de suas provisões em água fervente. Baishya deu a Naiva um olhar interrogativo como quem diz, "O que há de errado com você?" Naiva virou-se enquanto Tae Jin acomodava-se no chão, limpando gotículas de sangue do rosto.

"Dói?" perguntou ela a ele.

"Não o suficiente para importar."

Baishya aqueceu água com pétalas de flores Coração da Terra sobre o fogo em um pequeno pote de cobre. Torceu um pano úmido. Naiva o arrancou dela mas hesitou. A pele nua de Tae Jin brilhava à luz do fogo. O pensamento de tocá-lo, mesmo com um pano, a fazia respirar como se estivesse presa em uma tempestade de asas batendo.

Tae Jin captou o olhar dela e assentiu para mostrar ser aceitável para ele ser cuidado por ela. Com o menor estremecimento, ele puxou sua túnica rasgada, expondo a pele morena e os músculos fortes de seus ombros e peito.

Ela limpou a garganta timidamente, consciente do olhar astuto de Bai sobre ela atravessado por zombaria divertida. Como se Bai não fosse sentir um desajeito semelhante! No entanto ocorreu-lhe que ela e sua gêmea nunca fofocavam sobre os outros jovens e se eram atraentes. Bai voltou sua atenção para lavar o sangue úmido da túnica em um sulco cortado na rocha. Que o torso bem constituído de um jovem fosse um assunto de nenhum interesse para sua gêmea deu a Naiva um ímpeto de confiança.

Lábios primariamente fechados, ela cuidadosamente limpou o sangue do corte raso, trabalhando seu caminho por toda a sua extensão, que cortava através da marca brilhante. A respiração dele nunca falhou em seu ritmo regular, embora, uma ou duas vezes, suas pálpebras tenham tremulado. Após um pouco, ela entregou o pano agora manchado de sangue de volta para Baishya e espremeu o suco de folhas recém-colhidas sobre o corte.

"Que erva é esta? Não a conheço de minhas próprias montanhas."

"Chamamos de cura-tudo porque evita que ferimentos inflamem e acalma hematomas," disse ela, e prosseguiu audaciosamente. "Quantos anos você tinha quando sua mãe o enviou para longe?"

"Tinha doze."

"Você a viu de novo?"

"Não."

"Você sente falta dela?"

Sua expressão grave a fez desejar ter feito a ele uma pergunta que o fizesse sorrir. "Claro, sinto falta dela. É uma mulher educada e realizada. Como eu disse, é uma das poucas escribas que serviram a Shu Yun a sobreviver à queda. Sempre soube que seu dever era me enviar para o ermo. E você?"

"Nossa mãe está morta. Atarka a matou por ser uma sussurradora."

"Uma sussurradora? Você usou essa palavra antes. Não a conheço."

"Ela quer dizer uma xamã, como seu povo tem." Baishya enfiou um cotovelo nas costelas de Naiva como um lembrete de que apenas xamãs Temur conheciam o segredo de sussurrar, falando de mente para mente com outras xamãs. Naiva sabia que esta habilidade existia porque as duas garotas compartilhavam tudo, parte do laço de serem gêmeas. Mas evidentemente aquilo não era mais verdade.

Sussurradora dos Ermos | Arte de: David Gaillet
Sussurradora dos Ermos | Arte de: David Gaillet

Ele olhou entre elas, lendo algo em suas expressões. "É verdade que os dragões temem nossa magia. Temem qualquer coisa que achem não poder controlar ou que não lhes pertença."

"Vale a pena?" Naiva perguntou, incapaz de manter um traço de amargura fora da voz.

"O que você quer dizer?"

"Perdermos nossas mães. Ou qualquer um, realmente, apenas por manter antigas tradições vivas. Os dragões nos governam agora. Talvez seja melhor descartar o que eles proibiram."

"Melhor para quem? Melhor para os dragões soberanos, certamente. E quanto ao respeito e dever que devemos aos nossos ancestrais?"

"Talvez seja melhor deixar os mortos irem e concentrar-nos na caçada deste dia e na sobrevivência deste dia."

Ele lançou-lhe um olhar de lado então balançou a cabeça com um cenho franzido. Ela o decepcionara, e ela encarou o chão furiosamente para esconder seu desgosto. Queria que ele pensasse bem dela e, agora, não sabia o que dizer.

Em tom frio ele disse, "Você acha que seria melhor o Dragão Soberano Atarka matar sua irmã, como fez com sua mãe? É isso que você propõe?"

"Claro que não! Só quis dizer que todos morrem. Talvez estejamos tentando demais manter vivos os antigos caminhos quando eles morreriam naturalmente no curso do tempo," Naiva murmurou.

"O que há de natural na morte deles?" Tae Jin perguntou calmamente. "Os antigos caminhos, como você os chama, não morreram de velhice ou negligência por parte das pessoas que os seguiam. Foram deliberadamente caçados e mortos pelos dragões, pedaço por pedaço, memória por memória. Ao mantê-los vivos, desafiamos os dragões em vez de aceitarmos a derrota. Talvez seja uma coisa pequena. Talvez nada disso importe quando gerações passarem. Mas talvez importe. Mas apenas se houver algo deixado para ser encontrado, por menor que seja, por menos notável que seja. É por isso que minha mãe me enviou para o ermo."

Baishya agachou-se do outro lado de Tae Jin, oferecendo-lhe agulha e linha. "Sim, eu entendo, Tae Jin. Sigo um caminho similar. O que mantemos vivo é o que nos costura ao passado. O futuro não está escrito. Você quer que os dragões soberanos sejam os únicos árbitros do que venha a acontecer, Nai?"

"Claro que não quero. Não foi isso o que eu quis dizer." Mas de certa forma, fora o que suas palavras significaram. Quão irritante ser mostrada como errada!

Tae Jin estendeu a mão para a agulha. O movimento de seu braço e ombro o fez estremecer. Naiva inclinou-se e arrancou a agulha de seus dedos.

"Deixe o corte curar. Posso consertar sua túnica."

"Temos muito em comum," Tae Jin disse a Baishya. Os dois começaram a discutir cautelosamente seu treinamento, embora estivesse claro que ambos falavam obliquamente, não dispostos a dizer demais sobre o saber secreto de suas respectivas tradições. E especialmente não na frente de alguém que não fosse xamã!

Naiva amava o saber da caça porque era direto. Habilidade e experiência importavam mas o objetivo era simples e o resultado claro. As pessoas precisam comer. Aqueles que traziam a caça podiam alimentar outros e assim serem os membros mais valorizados da tribo. Mas ela não sabia como dizer aquilo quando Baishya e Tae Jin claramente haviam se aprofundado em saber e magia que ela nada sabia e nunca compreenderia.

O pensamento daquela falta a assolava como ratos roendo seu interior. Com a boca apertada, pôs-se ao trabalho de consertar a túnica. Se mantivesse suas mãos ocupadas, então não precisaria ressentir sua irmã. Estava silencioso no abrigo com o fogo estalando e um pote de caldo fervendo. Sorya e Rakhan estavam carregando água do rio para uma cisterna esculpida no fundo da câmara, trabalhando para deixar tudo seguro.

"Você tem uma mão firme para costura, Naiva," Tae Jin disse abruptamente.

Estava quente perto do fogo; suas bochechas pareciam escaldadas.

"Todo caçador deve ser capaz de consertar cada peça de seu equipamento." Ela passou o pano por suas mãos. O tecido era mais macio e fino que qualquer pano que ela já tocara antes. "De que é feito isto? Usamos couros e feltro."

"Você nunca vestiu lã?"

"Nada tão delicado como isto. Alguns dos anciãos têm mantos de lã que usam para dormir já que é difícil para eles manterem o calor. Nós mesmos não tecemos tais mantos. Trocamos por eles com o seu povo e com os Dromoka."

"É tecido de lã de cabras."

"Cabras? Como as cabras da montanha?"

"Não, um tipo diferente de cabra. Uma cabra menor, domesticada, que vive ao lado de humanoides. São criaturas resistentes que prosperam nas montanhas de onde venho."

Montanha | Arte de: Florian de Gesincourt
Montanha | Arte de: Florian de Gesincourt

"Aquelas montanhas são diferentes de nossas montanhas?"

Ele sorriu. "Nunca viajei em suas montanhas, então não saberia."

"Como você chegou aqui? Digo, como soube o caminho? O dragão te perseguiu o tempo todo? Ou ele veio atrás de você depois?"

"Tae Jin terá que esperar por essas perguntas," disse a Avó.

Ela aproximou-se, apoiada em sua lança, parecendo exausta. Ambas as garotas saltaram de imediato para segurar seus braços, uma de cada lado. Acomodaram-na sobre o manto feito da pele de Anchin. Ela recostou-se contra a rocha com um suspiro cansado.

"Onde está Fec?" Naiva perguntou.

"Escondendo as entranhas em sacos no rio, para esconder o cheiro. Meus ossos estão velhos." Fechou os olhos. Por um momento aterrorizante Naiva pensou que ela tivesse desmaiado, mas estava apenas descansando.

Após um silêncio, dirigiu-se ao jovem em seu tom seco de sempre.

"Há mais em sua história. Vou ouvir."

Ele vestiu a túnica consertada. As manchas úmidas onde Baishya lavara os respingos de sangue fumegavam no calor do fogo. O vento estava aumentando lá fora, ouvido como um lamento queixoso pelo túnel de entrada. A fumaça derivava para cima em direção às fendas na câmara de rocha e, conforme ele começou a falar, pareceu a Naiva que os fios de fumaça se retorciam e ondulavam no ritmo de seu relato como que para dobrar-se em imagens da própria história, pois vozes e palavras carregam uma magia que permite aos ouvintes verem o que não testemunharam pessoalmente.


)

Sofri através de uma noite miserável lavada por sucessivas ondas de suor e calafrios conforme a potência do veneno lentamente desvanecia. Não admira que quatro crânios de dragão tivessem se juntado ao de nossa irmã, Merrevia Sal, como ornamentos no topo de portões. Precisam apenas ferir seu alvo e então rastreá-lo conforme ele enfraquece.

Mas eu era feito de matéria mais rígida, ou talvez apenas afortunado o bastante para receber apenas um arranhão em vez de um ferimento mais profundo onde o veneno pudesse alcançar meus corações. Ao amanhecer sentia-me letárgico, mas ao menos conseguia estender e retrair minha garra sem dor, embora uma dormência persistisse em minha perna dianteira.

Fogachos de vigília arderam a noite toda muito abaixo. Havíamos ouvido um zumbido distante de atividade como se tivéssemos sacudido formigas para fora de seu ninho. Conforme a luz mudou, os grandes fogos foram apagados. Trombetas tocaram com impaciência aguda. Nicol passara a noite toda em contemplação silenciosa, empoleirado no ápice da montanha. Ao som das trombetas, riu suavemente como se achasse tudo terrivelmente divertido. Eu não estava nem um pouco divertido.

"Deveríamos ir," disse eu. "Não têm medo de nós."

"Logo aprenderão a ter medo." Esticou o pescoço, deslocando-se para ter uma visão melhor montanha abaixo. Um sibilo de fogo fumegou de suas narinas. "Que estranho. Um viajante solitário escala em nossa direção. Que humano frágil ousaria?"

Arte de: Yongjae Choi
Arte de: Yongjae Choi

"Talvez seja uma armadilha."

Curiosidade despertada, voei para fora das sombras para me juntar a ele. O sol nascente inundou minha visão. Uma pequena forma caminhava firmemente para cima, escolhendo seu caminho através de um longo espalhado de rocha que eram os destroços de uma erupção antiga. Conforme o bípede aproximou-se ele acenou alegremente e, com um sorriso curiosamente relaxado, continuou escalando em nossa direção.

"Não o queime," sussurrei conforme Nicol ergueu a cabeça e inclinou-se para frente como para saltar sobre a alma corajosa.

"Queimar é tão rude, Ugin. Estou desenvolvendo métodos mais sutis. De qualquer modo, não acho que seja um humanoide verdadeiro de jeito nenhum."

"Irmãos! Saudações a vocês." O bípede clamou. "Estou surpreso em vê-los aqui. Este lugar não é mais seguro para a nossa espécie."

"Chromium Rhuell?" Recuei em assombro.

Nicol estabeleceu-se sobre os calcanhares com um bufo de aborrecimento. "Como você faz isso?"

"Fazer o quê?" perguntou o bípede, que aparecia exteriormente como um humano grávido exceto pelo modo como seus olhos brilhavam como safiras, refulgentes com o poder de um dragão.

"Mudar-se em um humano tão convincentemente." Nicol farejou o ar com um esgar. "Você até cheira como um. Ranço e credulidade."

"É um truque que ensinei a mim mesmo para poder caminhar entre eles."

Nicol lançou um olhar para mim para ver como eu responderia a esta afirmação notável.

"O que você observou, Irmão?" perguntei.

"Humanos são bastante fascinantes, e há tanto sobre eles para se saber. Por onde devo começar?"

"Pelos que vivem aqui, na sombra de nossa montanha de nascimento," Nicol disse.

O rosto humano veste expressões como roupas, vestindo e despindo emoção conforme o capricho. Com um cenho franzido, Rhuell balançou sua cabeça humana reprovadoramente e bateu os punhos juntos. "Estes humanos são matadores de dragões. O chefe deles é um velho que caçou um dragão quando jovem e ainda se vangloria disso interminavelmente enquanto senta em uma cadeira feita de seus ossos. Ele decretou que qualquer pessoa que matar um dragão se juntará às fileiras de seus herdeiros."

"Seus herdeiros?"

"Os que podem esperar governar como chefe após ele morrer."

Nicol emitiu um estrondo baixo, como se a resposta o contentasse. "Entendo. Quão conveniente."

Eu teria perguntado o que ele quis dizer ao dizer ser "conveniente," mas Chromium Rhuell já prosseguira.

"Isso não é tudo. O chefe afirma que o favor divino o elevou acima de seus súditos humildes. Aqueles que são tocados por sangue de dragão, ou que o bebem ou comem, são considerados sagrados e podem viver uma vida de lazer e abundância enquanto os menos afortunados os servem como escravos."

Arte de: Slawomir Maniak
Arte de: Slawomir Maniak

Nicol riu discretamente. Sua diversão sonsa me perturbava. "Aqueles que são fortes ou espertos o suficiente ficarão por cima dos que são fracos e estúpidos, não ficarão? Estes são os primeiros humanos que vi que não me enojaram com sua fraqueza e rastejar untuoso."

Com um rosnado de faíscas, virei-me contra ele. "Nicol! Como você pode falar tão aprovadoramente de pessoas que assassinaram nossa irmã? Achei que tivesse retornado aqui para vingar a morte dela."

"Você aprova a vingança agora, Ugin? Achei que você favorecesse sessões entediantes de meditação e o domínio insosso de Arcades."

"Não fiz nada para merecer seu desdém. Em verdade, não gosto deste tom de desprezo vindo de você. Especialmente considerando que te salvei das mandíbulas de Vaevictis!"

Esperei que ele me respondesse com mau humor, mas em vez disso, ele afundou a cabeça entre suas pernas dianteiras e meio fechou os olhos. Alguém que não o conhecesse bem poderia pensar que ele estava banhando-se ao sol, relaxado e à vontade, entediado pela nossa troca. Mas eu o vira frequentemente largado observando Arcades e os humanos exatamente dessa maneira, e uma apreensão crescente arranhava minhas entranhas.

"O que você propõe fazer agora que caminhou entre eles e estudou seus caminhos, Irmão Rhuell?" perguntou ele em seu tom mais razoável.

"Pretendo consultar Arcades. Minha recomendação é que destruamos o chefe, seus herdeiros e seus acólitos, queimemos todos os templos e salguemos os campos. Precisaremos da cooperação de nossos irmãos e primos para conseguir."

"Tamanha destruição parece mais o modo de Vaevictis de fazer as coisas e nada parecido com você e sua observação desapegada, Irmão," disse Nicol com um tique de seu focinho que se curvou em um esgar.

"Se você tivesse voado sobre este território, saberia o que quero dizer."

Em uma voz suave e sedutora, Nicol disse, "Irmão Rhuell, não sejamos precipitados demais em fazer chover fogo. Você não seria o primeiro a dizer que há algo a ser aprendido com eles?"

"A ser aprendido com eles? A ser evitado é a verdade! Após o desaparecimento de três dragões vim a este lugar para descobrir o que estava acontecendo. Vi os caçadores do Chefe prenderem e matarem um pequeno dragão, recém-eclodido e portanto jovem e vulnerável. Além das balistas, cujos virotes podem perfurar nossas escamas, seus trabalhadores de magia instilaram feitiçarias em um veneno para torná-lo forte o suficiente para envenenar até nossa carne. A ameaça a todos nós é terrível, caso compartilhem este conhecimento de como nos massacrar com outros humanoides."

Nicol soprou um fio de fumaça de sua boca com um sorriso sardônico. "Então, você se contenta se matarmos os inocentes que labutam bem como os governantes orgulhosos?"

"Não, não foi isso que eu quis dizer. Corte a cabeça e mate o monstro. Destrua a casa do chefe e os templos e force-os a se mudarem para longe de nossa montanha de nascimento e dos ossos de nossos primos, é isso o que quero dizer."

"Tamanha destruição provavelmente fará os menores entre eles morrerem. Os que têm armas ainda podem forjar um caminho para fora da destruição e abrir caminho para um novo reduto em outro lugar. Não é correto?"

"Não me importa onde os sobreviventes acabem. São criaturas sapientes e podem gerir seus próprios destinos contanto que não levem seus modos matadores de dragões com eles."

"Você está dizendo que os humanos podem matar e atormentar uns aos outros, contanto que deixem os dragões em paz?"

Os olhos humanos lampejaram com um pulso de aborrecimento, um vislumbre do poder escondido de Chromium Rhuell. "Você torce minhas palavras. Eu observo. Não interfiro em como se comportam entre si."

"Confesso, tal filosofia soa um tanto vazia para mim. Uma lei para eles, e uma lei diferente para nós."

"Nicol tem razão," disse eu apressadamente, tolamente tentando aplacar a ambos, "mas isso não significa que não devamos consultar Arcades sobre o que fazer."

Mas a raiva de nosso irmão mais velho inflamou em um clarão de luz azul assombrosamente brilhante. O ar ao nosso redor rodopiou. Uma rajada forte empurrou-me para trás como um golpe. Quando a névoa de branco ofuscante desvaneceu, Chromium Rhuell em toda a sua magnificência dracônica agigantava-se sobre nós, brilhando como um espelho aceso com luz. Suas asas estavam abertas largas e o topo achatado de seu rosto refletia o sol em meus olhos de modo que eu mal conseguia ver.

Arte de: Chase Stone
Arte de: Chase Stone

"Ouço o que você está fazendo, Nicol Bolas. Você torce as palavras para qualquer formato que deseje que tomem, então as torce de novo para servirem aos seus desejos. Você é o menor de nós, o último caído, nem sequer um dragão inteiro mas apenas metade de um, atado como está ao Ugin. Nunca mais tente me desafiar ou você se arrependerá."

Em um ímpeto clamoroso de asas, ele voou, pegando uma corrente ascendente das alturas e espiralando rapidamente para cima e para cima em direção aos céus até que mesmo nossa visão aguçada perdeu o rastro dele.

Nicol suspirou em uma longa exalação de calor.

"Por que você o provocou?" exigi. "Você torceu mesmo as palavras dele."

Nada disse ele, encarando ainda os céus, deslocando seu olhar para a magnificência do sol que altera o céu. Humanos não podiam olhar para o sol por muito tempo, ou se cegariam, mas nós dragões podemos encarar seu esplendor luminoso por quanto tempo desejarmos. Como Te Ju Ki uma vez me dissera, todas as criaturas dependem do sol para a vida, mas dragões são as únicas criaturas que, como o sol, podem queimar sem se consumirem.

"Templos, herdeiros e sangue," murmurou Nicol. Com uma expressão pensativa, ele baixou a cabeça e raspou seus chifres no chão para deixar uma marca, o sinal de sua presença aqui no alto das rochas de nossa montanha de nascimento. Então ele se esticou a partir de suas pernas traseiras. "Você vê, Ugin? Nossos inimigos estão vindo. Vamos descer para encontrá-los."

Um grande grupo de pessoas armadas deixara o assentamento principal, liderado por uma companhia de guerreiros vestidos de escamas a cavalo e uma cadeirinha de arruar cortinada carregada por seis jovens robustos. Este pequeno exército era acompanhado por mulas atreladas para puxar quatro balistas montadas sobre rodas. Os habitantes bem alimentados e bem vestidos ficaram em andaimes para lançar guirlandas de flores sobre os guerreiros. As pessoas mal vestidas, magras, sobrecarregadas, ajoelharam-se em ambos os lados da estrada, cabeças baixas, mãos sobre os olhos, clamando louvores em frases decoradas: "Que os poderosos nos protejam" e "o sangue governa os sem sangue."

Cantando uma melodia marcial robusta, os guerreiros orgulhosos marcharam por uma estrada cortada através da floresta que levava à base da montanha. Ali, em uma clareira nas encostas inferiores, uma bela paliçada de troncos cercava uma grande área retangular dividida em três seções separadas. As balistas foram estacionadas do lado de fora da paliçada. O restante do exército entrou na seção mais externa, passando sob um portão esculpido na forma de um dragão moribundo. Neste grande campo de assembleia, os soldados de infantaria formaram em fileiras e ajoelharam-se, curvando-se com as mãos pressionadas sobre os rostos. O contingente montado cavalgou sob um segundo portão, esculpido e pintado de forma mais elaborada, retratando um homem vestido de sangue segurando uma lança em uma mão e uma garra de dragão na outra. Aqui, cavalariços levaram os cavalos para o abrigo de estábulos de laterais abertas enquanto os cavaleiros desmontados acompanhavam a cadeirinha de arruar cortinada a pé até o terceiro e último portão.

Ali, também ajoelharam-se e cobriram os rostos em submissão, todos exceto dois: um homem de meia-idade de porte orgulhoso e uma jovem mulher com o rosto cicatrizado e um olhar feroz. Estes dois vestiam cada um um elmo adornado com uma crista de dentes de dragão. Tiveram permissão para cruzar sob um portal que era, para meu horror, a espinha curvada de nossa irmã mantida junta com arame e corda de couro.

O pátio mais interno continha um belo templo, perfeitamente proporcionado em um quadrado exato, com uma pilha engenhosamente construída de três telhados, um acima do outro, cada um pintado com olhos e sóis alternados. A cadeirinha foi carregada degraus acima até o átrio do templo e depositada, após o que os carregadores imediatamente recuaram para um pequeno galpão fechado. Os dois atendentes afastaram as cortinas, e um homem corpulento de cabelos brancos desembarcou com a assistência deles. Tinha uma expressão gananciosa e as mãos grossas e ávidas de um homem que se acostumou a tomar o que quer que queira. Sob as rugas e manchas de idade e queixo duplo jaziam os lineamentos vagamente familiares do líder dos caçadores que mataram Merrevia Sal. Por medida humana, acontecera há muito tempo, pois ele fora um homem jovem, forte e saudável então. Era difícil reconciliar minha memória daquele caçador vigoroso com o chefe fanfarrão e impaciente que insultava os dois mais jovens que o atendiam porque não o sentaram rápido o suficiente em um divã acolchoado posicionado sob o pórtico do templo. Sofreram o abuso sem piscar, apenas uma vez trocando um olhar, e aquele olhar continha sua própria tensão madura como dois tigres espreitando a mesma presa.

Meus ossos zumbiram. Sussurros perseguiam em minha cabeça conforme o vento gemia sobre o pico.

Ela é mais jovem que você, e o chefe gosta mais dela porque a acha mais audaz e corajosa. Ela pretende durar mais que você e mandar te estrangular quando ele morrer.

Ele não confia em você e nunca confiou. Considera você um arrivista, indigno, inconstante, e mandará um de seus espiões te esfaquear pelas costas no momento em que vir uma oportunidade.

Arte de: Bastien L. Deharme
Arte de: Bastien L. Deharme

Uma nuvem brevemente cobriu o sol, sacudindo minha mente livre destas imaginações vexadas.

Muito abaixo, uma sacerdotisa cujos olhos haviam sido queimados aventurou-se para fora do interior escuro. Trouxe uma taça esculpida em osso de dragão. A taça continha sangue de dragão, coagulado e mofado, no entanto o chefe o bebeu com deleite e ofereceu as sobras aos seus dois companheiros. Mais sacerdotisas apressaram-se para fora para lavar seus pés inchados e rosto ruborizado.

"Provem seu valor," disse ele aos seus companheiros. "Tragam-me a cabeça do dragão que minha balista feriu."

Sinos tocaram e tambores bateram. Os guerreiros no pátio externo uivaram com um guincho que, mesmo desta distância, estremeceu horrivelmente através dos meus ossos. Ossos que estes humanos terríveis desejavam usar para adornar seus palácios e templos.

"É curioso, não é?" disse Nicol.

"O que é curioso é por que ainda estamos aqui observando e não voamos atrás do nosso irmão."

"Você não acha tudo isso muito iluminador? Aqueles dois que o atendem tão assiduamente são dois de seus herdeiros."

"Como você sabe disso?"

Ele riu discretamente e não respondeu. "Então onde estão os outros dois herdeiros?"

"Nos outros assentamentos coroados por dragões, certamente."

"Exatamente. Isto será fácil."

"O que será fácil?"

"Você ainda não percebeu a fraqueza na filosofia deles, Ugin? Estou decepcionado com você."

Ele deu um rugido trovejante e saltou para o céu, asas abertas. Estava tão certo de que eu o seguiria, e eu segui. Chromium Rhuell poderia falar sensatamente, mas eu não tinha razão para confiar nele mais do que confiava em Nicol. Ele não era meu gêmeo, afinal, apenas um irmão de bater de asas que não era nem um pouco respeitoso com Nicol e comigo de qualquer modo. Aquele comentário sobre nós dois sermos "os menores dos caídos" me picara também, mesmo que tivesse sido destinado ao meu gêmeo.

Voamos em direção ao assentamento do herdeiro mais distante. Mensageiros haviam sido enviados do composto natal do chefe durante a noite. Quando Nicol avistou um jovem correndo em passo firme na mesma direção em que nos dirigíamos, mergulhou, apanhou o jovem em suas garras e, enquanto o humano jovem gritava e lutava, arrancou sua cabeça com uma mordida. Com descaso casual, largou o corpo na floresta.

"Nicol! Era necessário tirar a vida daquele jovem inocente?"

"Como está sua garra, Ugin? Ainda dói? Sua carne ainda está dormente? Ou você gostaria que todo o interior fosse levantado contra nós quando estes mensageiros os alcançarem?"

"Podemos apenas voar para longe."

"E deixá-los matar outros dragões? Espalhar seus costumes e conhecimento para outros humanoides? Acho que não. Estou fazendo o que é melhor para todos nós. Não é o que você quer também?"

Era difícil argumentar com minha perna dianteira latejando.

Construído à beira de um lago, o assentamento mais distante ostentava sua própria versão em miniatura do templo quadrado, uma casa longa de chefe modesta adornada com um crânio de dragão e uma paliçada separando os compostos internos dos favorecidos das cabanas humildes dos pequenos. A margem do lago estava alinhada com prateleiras e mais prateleiras de peixes secando postos ao sol, tonéis de entranhas de peixe e sal fermentando com um fedor que subia aos céus.

A paliçada era tão nova que as cicatrizes de sua construção ainda rasgavam a terra, revelando raízes frágeis e vermes pálidos gorduchos. Este herdeiro tinha uma única balista posicionada junto ao portão do assentamento, voltada para a estrada como se estivesse mais preocupado com inimigos humanos que com voos de dragão. Voei sobre o lago, não querendo chegar perto demais dos virotes com ponta de veneno da arma. Nicol varreu um amplo círculo ao redor do assentamento e seus campos, garantindo que todos soubessem que ele estava lá.

Arte de: Svetlin Velinov
Arte de: Svetlin Velinov

Quando trombetas soaram e tambores bateram o alerta, um jovem vestido com um elmo de crista saiu da casa longa do chefe. Era alto e belo, seus braços e pescoço adornados com joias de ouro torcido que brilhavam como luz solar aprisionada. Como ele, seus guerreiros estavam vestidos em armadura feita de escamas de dragão. Estas escamas pertenceram outrora ao dragão que ele matara, eu estava certo: as escamas cintilavam com tons verdes delicados sob a luz solar, dando aos guerreiros uma beleza luminosa que haviam roubado de um de nós. Havia algo antecipatório e no entanto indeciso no modo do matador de dragões enquanto ele encarava Nicol como Nicol outrora encarara o sol.

Pelo que Nicol esperava? Qual era o seu plano? Seu planeio circular lento tinha um efeito tão estranhamente hipnótico que enquanto eu pairava em uma alta corrente ascendente, não conseguia tirar meus olhos do curioso quadro, imaginando o que ia acontecer.

Os tambores silenciaram e as trombetas calaram-se. Uma brisa provocou seu caminho através dos galhos. A água do lago lambia a margem com suspiros curtos.

Meus ossos zumbiram. Sussurros perseguiam em minha cabeça em uma voz que soava cada vez menos como os resmungos retorcidos de um vento amaldiçoado e cada vez mais como Nicol.

O velho chefe viveu muito além do seu auge. Quem é ele para exigir obediência quando não consegue mais sequer lançar uma lança com precisão ou com força suficiente para matar um cervo, quanto mais um homem, quanto mais um dragão? Elevou três para serem seus herdeiros favorecidos enquanto seu próprio filho primogênito ele negligencia, embora esse filho digno tenha matado um dragão finalmente após tantos anos sendo ridicularizado pelas suas insuficiências. Os deuses concederam seu favor ao velho, todos concordam. Aquele favor deveria passar para o seu filho, não deveria? No entanto ele foi empurrado para a borda mais distante da chefia, forçado a governar sobre pescadores e viver em meio ao fedor.

E se tal filho digno tiver algo melhor que um crânio de dragão como seu troféu? E se tiver dragões ao seu comando? Matar um dragão é uma ação de caçador audaz, claro, a não ser desprezada. Mas para um dragão servir a um humano? Ora, esse é o padrão de um líder.

Poderia ser a sua medida. Se você marchar contra os outros herdeiros. Se você os derrotar, e matar seu pai. Um dragão poderia respeitar uma pessoa assim, não poderia?

Fui lento em entender. Os ensinamentos calmos e comedidos de Te Ju Ki haviam encontrado um lar no meu coração; faziam sentido para mim. Mesmo quando o jovem mobilizou seus guerreiros e fez um discurso poderoso para eles sobre o presságio dos dragões e como haviam mostrado seu favor voando sobre eles e não queimando o assentamento ou matando ninguém, eu não entendi. Mesmo quando marcharam com propósito ágil, ele montado em um esplêndido corcel com seus oficiais vestidos de escamas ao lado, eu não entendi. Estava convencido de que iam se juntar aos outros, para fazerem causa comum contra nós, mesmo quando tal curso de ação não fizesse sentido algum. Nós dois dragões estávamos lá, bem na frente deles. Repetidamente o filho do chefe gesticulava em direção a Nicol, que permanecia no alto mantendo um olho cauteloso na balista mas com sua atenção focada majoritariamente no filho do chefe.

Conforme o último dos soldados de infantaria passou sob o portão, Nicol desceu até a casa longa. Ransou suas garras ao longo de sua viga de cumeeira, marcando-a, e rugiu, apenas uma vez, como um desafio ou uma benção. Um grande grito de resposta ergueu-se das fileiras. Cantando suas canções violentas, marcharam para longe em direção ao assentamento central.

Nicol voou até mim onde eu permanecera recuado, sobre o lago.

"Agora retornamos para a montanha de nascimento," disse ele.

"O que você está fazendo?" exigi.

"Oh, Ugin, você ainda não entende? Humanos são crivados de ódio e inveja e medo e ganância. Farão facilmente o que mandarmos. Você só precisa saber onde enfiar sua garra para obter a resposta que quer."

O filho do chefe marchou até o assentamento central, agora sem sua guarnição de guerreiros temíveis, e matou os apoiadores do chefe e instalou-se no trono. Enquanto isso Nicol pousou no topo da montanha de nascimento e com sua presença lá atraiu os dois herdeiros cada um com seu bando de guerreiros cada vez mais alto pelas encostas, rodando e rodando até que as duas facções ficaram frente a frente sobre um campo acidentado de lava antiga. Lá lutaram amargamente entre as pedras afiadas, o homem de meia-idade contra a jovem mulher. Enquanto os dois exércitos lutavam, Nicol voou até o templo desprotegido e queimou-o e aos seus acólitos até o chão.

Arte de: Chris Rallis
Arte de: Chris Rallis

Mas ele deixou o chefe perplexo vivo entre os ossos e vigas carbonizados. Apanhou o velho quase ternamente em suas garras e voou com ele para o quarto e último assentamento onde a segunda esposa do chefe se estabelecera como uma de suas herdeiras após ela, também, ter matado um dragão. Era a maga que primeiro enfeitiçara o veneno.

Quando Nicol gentilmente depositou o velho homem sozinho e desprotegido em seu pátio, ela saiu. Era uma mulher impressionante com o brilho da inteligência em seu rosto. Seu cabelo trançado, envolto no topo da cabeça, estava coroado com pérolas e gemas. Atendentes armados ajoelharam-se perante o velho chefe, que mesmo em seu estado desgrenhado e aterrorizado latia ordens para ela, exigindo um banho e comida e roupas frescas apropriadas à sua estação exaltada.

Meus ossos zumbiram. Os sussurros ficaram cada vez mais altos.

Ele arrancou o segredo do veneno de você. Compartilhou-o com outros e roubou o que era seu direito: sucedê-lo como chefe porque você tinha a astúcia e a inteligência, não como os outros herdeiros, que meramente se beneficiaram do seu brilhantismo. Você é a digna. No entanto aqueles dois usurpadores que sentam ao lado dele e o lisonjeiam acham que merecem o estandarte do matador de dragões, enquanto o filho chorão de sua primeira esposa agarra o que pertence a você.

Ela estalou os dedos. Seus atendentes saltaram e formaram um círculo ao redor dele, com suas armas apontando não para fora, para protegê-lo, mas para dentro, para ameaçá-lo.

"Que traição é esta?" clamou ele. "Você deve tudo a mim. Eu a elevei da cabana de junco do pântano onde você nasceu. Permiti que aprendesse com meus magos mais espertos. Você se curvará perante mim como é apropriado."

Ela caminhou para frente e pressionou a ponta de seu cajado de garra de dragão contra o rosto dele até que, tremendo, ele caiu de joelhos perante ela.

"Seu velho tolo! Eu me elevei a despeito de você me usar como se eu fosse sua escrava. Você roubou o que deveria ser meu por direito."

Esfaqueou-o uma, duas e três vezes, e mandou atirar seu corpo sangrento e inchado no refugo fedorento de uma latrina.

"Nós marchamos!" gritou ela para o seu povo. "Os indignos e os usurpadores todos se curvarão perante mim!"

Vocês, meus alunos Jeskai, não ouviram falar da guerra dos matadores de dragões. Aconteceu há muito tempo e em um lugar desconhecido para vocês. Ninguém escreveu sua história porque a escrita ainda não existia, e os que sobreviveram contaram um conto diferente do que estou contando a vocês agora. Assim a verdade daqueles eventos foi perdida, até para seus descendentes.

Quanto a mim, agachei-me no topo da montanha de nascimento chocado pelo que testemunhei porque não sabia o que fazer ou por que os humanos se comportavam tão violenta e horrivelmente uns com os outros. A luta enfureceu-se em uma tempestade de destruição até que apenas a esposa e o filho restaram, entrincheirados atrás de muros mais altos, os remanescentes dos exércitos dos outros dois herdeiros divididos entre eles. Os campos ficaram sem cuidado. As pessoas começaram a passar fome. Não havia nada que eu pudesse fazer, ou ao menos era o que eu continuava pensando, meus pensamentos correndo em círculos atrás de círculos atrás de círculos.

Até a noite em que acordei de um sono atribulado para encontrar Nicol desaparecido. Voei em seu rastro, pois todos os dragões são capazes de seguir o rastro semeado de brasas deixado por nossa espécie. Pareceu que a voz dele se prendeu em minha mente como se ele ainda estivesse falando comigo.

"Venha testemunhar o fim, Ugin. Venha testemunhar o começo."

No assentamento central, no grande pátio em frente à casa longa do chefe, tochas queimavam. Nicol empoleirara-se no topo da casa longa com seus olhos cintilando como gemas contra a noite. Era uma peça estranha de magia o fato de ele poder se esticar sobre a viga do telhado sem que seu grande peso colapsasse a estrutura, mas nós dragões temos muitos fios de magia tecidos em nosso ser.

No pátio, o filho do chefe e a segunda esposa do chefe encaravam-se. Como haviam chegado lá, e por que ambos estavam desarmados, eu não poderia dizer, mas pareciam tão belos juntos, como o final apropriado para um conto romântico.

"Este dia é o casamento dos herdeiros do matador de dragões, aquele que primeiro abateu uma das feras pavorosas."

Quem falou eu não sabia. Meus ouvidos estavam nublados, e meu coração estava escuro de pressentimento.

"Que vocês unam as mãos com o seu juramento."

Ela estendeu os braços; ele encontrou os dela; seus dedos se entrelaçaram.

"Que seu juramento seja selado com sangue."

Soltaram-se um do outro. A luz das tochas retorcia a sombra pela cena conforme cada um tomou a garra de dragão de seu reinado, ela o cajado e ele uma faca longa. Cada um mergulhou sua garra no peito do outro, e caíram juntos e, ensopados no sangue um do outro, morreram.

"Fizeram o sacrifício apropriado," disse a voz. Era Nicol, erguendo-se da viga do telhado, seus chifres brilhando e seus olhos luzindo com um encanto que me deixou tonto. "Pois agora, vocês entendem a verdade do sangue de dragão. Eu os governo agora. Sou o seu verdadeiro líder. Curvem-se perante mim."

Um vasto e temeroso suspiro passou pela assembleia. As pessoas caíram de joelhos, pressionando as mãos contra os rostos.

"O que você está fazendo?" gritei. "Isto não é o que você aprendeu com Arcades!"

"Claro que é o que aprendi com Arcades," disse ele, virando-se para olhar para mim.

Fundo em seu olhar coruscante captei um vislumbre dos irmãos com a carroça, de volta no reino ordenado de Arcades, trabalhando em amizade. Aquela paz fora estilhaçada pelo surgimento abrupto de um rancor há muito enterrado porque Nicol fincara uma garra de dúvida e inveja em um coração vulnerável. O homem, tão atingido, sucumbira a um sussurro que despertara o pior nele.

Assassinato | Arte de: Tyler Jacobson
Assassinato | Arte de: Tyler Jacobson

"Ugin, você sabe que tenho razão," meu gêmeo disse suavemente, sedutoramente, sua voz uma pressão tão gentil, tão persuasiva, tão credível em seu argumento. "Agora que compreendemos a magia, não há nada que nos parará de construir uma chefia maior, de espalhar nosso domínio, de conseguir nossa vingança contra Vaevictis e seus irmãos ranzinzas, de colocar nossos irmãos em seu lugar. Menores dos caídos! Eles verão. Nós lhes mostraremos, não mostraremos? Não seremos mais os menores. Eles se curvarão perante nós. Você sabe que é o que você quer. O poder pode ser nosso. Será nosso."

Mas poder não era o que eu queria. Ele não me entendia de jeito nenhum. Nem sequer se importava em me entender. Tudo o que lhe importava era conseguir o que queria, não importasse o custo para os que o cercavam. Não importasse o custo para mim.

Ah! Que dor floresceu em meus corações, uma cascata de choque e traição lancinantes.

Meu irmão, meu gêmeo.

Já é ruim o suficiente ele ter tão insensivelmente, tão alegremente, rasgado as mentes destes humanos para conseguir o que queria deles.

Entendi isso agora, mas ele pretendia violar a minha mente também.

Meu irmão, meu gêmeo.

Ele pretendia despertar o pior em mim, porque sucumbira ao pior em si mesmo, e queria me arrastar com ele.

Não, era pior ainda que isso.

Ele queria me usar para seus próprios fins, porque nunca verdadeiramente se importara comigo de jeito nenhum.

O laço que compartilhávamos. A confiança que tínhamos um no outro. Era vazio, quebrado, falso.

Uma centelha ríspida e quente estourou em meu coração e em minha cabeça. Minha carne ardeu como se incinerada e carbonizada.

Um vento abrasador rodopiou de dentro e de fora dos céus e arrastou-me para dentro de uma tempestade aterrorizante de trevas onde eu não conseguia sequer tomar fôlego e senti meus pulmões sendo esmagados por um peso de pavor. Uma força retorceu meu corpo como tentando me virar do avesso. Por um instante, minha mente ficou em branco, não vendo, não sentindo, e então com um puxão, voltei a mim mesmo.

Para meu assombro, vi-me flutuando acima de um mar sem características, tão plano e parado que eu conseguia ver meu próprio reflexo na água: meus chifres, minhas escamas, meus olhos como faíscas gêmeas queimando brilhantes. Derivava em perplexidade, dilacerado pela mágoa de perder o irmão em quem confiara e estupefato pelo puro assombro chocante de ser arrancado do único lugar que jamais conhecera e arremessado no espaço entre os planos.

Pois entendi então que Te Ju Ki me ensinara a verdade, que ela vira este lugar em uma visão. Era fisicamente frágil, atada ao solo de seu lar, mas sua mente podia percorrer onde seu corpo e magia não podiam ir.

Ela pensara que ninguém conseguia cruzar entre mundos, mas agora eu estava lá, caminhando entre os planos sobre os quais ela me falara.

Com esse pensamento como uma âncora, caí como uma estrela cadente cai: impotentemente, queimando, obliterado pela sua passagem.

Quando acordei novamente em meu corpo, estava aqui, desperto, renovado, vivo, em Tarkir. E senti a terra me acolher, como se eu tivesse finalmente chegado em casa.

Nicol tivera razão afinal: eu testemunhara o fim, e este era o meu novo começo.


)

Tae Jin interrompeu-se. O trovão estrondou no alto, tremendo através da rocha. O lamento do vento subira para um tom mais alto, mais frenético.

"E então o que aconteceu?" Naiva exigiu.

A Avó ergueu uma mão para lembrá-la de que Fec, Rakhan e Sorya estavam dormindo para que pudessem assumir uma vigília posterior. Em voz baixa, disse ela, "Você pode continuar a história, Tae Jin."

Ele balançou a cabeça. "É tudo o que sei. O pergaminho que memorizei termina aí."

Pergaminho dos Mestres | Arte de: Lake Hurwitz
Pergaminho dos Mestres | Arte de: Lake Hurwitz

Naiva gemeu. Baishya pressionou as mãos contra a boca.

A Avó assentiu com sua calma habitual, a luz do fogo tremeluzindo em seu rosto de modo que parecia um espírito do passado desvanecendo em uma penumbra imensurável. "Então. Parece que estamos sendo chamados ao túmulo de Ugin para terminarmos a história."

"O que resta para contar?" perguntou Tae Jin. "A história não é sobre como o Dragão Espírito veio para Tarkir?"

"Há dezoito anos, testemunhei uma batalha no céu que terminou com a morte de Ugin. Aquela batalha terminou com o Tarkir que eu conhecia. Aquela batalha colocou todos os clãs em um novo caminho, um novo começo. Havia outro dragão na tempestade naquele dia."

"Deve ter havido muitos dragões. As tempestades geram dragões."

"Este não foi um dragão gerado por tempestade. Este dragão desapareceu em um clarão de luz dourada, como um segundo sol. Ele não voou para longe. Estava simplesmente lá, e então não estava lá."

Nexo do Destino | Arte de: Michael Komarck
Nexo do Destino | Arte de: Michael Komarck

"Isso é impossível," disse Naiva.

Naiva nunca vira a Avó parecer tão grave, e ela era uma mulher que raramente sorria.

"Não impossível se existem outros planos e alguns indivíduos poderosos que podem caminhar entre esses planos, passando de um mundo para o seguinte como poderíamos cruzar um riacho sobre pedras de passagem."

"É tão difícil acreditar que possa ser verdade," disse Baishya suavemente.

"Eu certamente não acreditei quando o conhecimento me foi revelado pela primeira vez," disse a Avó com um olhar severo para Naiva. "Cometi um erro terrível naquela época. Uma voz falou comigo, dizendo-me que eu agia pelo bem dos clãs. Mas eu era meramente uma ferramenta usada por um poder maior que eu mesma. Aquele dragão, chamado Bolas, matou Ugin. Vi o corpo do Dragão Espírito no desfiladeiro. Ouvi seu último suspiro, senti a cessação de seu espírito. Mas os edros lançados por um Planeswalker chamado Sarkhan Vol continham uma magia que eu não entendi então e que só agora começo a compreender. Alguma essência de Ugin ainda sobrevive, por mais frágil e fraca que possa ser. Não pode ser coincidência que Ugin esteja lutando para nos alcançar agora. As visões são um aviso."

"Um aviso contra o quê?" Naiva perguntou.

Tae Jin ecoou, "Contra o quê, Yasova Garra de Dragão? O pior já aconteceu quando os dragões soberanos baniram nossos clãs e nossos khans e nosso conhecimento dos ancestrais."

"Talvez esse não seja o pior que pode acontecer," disse a Avó.

O trovão estalou de novo, e desta vez uivos e rugidos abafados ecoaram de volta. Um estremecimento rolou pelo chão como se um peso enorme tivesse acabado de cair sobre a terra. Fec abriu os olhos e sentou-se. Sacudiu Rakhan e Sorya para acordá-los, e todos agarraram suas armas.

Um som de raspar soou do túnel. Naiva agarrou sua lança e estabeleceu-se em um agachamento junto à abertura. O clique de um chamado de lagópode anunciou a presença de um dos seus. Ela recuou conforme Mattak emergiu na câmara com uma faca na mão.

"Primeira Mãe, melhor a senhora vir ver."

Crônica de Bolas: Sangue e Fogo

Ninguém deu permissão a Naiva para deixar o abrigo de rocha e rastejar para o coração de uma tempestade de dragões, mas ela não pediu. Agarrou sua lança e correu para fora pelo túnel, emergindo em uma saliência parcialmente protegida pelos rochedos circundantes. O vento açoitava seu rosto com farpas de gelo. O ar picava sua pele, fazendo seu cabelo arrepiar.

Ao entardecer, a maior parte do céu estivera limpa, as estrelas uma presença cintilante no alto. Agora, quando ela espiou de sob a rocha, viu nada além de trevas. Os uivos e guinchos de dragões recém-nascidos a ensurdeciam conforme a tempestade enfurecia-se no alto.

Relâmpagos dividiam-se em cem linhas denteadas que revelavam dragões caindo e voando em uma agitação incessante como crianças em uma brincadeira bruta ou guerreiros em batalha implacável. Nuvens revoltas estalavam com energia. A escuridão a engoliu novamente.

Uma forma saltou de cima das rochas e abaixou-se ao seu lado. Pelo cheiro de pelo molhado, ela soube que era o silencioso ainok, Darka.

"Onde está a Primeira Mãe?" disse ele.

"Aqui!" A Avó empurrou-se para fora ao lado de Naiva.

Um relâmpago lampejou. Uma explosão de chuva quente chocou-se, sibilando ao atingir o chão. Faíscas dançavam no ar.

"Problema!" ele chamou. "Ela está aqui!"

O que o ainok quis dizer com "ela"? Naiva se perguntou.

Relâmpagos lampejaram em uma longa cadeia de virotes que traçavam um caminho por todo o arco dos céus. Estilhaçou-se em uma vasta arquitetura de galhadas envoltas em fogo. Um rugido como o estrondo de cem trovões levou Naiva aos joelhos, onde ela arquejou por ar. Darka também caiu, mal se amparando com uma mão. Apenas a Avó permaneceu ereta, sem se curvar, agarrando seu cajado.

Despertar Temível | Arte de: Véronique Meignaud
Despertar Temível | Arte de: Véronique Meignaud

"Ela encontrou a cria morta." Seu grito era mal audível no tumulto.

Delineada com uma aura sobrenatural daquela mesma luz malévola, a imensa dragão ergueu-se dos rochedos onde a cria caíra e voou para o coração da tempestade. Retalhando e enfurecendo-se, ela impeliu os filhotes mais fundo na noite. Rastros de relâmpagos marcavam seu caminho. O trovão estalava em seu rastro.

O grito do vento diminuiu para um estrondo ruidoso. A chuva que caía em lençóis desvaneceu para uma névoa leve. Uma mancha de estrelas apareceu bem acima do redemoinho.

Um clarão de luz dourada inflamou-se como o sol nascendo no zênite, mas o brilho foi extinto tão rapidamente quanto aparecera, deixando as estrelas brilharem novamente. No entanto algumas daquelas estrelas desapareceram em um rastro descendente, apagadas e então reaparecendo em um rastro como se uma forma grande estivesse caindo dos céus. Naiva esfregou os olhos, pensando que a tempestade ferira sua visão, mas quando olhou novamente todas as estrelas brilhavam firmemente. As nuvens começaram a clarear conforme a chuva cessou. Certamente a mancha em queda fora nada mais que uma distorção do vento e da nuvem revolta.

A promessa do amanhecer que vinha verteu um fio de luz no ar, o suficiente para que as formas dos rochedos surgissem à vista contra o céu escuro. Fec emergiu da passagem e parou para inalar profundamente.

"A tempestade se foi," disse ele.

A Avó assentiu em seu modo decisivo. "Preparem-se. Chamem Oiyan para dentro. Vamos nos mover assim que houver luz suficiente."

"Não seremos visíveis, presa fácil, se Atarka retornar?" Naiva perguntou.

"Ela impelirá os filhotes de volta a Ayagor e os levará para caçar," disse a Avó sombriamente. "Essa é a única habilidade com que ela se importa."

"E quanto às entranhas? Vamos deixá-las para trás depois de todo o trabalho que você teve para cortá-las do dragão?"

"O rio as manterá geladas. Vamos buscá-las depois. Não é seguro agora."

"Quando será seguro?" Naiva perguntou irritavelmente.

"Seguro significa meramente que o último dragão que vimos está voando para longe de nós." A Avó olhou em direção ao leste, onde o horizonte estava mudando para um ouro cintilante. "Fec, você toma a dianteira. O restante de nós seguirá assim que estivermos prontos. Tae Jin e Baishya, fiquem perto de mim. Naiva, vá com o Fec."

"Mas Avó — " Naiva interrompeu-se quando viu o olhar de surpresa de Tae Jin por ela ter tido a audácia de protestar contra uma ordem de sua anciã. Baishya captou o olhar dela e balançou a cabeça reprovadoramente.

Ela caminhou pesadamente para frente para juntar-se ao velho orc. Por que a Avó sempre mantinha Baishya ao seu lado quando Naiva era a melhor caçadora e poderia protegê-la se algo desse errado? Simplesmente não era justo.

"A jovem Naiva junta-se a mim hoje, com olhos aguçados e rápidos para sombrear minhas orbes embranquecidas pela idade," disse Fec conforme saíam através do amontoado de rochedos. Seu manquejar era pronunciado, mas ele usava seu cajado habilidosamente, como uma terceira perna, para negociar o chão irregular.

"Sim, obrigada, deveríamos ficar quietos e sem falar."

O riso dele estrondou suavemente. "Você preferia estar caminhando ao lado do belo jovem estranho."

Não pela primeira vez ela desejou ter a fachada calma de Baishya ou a máscara severa da Avó, mas seus sentimentos sangravam por todo o seu corpo. Tentou fechar sua expressão, parecer forte e desapaixonada, mas estava certa de que Fec estava rindo dela em silêncio, embora ele provavelmente não estivesse prestando atenção nela de jeito nenhum. Conforme saíram dos rochedos para a tundra aberta, o olhar dele percorria da maneira de um caçador experiente que sabe como ler a terra em busca de sinais de caça: caules de grama quebrados, pegadas afundadas no solo, uma carcaça limpa até o osso, fezes frescas. Não importava como ela tentasse focar, seus pensamentos continuavam girando de volta para sua queixa. Não era justo que a Avó protegesse Baishya enquanto ela ficava presa com um orc meio aleijado que zombava dela e nem sequer pertencia ao clã. Só porque a Avó dissera que ele era um deles agora não tornava aquilo verdade. Ela chutou uma pedra em uma poça rasa. A pedra quebrou a pele de gelo na água e sumiu de vista.

Ele lançou um olhar para o lado dela. "Diga o que pensa, jovem Naiva. Melhor não engasgar com palavras que deveriam ser soltas como flechas."

Muito bem. Ela estava à altura do desafio!

"Por que a Avó abrigou você?"

"Abrigar um orc meio aleijado, você quer dizer? Yasova sempre tem seus motivos."

"Que respostas a Avó realmente acha que podemos encontrar no túmulo de Ugin? Que tipo de respostas coisas mortas têm, exceto por sinais que nos dizem como foram mortas?"

"Nem tudo o que está morto se foi, ou está ausente. Os ancestrais ainda têm contos para nos contar."

"Atarka matou minha mãe por falar com os ancestrais. É melhor deixar os mortos irem e nos concentrarmos na caçada."

"Melhor para os dragões soberanos. Talvez não melhor para nós que devemos servi-los em vez de governarmos a nós mesmos como outrora fizemos."

"Conversa desse tipo vai fazer você ser comido, se chegar ao conhecimento de Atarka."

"Você contará a ela?" O tom dele a desafiou.

"Se significar salvar a tribo, contarei."

Mas o pensamento de entregá-lo a Atarka a corroía. Ele não estava errado ao apontar que o domínio dos dragões soberanos era severo e inflexível, que tornava o povo mais parecido com servos que caçadores orgulhosos. Ela não queria tornar-se uma daquelas contadoras de contos sem espinha que se arrastavam e bajulavam em Ayagor para tentar ganhar o favor de Atarka, como se a dragão se importasse com qualquer coisa em relação aos seus súditos mortais exceto que eles lhe trouxessem carne e mais carne.

Sussurrador de Dragões | Arte de: Chris Rallis
Sussurrador de Dragões | Arte de: Chris Rallis

"Foi conversa proibida o que fez você ser expulso de sua tribo?" ela perguntou.

"O que você chama de conversa proibida eu chamaria de falar a verdade. Mas não é por isso, jovem." Apontou para sua perna direita arrastando. "No clã Kolaghan aqueles que não conseguem acompanhar são deixados para trás."

"Então por que você não aceitou a morte? Não teria sido mais honroso?"

"Existem muitas estradas para a honra. Muitas maneiras de lutar, mesmo que minha tribo não reconheça seu valor." Bateu na testa com os dedos indicador e médio. Ao contrário dos humanos, ele não precisava de luvas porque a pele dura de suas mãos resistia ao pior frio. Uma rede de cicatrizes finas tecia um padrão ríspido nas costas de cada mão, a marca de nenhuma garra que ela já tivesse visto. Talvez fosse apenas como orcs envelheciam, como manchas de idade nas mãos de anciãos murchos mantidos vivos por seus filhos sentimentais. "Muitas coisas valem a pena salvar, como Yasova Garra de Dragão bem sabe."

"Você sabe que aquela palavra não é permitida!"

"Se não a usarmos, então os jovens esquecerão."

"É melhor descartar o que não podemos usar. Atarka nos governa agora, não a garra de dragão, não um khan. Mesmo que não gostemos, é assim que as coisas são."

Ele gesticulou através da garganta, cortando-a. Humilhada pela sua prepotência para com ela — a neta de Yasova! — ela corou. Se ao menos fosse uma dragão. Ela o queimaria. Queimaria.

Mas ele não estava reagindo às palavras dela. Sua língua lambia o ar. Suas costas retificaram-se. Enfiou o cajado em uma alça ao longo de suas costas e arrancou ambas as espadas com um movimento ágil cuja eficiência a impressionou. Feitas de latão, eram os objetos mais valiosos que ele possuía, embora não tivessem nem de longe um gume de corte tão afiado quanto as armas de obsidiana usadas pelo restante da tribo.

"Naiva, corra rápido de volta. Devem se esconder no abrigo."

Sua raiva verteu como chuva de seu manto de feltro. Girou para procurar perigo.

Uma vasta escuridão acelerava em direção a eles, monstruosa e silenciosa. Apenas uma criatura possuía tal espalhado aterrorizante de galhadas espinhosas e brilhantes. Naiva disparou de volta em direção aos rochedos mas, embora fosse jovem e veloz, não era um dragão soberano. A forma imensa de Atarka passou sobre ela em uma lavagem de sombra e calor. A dragão chocou-se contra a terra bem na borda dos rochedos. O chão tremeu. Naiva tropeçou, amparando-se na mão dianteira, então saltou de volta e continuou correndo.

Mas era tarde demais. O dragão soberano pegara a Avó e os outros a um arremesso de lança de distância dos rochedos mais externos e se colocara entre eles e a segurança das rochas. Naiva desacelerou para uma caminhada. Sabia ser melhor não se mover rápido. Atarka poderia parecer desajeitada mas nada se movia mais rápido que o dragão soberano quando sua ira era despertada.

O rosnado da dragão estrondou tão alto quanto a avalanche que arrancara metade do campo de neve em Gelo Eterno. Com um longo e quente sibilo, ela estendeu a mão e fechou suas garras ao redor de Darka.

"Um lanche saboroso!" ela trovejou. "Quase tão bom quanto urso."

O ainok não lutou nem implorou; era orgulhoso demais, e não havia sentido de qualquer forma.

A Avó caminhou para frente e bateu sua lança na terra três vezes, exigindo ser vista. Nunca ela se curvaria. Nunca ela se encolheria. "Atarka! Por dezoito anos meu povo lhe trouxe carne em honra ao nosso acordo. Tenho algo melhor e mais substancial para você do que um ainok magro."

Os olhos imensos piscaram. Hálito abrasador e azedo soprou sobre eles. "Como meu descendente morreu? Ele era meu favorito."

Naiva duvidava que qualquer uma das crias fosse a favorita de Atarka mas a dragão era uma fera astuta e gananciosa.

A Avó disse: "Os filhotes devem tê-lo matado."

"Os filhotes sentiram o cheiro do sangue dele e foram banquetear-se. Eles não o mataram." Ela arrancou a cabeça de Darka com uma mordida antes de atirar seu corpo em um arco alto. Caiu fora de vista mas perto do local onde, Naiva sabia, jazia a carcaça da cria. A morte dele a enojava, mas todos enfrentavam a morte todos os dias. Ao menos a dele viera rápido.

"Diga verdade ou como o outro ainok," Atarka trovejou, baixando-se para mais perto de Yasova. "Você o matou?"

A Avó não se moveu, mantendo-se entre o dragão e o parente de Darka, Rakhan. "Não matei a cria. Mas como eu estava dizendo antes de você desperdiçar a carne do meu ainok, matamos algo melhor para você."

"Melhor que carne de ainok?"

"Muito melhor. Um dos parentes de Ojutai matou seu descendente e alimentou-se de suas entranhas. Vingamos a morte de sua cria matando o forasteiro. Um dragão para o seu próximo banquete!"

Atarka ergueu a cabeça e testou o ar. O odor pungente da tempestade ainda pairava, tecido com o cheiro de grama, de terra, de sangue secando e rocha velha.

Dragão Soberano Atarka | Arte de: Karl Kopinski
Dragão Soberano Atarka | Arte de: Karl Kopinski

"Mostre-me."

A Avó gesticulou para os outros permanecerem atrás e começou a caminhar, sozinha, em direção ao espalhado distante de rochedos onde a cria depositara o dragão de Ojutai morto. Atarka bateu uma garra dianteira no chão em frente à velha mulher.

"Todos vêm. Todos." Um bufo de faíscas fumegou de suas narinas. "Conheço seus truques. Comerei todos se não ficar satisfeita."

A Avó sinalizou com uma mão para que formassem uma fila atrás dela.

Naiva manteve as costas rígidas e o olhar à frente; cada criança era ensinada a nunca desafiar um dragão olhando-o diretamente nos olhos mas também nunca se encolher submissamente ou fugir. Era melhor morrer que se encolher. Deixou os outros passarem, trocando um olhar com Baishya. Sua gêmea hesitou, preparando-se para ficar para trás com ela, mas Naiva gesticulou para que ela seguisse. Apenas quando todos os outros haviam ido à frente foi que ela se posicionou ao final da fila. Nada exceto ar a separava de Atarka. O dragão soberano caminhava atrás deles, cada passo um terremoto. Quando o dragão exalava, faíscas rodopiavam pelo seu corpo. Era tão difícil não olhar para trás, não que um olhar fosse salvá-la. Um golpe, uma explosão, e ela estaria morta, obliterada, mas queria fazer como a Avó faria. Queria provar-se digna de ser neta de Yasova Garra de Dragão: destemida, um escudo vivo entre o perigo e a tribo.

Seu senso do mundo ao seu redor expandiu-se: cada passo poderia ser o último, cada inalação de fôlego sua medida final, cada batida de coração o fim. Tae Jin olhando para trás para ela; a respiração superficial de Baishya; o luto sufocado de Rakhan; os outros caçadores silenciosos e alertas, prontos para qualquer coisa mesmo que esse qualquer coisa fosse a morte que aguardava a todos no fim.

Mas Atarka deixou-os viver, ou talvez tivesse esportes mais cruéis em mente para jogar com seus reféns. Viviam por sua tolerância. Os dragões soberanos eram mais poderosos que os antigos caminhos, então qual era o ponto de prezar os ancestrais quando haviam sido esmagados e derrotados? Se tivessem sido dignos, certamente teriam vencido.

Inesperadamente, Atarka saltou para cima e com um uivo de alegria voou em um pulo rápido sobre eles para cair ao lado do corpo do dragão de Ojutai. O dragão esguio estava bastante retalhado após a batalha titânica, mas todos se prepararam conforme Atarka farejou ao redor do corpo e inalou um gosto de seu sangue coagulado. Será que ela perceberia que nenhuma arma humana cortara o corpo?

Chicoteou sua cauda para frente e para trás para forçar o grupo de caça contra um rochedo, prendendo-os ali. Pensando na mãe delas, Naiva colocou-se na frente de Baishya, mas o olhar da dragão caiu não sobre a herdeira dos dons xamânicos de sua mãe mas sobre Tae Jin. Felizmente, a túnica consertada cobria sua tatuagem de fogofantasma, mas suas feições faciais e cabeça raspada o marcavam como diferente dos outros humanos.

Ela bufou várias vezes. "O que é este forasteiro?"

A Avó deu um passo em direção ao dragão. "Ele pertence ao meu grupo de caça."

"Fah! Ele cheira a Ojutai, aquele saco de vento bombástico que sopra gelo."

Tae Jin deu um passo à frente, erguendo seus braços, palmas para cima, e trazendo seus antebraços juntos no gesto que daria nascimento à lâmina de fogofantasma em suas mãos.

"Tae Jin! Não comece o que você não pode terminar." Ninguém cruzava a Avó. Conforme ele obedientemente baixou os braços ao lado do corpo, ela retornou sua atenção ao dragão soberano. "Ele veio juntar-se a nós porque ouviu de sua grande estatura e ferocidade, Atarka. De que serve para um guerreiro bravo servir a um saco de vento bombástico que sopra gelo quando ele pode caçar no serviço de um dragão verdadeiro como você?"

Atarka estrondou, sua cabeça balançando hipnoticamente para frente e para trás conforme considerava primeiro a carcaça e depois o jovem franzino. "Ele não parece robusto o suficiente para caçar para mim."

"Um caçador também pode ter sucesso sendo astuto."

Tae Jin deu um passo à frente. "Sou útil de outras maneiras, grande Atarka. Por exemplo, posso lhe contar muitas histórias."

"Palavras me entediam. Não são saborosas como carne." Girou seu olhar fulgurante de volta para a Avó. "Você pode assistir enquanto eu o como ao lado deste dragão de Ojutai."

"Como desejar, Atarka. Mas considere isto. O próprio Ojutai enviou seu próprio descendente favorecido para caçar o homem. Ele não desejava que o homem deixasse seu domínio e servisse a outro, maior dragão soberano. Você ganha uma vitória sobre Ojutai mantendo este homem vivo em sua tribo quando Ojutai o quer morto."

O riso cruel de Atarka lavou-os como um banho gélido. "Gosto disso. Conte uma história enquanto eu banqueteio. Então eu decido."

A Avó olhou para Tae Jin. Destemido, ele caminhou para frente para ficar ao lado da velha mulher.

"Contarei uma história que minha mãe me contou quando eu era menino. Ela a aprendeu com seu mestre."

Conforme a grande dragão começou a rasgar a carne esfriando do dragão menor, Tae Jin começou a falar.


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Há muito, muito tempo atrás, reinou um rei de grande beneficência, maior que qualquer outro rei em toda a terra. Este rei era um dragão de particular sabedoria e força. Outrora chamado o menor de seus irmãos, Nicol viajara o continente de seu nascimento com seu irmão Ugin para descobrir a verdade do mundo. Mas infelizmente, a verdade era amarga. O mundo era amargo. Violência e assassinato irrompiam mesmo no mais ordenado dos reinos humanoides, mesmo quando havia espaço abundante para todos onde a vegetação crescia exuberante e feras vagavam em abundância.

Atribulado e transtornado por esta revelação, o jovem dragão viajou para a montanha de seu nascimento com seu irmão. Não estava certo do que buscava mas esperava descobrir a iluminação. Uma perspectiva muito mais terrível o saudou quando finalmente alcançou o antigo pico.

Os humanos que viviam abaixo da radiância brilhante da montanha de nascimento elevaram um assassino como seu chefe, e seus herdeiros eram também assassinos.

Matadores de dragões.


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Atarka ergueu a cabeça, ligamentos e carne pingando de suas mandíbulas, e fixou um olhar quente e dourado sobre Tae Jin. O ar estalou de antecipação. Ele tinha a atenção dela agora, e aquilo não era uma coisa boa.

Estudante de Ojutai | Arte de: Jason A. Engle
Estudante de Ojutai | Arte de: Jason A. Engle

Ele esfregou os olhos, balançou a cabeça como para clareá-la, e murmurou, "Não era essa a história que eu pretendia contar. Deixe-me tentar de novo."


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Com feitiçaria vil o chefe e seus herdeiros predavam os dragões, não se importando com a nobre superioridade dos magníficos. Estes humanos frágeis alimentavam-se do sangue e osso daqueles maiores que si mesmos, esperando roubar aquela força. Com lança e feitiço, o chefe esmagou seus súditos sob seu calcanhar. Aqueles que o agradavam e lisonjeavam prosperavam, e aqueles que eram pegos sussurrando traição morriam. Aqueles que não podiam lutar labutavam famintos nos campos para alimentá-lo. Aos saudáveis e fortes foram dadas lanças e chicotes com os quais açoitar o rebelde e o estranho até a submissão. Conforme os anos passavam, o chefe veio a governar mais pessoas e estender seu domínio sobre mais terras. Os gananciosos prosperavam, e os fracos gemiam sob o fardo de seu labor interminável.

Mas dragões não sofrem tais indignidades por muito tempo. Tal afronta deve ser respondida. Quando o jovem dragão chegou à montanha de nascimento e viu a injustiça e o abuso sendo infligidos aos vulneráveis, soube que deveria agir. É verdade que seu irmão não era tão audaz; ele cavilava; ele hesitava. Mas nada fazer para vingar a morte de seus parentes é o mesmo que matá-los você mesmo.

Superado em número e incapaz de igualar a feitiçaria cruel dos humanos, o jovem dragão superou os humanos em astúcia em vez disso. Com malícia inigualável, ele colocou os herdeiros uns contra os outros de modo que lutassem uns contra os outros até que todos perdessem a guerra pela sucessão. No curso da guerra, seu irmão foi varrido para o nada por uma explosão de feitiçaria humana, a própria garra de vingança deles. Mas o dragão triunfou. Dragões sempre triunfam pois essa é sua natureza, erguer-se acima de tudo.

No lugar do chefe brutal, o jovem dragão foi aclamado como salvador do reino e lhe foi oferecido o trono. Aqueles que outrora adoraram o bebedor de sangue de dragão agora curvavam-se perante o dragão. Ele governou de acordo com os preceitos que discutira longamente com seu irmão, pois estavam sempre ansiosos para entender o escopo e o coração do mundo. Sabia que poderia melhor honrar a memória de seu amado irmão agindo como ele teria feito, como ele teria instigado seu irmão a fazer.

Assim foi que reinou justa e imparcialmente, com ordem e paz, por muitas gerações.


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Atarka cuspiu uma garra, tendo acabado de engolir um grande naco de perna.

"Isto não é uma história!" rosnou ela. "Onde está a caça? Onde está o sangue e o osso estilhaçado?"

Tae Jin pressionou as mãos e inclinou a cabeça para frente para mostrar respeito. "Grande Atarka, por favor permita-me continuar e você ficará satisfeita."

"Ou eu comerei você." Chicoteando sua cauda maciça, ela baixou a cabeça para continuar alimentando-se.

"Nos últimos dias da liderança de Shu Yun," disse ele, então fraquejou. Sua boca moldou palavras mas som algum saiu. Novamente, pressionou os dedos nos olhos como se sua visão estivesse falhando. Após um momento de luta seus lábios abriram-se como que por vontade própria, e ele prosseguiu.


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Assim foi que o jovem dragão que se tornou conhecido como o segundo sol. Reinou justa e imparcialmente, com ordem e paz. O conto da queda do desonroso governo do matador de dragões foi passado de ancião para criança, geração após geração, e celebrado com um festival anual sobre o qual o benevolente rei dragão presidia.

Mas a inveja gera dragões e, assim, dragões multiplicaram-se nas terras além do reino harmonioso. O rei era apenas um dragão, seu reino modesto. Manteve sua fronteira forte e segura para seus súditos por tanto tempo quanto pôde.

Um dia, uma debandada de dragões invadiu os assentamentos pacíficos ao longo do rio que separava o reino harmonioso das terras de planícies e ermos onde Palladia-Mors há muito caçara.

Imediatamente, apressou-se a enfrentar esta ameaça, voando sobre uma linha de aldeias queimadas e refugiados frenéticos fugindo da carnificina. Encontrou sete grandes e barulhentos dragões mastigando ruidosamente através de um curral de feras aterrorizadas em debandada. Os saqueadores meramente lançaram-lhe um olhar circulando acima antes de voltarem ao seu banquete. Tal insolência seria recompensada como merecia!

Explodiu chama em um anel ao redor deles, não para prendê-los — já que poderiam facilmente voar para fora — mas para atrair a atenção deles.

"Por que atribulam meus súditos blameless e comem seus valiosos rebanhos?" exigiu ele.

"Somos os descendentes de Vaevictis Asmadi e podemos saquear onde quisermos!" gritaram eles, chicoteando as caudas e brandindo as garras.

"O que aconteceu com Palladia-Mors?" perguntou ele, honestamente maravilhado de que dragões menores pudessem expulsar sua irmã selvagem.

"Nós a expulsamos para ir caçar em outro lugar. Agora vamos expulsar você e tomar suas terras ricas e carne dócil para nós mesmos."

Como seus progenitores, eram beligerantes e de mente pequena. No entanto mesmo um dragão tão magnífico quanto ele mesmo não poderia derrotá-los sozinho. Mas ele não estava sozinho. Tinha súditos que cantavam seus louvores com poemas que não pediam honra maior que uma chance de provarem-se dignos de sua generosidade régia e nobre perspicácia. Tinha exércitos de guerreiros ansiosos e uma academia apinhada de feiticeiros astutos que ele ensinara, todos buscando desafiar suas habilidades contra o mais poderoso dos inimigos. Possuía as armas dos há muito mortos matadores de dragões.

Arte de: Yongjae Choi
Arte de: Yongjae Choi

Um clarão irritante de pensamento estalou em sua mente com o timbre da voz de Ugin o repreendendo: Se é errado matar dragões quando os humanoides o fazem, então é errado matarmos nossos parentes. Ou Merrevia Sal morreu por nada, Nicol? Nunca foi sobre ela afinal mas apenas sobre a humilhação que você sentiu por não salvá-la?

A morte da irmã deles e a vingança que ele tomara foram diferentes, não que Ugin tivesse a agudeza ou discernimento para reconhecer esta verdade. E de qualquer modo, Ugin estava errado. Vaevictis era um valentão, e seus descendentes eram valentões que rasgariam o reino harmonioso pelo esporte disso. Até Ugin teria que reconhecer serem saqueadores inúteis. Além disso, Ugin não estava aqui. Era hora de colocar suas armas poderosas em uso.

Com sinos plangentes e clamores de trombetas o exército reuniu-se, tracionando balistas e seus virotes carregados de veneno. Feiticeiros envoltos em robes dourados e negros marcharam em colunas disciplinadas, cantando enquanto caminhavam. À margem do rio encontraram os sete jovens dragões, e os exércitos orgulhosos verteram veneno e feitiçaria sobre o inimigo em uma saraivada implacável.

Foi uma debandada. Um massacre.

Quão inebriante foi ver os virotes carregados de veneno voarem certeiros, perfurando ventres escamosos suavizados pela feitiçaria astuta! Entranhas derramaram-se no chão, queimando aqueles pegos por baixo. Os gritos vitoriosos dos vencedores misturavam-se com os gemidos agonizados dos dragões moribundos.

Quão satisfatório foi observar os falastrões barulhentos tombarem na terra em asas paralisadas, respirando por último conforme seus corações e pulmões falhavam e seus olhos se turvavam. O triunfo foi doce, e mais doce ainda porque ele ousara atacar dragões, as mais perigosas e poderosas de todas as criaturas.

Mas um dos dragões sobreviveu, voando a uma velocidade que o jovem rei dragão não conseguiu igualar já que ainda não estava totalmente crescido.

"Nós o perseguimos?" seus generais perguntaram ardentemente.

"Sim!" Lembrou-se com clareza ríspida de como Vaevictis e seus irmãos outrora o atormentaram e perseguiram por nenhuma outra razão exceto porque os divertia ser desprezíveis. Finalmente ele poderia vingar o insulto.

Encorajado, o grande exército pôs-se em movimento, marchando, cavalgando, rolando além da fronteira robustamente guardada. Perseguiram o rastro do dragão através das grandes planícies onde Palladia-Mors outrora caçara, tomando suprimentos das cidades e aldeias por onde passavam. A terra tornou-se mais seca, e logo alcançaram o que parecia da distância como um muro mas que era uma barreira severa de colinas acidentadas, ravinas retorcidas e pináculos espetaculares. Além, para o norte, erguia-se a grande cordilheira onde Vaevictis e seus irmãos se abrigavam.

Alguns entre as tropas resmungavam, pois os suprimentos ficavam escassos e a água mais escassa ainda. Após o jovem rei comer os dissidentes — covardes invariavelmente têm gosto azedo — o restante marchou destemidamente para o norte sobre a pradaria plana com as terras ruins às costas.

O sol estava nascendo quando ele avistou quatro dragões voando em direção a eles. Vistos da distância não pareciam particularmente formidáveis, mas conforme se aproximavam, seu tamanho massivo e comportamento feroz tornaram-se evidentes. Os três irmãos, Lividus, Ravus e Rubra, bradavam insultos conforme se aproximavam, chamando-o de "franzino" e "último nascido." Que os seus insultos nem sequer fossem espertos apenas tornava tudo pior.

O maior era o próprio Vaevictis, voando à frente por causa de sua força superior. Em suas garras dianteiras ele segurava o corpo inerte do dragão que fugira da batalha perdida.

Com um rugido que sacudiu o chão, Vaevictis voou diretamente sobre o exército e soltou o dragão. O corpo despencou para a terra enquanto soldados empurravam e gritavam, tentando sair do caminho. O cadáver atingiu com força, esmagando instantaneamente toda uma companhia de fundeiros. Sangue encharcou o solo poeirento, e fogos irromperam onde as faíscas finais do hálito do dragão atearam na grama seca. Os feridos gritavam, agarrando-se a ossos quebrados através da pele, enquanto curandeiros tentavam puxar camaradas debaixo do peso morto do dragão.

Com uma risada, Vaevictis bradou: "Corra, pequeno Nicol. Corra, e eu te pouparei."

Mais cedo em sua vida, a raiva poderia ter levado a melhor sobre o jovem rei dragão conforme ele se retorcia e fervilhava sobre tal zombaria. Aliviou sua raiva decapitando vários dos generais. Mas as deficiências de seus subordinados não eram a coisa importante agora. Os dias de deixar Vaevictis intimidá-lo haviam terminado. Chicoteou o exército em pânico em novas fileiras, promovendo oficiais que não haviam perdido a cabeça.

O desafio temerário de Vaevictis ofereceu-lhe uma vantagem inesperada. Vaevictis poderia ser grande e mau, mas não era tão esperto quanto pensava que era.

O jovem rei dragão ordenou que as balistas se posicionassem, usando a longa extensão do pescoço quebrado do dragão morto e a cauda retorcida como uma fortificação. Conforme Vaevictis circulou de volta para juntar-se aos seus irmãos que se aproximavam, a artilharia começou a lançar seus virotes com ponta de veneno. Eram habilidosos; tinham que ser, já que aqueles que não passavam na inspeção eram rebaixados à escravidão.

Assim seus virotes atingiram certeiro, vez após vez. Rubra recebeu um virote no olho. Embora o tiro não o tivesse matado de imediato, o veneno entorpecedor infiltrou-se em seu cérebro. Ele debateu-se para longe em direção ao muro da barreira, talvez esperando refugiar-se em um dos pináculos, mas perdeu a consciência e caiu na terra logo além do trem de bagagem. A retaguarda correu com espadas e lanças para causar estrago em seu corpo letárgico, gritando e dançando de alegria. O jovem rei dragão estava ocupado demais esquivando-se do hálito de fogo de seus primos para repreender seus soldados quando eles triunfantemente se banharam no sangue quente do behemoth morto.

Arte de: Scott Murphy
Arte de: Scott Murphy

O restante do exército não estava se saindo tão bem. O próprio Vaevictis recebeu cinco impactos diretos, mas o ferro não conseguia perfurar seu couro espesso. Rugiu fogo através das linhas de artilharia, enviando balistas em chamas. Lividus e Ravus mergulharam para arrebatar soldados e lançá-los pelo ar para a morte. Montarias entraram em pânico, derrubando seus cavaleiros conforme fugiam. Os vagões no trem de bagagem começaram a queimar junto com os condutores infelizes e cavalariços. A fumaça subia em espirais, lançando manchas acinzentadas pelo chão.

"Você se arrependerá de me desafiar!" rugiu Vaevictis enquanto circulava com um irmão em cada flanco. "Nós o prenderemos ao chão e arrancaremos sua carne de seus ossos enquanto você ainda estiver vivo."

Com muito do exército morto ou em frangalhos, a ameaça não era vazia. A força bruta não o serviria agora; apenas sua inteligência superior poderia salvar o dia.

O jovem rei há muito ganhara controle de seus feiticeiros através do seu toque mental flexível. Ao seu comando, teceram um grande feitiço de ocultação, cobrindo o campo de batalha em uma névoa fuliginosa. Sob sua cobertura, ele esgueirou-se com os remanescentes do exército em direção às colinas acidentadas e ravinas retorcidas. Duas balistas sobreviveram, tracionadas por soldados a quem o desespero deu força. A retaguarda, ainda úmida de sangue, juntou-se; sobreviveram porque, o seu capitão gritou para cima para ele, o sangue sagrado do dragão protegera sua frágil carne humanoide do fogo do dragão.

Um ponto a considerar, uma vez que pudesse recuperar o fôlego. Impeliu seu exército exausto e cambaleante como um leviatã ferido para dentro de uma ravina profunda cercada por penhascos de cada lado.

"Grande Rei, não é isto uma armadilha mortal?" opinou um de seus generais.

"Apenas se você não sobreviver à batalha vindoura." A pergunta o aborreceu, mas não havia tempo para disciplinar o general. Às vezes é preciso atrasar a punição de um ofensor para mover-se rápido para salvar a si mesmo.

Além de uma curva fechada no desfiladeiro ele permitiu que parassem. Talvez um terço do seu exército permanecera com ele, junto com sete virotes para as duas balistas. Embora os virotes tivessem perfurado as escamas dos dragões menores, estes dragões anciões eram mais resistentes. Mas o olho era vulnerável. E ele tinha seus feiticeiros também, dos quais um esquadrão restara.

Em momentos estranhos, quando visitava a montanha de nascimento ou quando voava sobre a água, pensava em Ugin. Em seus corações, sentia-se obrigado a acreditar que um vento invisível despertado pela feitiçaria arrancara Ugin, porque se não tivesse sido feitiçaria, então Ugin era nada mais que um covarde que abandonara seu irmão justo quando Nicol mais precisara dele. Não suportava acreditar que Ugin fosse tão fraco e desonroso. Por gerações labutara em concerto com sua academia de feiticeiros para recuperar ou idealizar uma magia que pudesse replicar o desaparecimento de Ugin. Ninguém conseguira ainda, mas os feiticeiros eram capazes de desintegrar grandes rochas.

Tinham uma chance, se cada um gerisse sua tarefa no momento certo.

Um bramido ecoou pelas paredes do desfiladeiro. Os baques pesados de um corpo maciço se aproximando sacudiram o chão.

"Esperem," comandou as tropas inquietas e assustadas. "Esperem."

Lividus surgiu à vista, bloqueando o desfiladeiro.

As balistas dispararam com um baque, enviando virotes diretamente contra o enorme dragão. O primeiro ricocheteou inofensivamente em seu ombro enquanto o segundo prendeu-se entre as escamas em sua perna dianteira e pendurou-se ali até que ele o sacudiu. E riu, olhando para cima.

Uma sombra escureceu o desfiladeiro conforme Ravus desceu do céu.

"Agora!" gritou o jovem rei.

Trabalhando em concerto, os feiticeiros lançaram o feitiço de desintegração contra o dragão acima. Atingiu-o como uma onda invisível vertendo através dele. Ravus estilhaçou-se como rocha aquecida até explodir. Escamas choveram em discos mortais sobre suas tropas. Metade dos feiticeiros morreu instantaneamente, perfurados por fragmentos afiados de osso ou esmagados por lajes de carne chovendo.

Arte de: Even Amundsen
Arte de: Even Amundsen

"Ravus!" Com um grito de luto enfurecido, Lividus incendiou as balistas justamente quando um segundo conjunto de virotes voou. A força de sua rajada enviou os virotes raspando contra as paredes do desfiladeiro, deixando o jovem rei vulnerável com as balistas carbonizadas, os últimos feiticeiros e a retaguarda encharcada de sangue como seus únicos companheiros.

"Isto não é o que você aprendeu com Arcades" , Ugin clamara no último momento de sua existência quando ficara furioso com a tentativa de Nicol de manipular seus pensamentos. O toque não funcionava em dragões. Assim Nicol acreditara na época. Mas talvez apenas não tivesse funcionado em Ugin.

Encarando Lividus, soube que lhe restava um virote para disparar, uma chance temerária e perigosa a tomar.

"Agora você morrerá, seu verme rastejante," sibilou Lividus.

"Primo!" Captou o olhar reluzente de Lividus com o seu próprio. Enterrou uma garra de sombra de dúvida nos corações do outro dragão, buscando escavar suas queixas. "Não admira que Vaevictis o tenha enviado à frente. Ele conhecia o risco, e expôs você e Ravus em vez de si mesmo. Não é o que ele sempre faz?"

A hesitação do grande dragão, um estremecimento de ressentimento reprimido, instigou-o adiante.

"Ele só voa à frente quando sabe que não será tocado. Não se cansa do governo dele? De seus modos autoritários e dominadores? É culpa dele Ravus e Rubra estarem mortos. Não conspiraram os três uma vez para suplantá-lo, mas ele os venceu até a submissão? Agora o que você fará quando ele tiver apenas você para intimidar? Ele sempre teve medo de você, já que você é o único tão grande quanto ele. É por isso que ele o mantém por baixo. Posso ajudar, mas temos que trabalhar juntos."

Pressionou a lança de ponta venenosa de sua mente afiada profundamente no rancor fervilhante de Lividus. Era tão fácil, afinal, exatamente tão fácil quanto sempre fora com os humanoides. Seu primo era forte de corpo mas fraco de mente.

"Lá vem ele! Se você o atacar, chicotearei meus feiticeiros atrás dele. Estaremos livres dele para sempre."

Lá vinha Vaevictis. Lividus ergueu-se para encontrá-lo com um rugido. Claro, Vaevictis não suspeitava de um ataque, então o primeiro golpe o pegou desprevenido, tirando sangue de seu ombro direito. Sua raiva explodiu conforme ele revidou, um golpe que teria enviado o jovem rei tombando cauda sobre chifres. Mas Lividus era tão grande quanto Vaevictis. Embora o golpe o tenha feito cambalear, ele se recuperou rapidamente e, com uma rajada de fogo e o martelar de sua cauda, golpeou de volta.

"Agora," disse o jovem rei aos seus feiticeiros sobreviventes.

Novamente, lançaram o feitiço desintegrador contra os grandes dragões, mas ou porque teve que se espalhar entre dois corpos gigantes ou porque seis era pouco demais trabalhando em concerto, a magia nada fez senão cambalear os dragões momentaneamente.

No entanto cada um uivou de dor e raiva, pensando que o outro atingira primeiro.

"Traidor! Punhal pelas costas!" gritou Vaevictis, lançando-se contra Lividus exatamente como, há muito tempo na cidade de Arcades, um jovem de modos brandos fora incitado a atacar e matar seu próprio irmão.

A batalha deles renovou-se com uma ferocidade cujo impacto e clamor trovejara através das colinas acidentadas e ecoara desfiladeiro abaixo.

A vingança foi doce. Mas o vencedor ainda seria maior que ele.

O jovem rei recuou. A retaguarda encharcada de sangue, claro, teve que ser toda morta para que não passassem adiante o conhecimento de como o sangue de um dragão ancião protegia a frágil carne humanoide. Os feiticeiros permitiu viver por tempo suficiente para criarem uma névoa enfumaçada de ocultação que o carregaria por algum caminho nas planícies, mas os matou depois para que não houvesse ninguém para falar de como havia dragões maiores e mais fortes no mundo a quem seus súditos poderiam escolher adorar em vez dele.

Conforme voava apressado para longe, contemplava o que aprendera. Ganância e inveja são aguilhões que nunca cessam de arranhar mesmo o mais embotado dos corações. Dragões sucumbirão tão facilmente quanto outros, se você conseguir apenas encontrar o cerne para incendiá-los.

Vaevictis viria atrás dele, tinha certeza disso. Então tinha que encontrar uma maneira de manter seu primo ocupado.

Em vez de retornar ao seu reino harmonioso, viajou para cima nas montanhas escarpadas, buscando os descendentes de Lividus, Ravus e Rudra. Que notícias terríveis tinha para trazer a eles! Vaevictis voltara-se contra seus próprios irmãos. Que desgraça. Muito provavelmente o grande dragão pretendia erradicar os descendentes de seus irmãos também para que nenhum traço de perfídia pudesse possivelmente sobreviver.

A facilidade com que os crédulos podiam ser voltados para o seu propósito era surpreendentemente prazerosa. Retornar ao seu reino parecia pouco aventuroso e insípido. Em vez disso viajou para um novo reduto de dragões, um novo território para inflamar. Buscou Palladia-Mors. Ela lembrou-se dele com uma bofetada desdenhosa em sua cabeça, mas ouviu avidamente seu conto de quão vulnerável Vaevictis agora estava.

Ah. A vingança era de fato doce.

Nos anos vindouros, as histórias seriam contadas em fogueiras de lareira ou por refugiados amontoados ao redor de fogueiras de acampamento buscando segurança, não que fossem jamais estar seguros.

Dragões de um clã saqueavam os redutos de montanha de um clã primo. Entre os picos cobertos de neve os dragões lutavam em batalhas estrondosas, garra contra garra, fogo contra fogo. Carne carbonizada chovia dos céus. Ossos estilhaçavam-se na base de desfiladeiros. Aqueles cuja fome nunca poderia ser saciada abriam caminho através dos moribundos, banqueteando-se na carne sangrenta de sua própria espécie.

Ganância e inveja crescem quanto mais são alimentadas. Bocarra se abrem para engolir porções maiores, e garras estendem-se para presas ainda mais distantes.

Dragões voltaram seu olhar sobre os campos e rebanhos dos assentamentos humanoides. Alguns desejavam meramente devorar os humanoides como haviam caçado e devorado rebanhos selvagens. Outros desejavam geri-los como gado, prontos para o abate quando sua fome ficasse aguda. Alguns poucos desejavam ensinar e guiar os humanoides, mas seus esforços foram frequentemente recebidos com ingratidão e mal-entendido. Até o esperto Chromium Rhuell passou a esconder-se enquanto fingia ser algo que não era, para não ser desprezado pelos humanos que afirmava amá-lo ou comido pelos dragões que desprezavam sua filantropia melosa.

Nenhuma gaiola pode confinar a ganância. Nenhuma corrente pode prender a inveja. Conforme crescem, são fustigadas pelo desejo e pela raiva e, assim, os dragões não se saciavam. Sua fome não abrandava.

Arte de: Adam Paquette
Arte de: Adam Paquette

Dragões cruzaram os mares poderosos para encontrar novas terras onde alimentar sua fome por carne e por poder. Quando até aquelas margens distantes tornaram-se lotadas demais, então dragões lutaram entre si com dente e garra, com fogo e gelo. Sob estandartes de dragão, levantaram bandos de guerra orgulhosos de entre os humanoides que os adoravam ou temiam. Feiticeiros que buscavam um poder dracônico através do domínio de seus dons mágicos vinham rastejando oferecer seus serviços, pois em todo o largo mundo criatura alguma é tão poderosa quanto um dragão, não no início dos dias e nunca através de toda a extensão interminável da eternidade.

Até o sábio Arcades Sabboth, que insultara e esbravejara sobre o tópico de ordem e paz e a maneira apropriada de governar, lançou seu poder na grande guerra conforme ouvia os sussurros de sabedoria que roçavam por sua mente.

Os outros não respeitarão sua autonomia ou sua sabedoria. Eles virão atrás de você se você não for atrás deles primeiro.

Até Arcades marchou seus seguidores contra fortalezas governadas por seus parentes distantes. Quando os derrotara, lançava seus ossos sem medula no mar onde as águas os transformavam em areias pálidas que lavavam margens por todo o mundo.

Assim as guerras enfureciam-se, enquanto apenas um dragão mantinha a fé com aqueles que governava. Não esquecera a promessa que fizera ao seu gêmeo: que não deveria haver uma lei para eles e uma lei diferente para nós. Deveria haver apenas uma lei.

Haveria apenas uma lei.


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Tae Jin interrompeu-se e, de boca entreaberta, encarou o chão como se tivesse esquecido o que estivera dizendo ou até mesmo quem era.

Atarka ergueu a cabeça. Ligamentos pendiam de sua boca. Ela engolira o fígado e os corações inteiros e arrancara músculo e gordura do osso. Um limo viscoso cobria suas pernas dianteiras onde ela mergulhara nas entranhas do dragão de Ojutai após rasgar seu ventre. Abriu a boca ampla e ainda mais ampla, exibindo a topografia temível de seus dentes, então cerrou a mandíbula com um estrondo de riso.

"Há apenas uma lei: comer. Este foi um bom banquete. Podem ficar com o forasteiro."

A dragão soberana saltou em direção ao céu em um bater de asas que enviou todos aos joelhos. Logo desapareceu de vista, voando para nordeste em direção a Qal Sisma.

"Minha cabeça." Como se seus ossos tivessem virado líquido, Tae Jin colapsou direto para baixo, de pé um momento e sentado no seguinte, curvado com a cabeça apoiada nas mãos.

Naiva correu até ele, mas a Avó chegou primeiro e a dispensou com a mão. Agachou-se ao lado dele e inclinou sua cabeça para trás para que pudesse olhar em seus olhos. O que viu lá a fez franzir o cenho.

"Você está consciente, Tae Jin?"

"Sim — apenas atingido por uma dor de cabeça que faz meus olhos lacrimejarem."

"Que conto foi esse que você contou, tão parecido com a história de Ugin e no entanto nada parecido com a história dele de jeito nenhum?"

"Não sei. Eu pretendia contar o conto dos últimos dias da liderança de Shu Yun. Da última reunião dos khans e como caíram perante os dragões."

"Lembro-me daquele dia e de seu rescaldo muito bem."

"Pensei que tal conto de vitória entreteria o dragão soberano."

"De onde veio este outro conto, então?"

Novamente, ele esfregou os olhos, então levantou-se cautelosamente como se incerto de que suas pernas o sustentariam. "Esta outra história — veio à minha mente em um sussurro. Talvez seja uma história que minha mãe me contou quando eu era muito jovem e que eu esquecera até agora."

A Avó levantou-se. "Esta é uma reviravolta de eventos agourenta. Uma vez antes, uma voz sussurrante buscou alterar os eventos em Tarkir. Para minha vergonha, ouvi. A morte de Ugin é em parte a ser culpada em mim. Talvez as visões que seu mestre e o povo-do-vento receberam não tenham vindo de Ugin. Mas se vieram, é mais importante do que nunca que alcancemos o túmulo de Ugin rapidamente. Primeiro, devemos honrar Darka pela sua proeza de caça em vida e sua aceitação inabalável da morte."

Rastreador Ainok | Arte de: Evan Shipard
Rastreador Ainok | Arte de: Evan Shipard

Puxaram os restos destroçados do ainok de entre as ruínas sangrentas deixadas pela alimentação de Atarka. Sua faca e amuletos embrulharam para devolver aos seus parentes ainok. Os itens de sua mochila dividiram entre si. Tais objetos eram valiosos demais para serem abandonados. Depois, à maneira ainok, deitaram seu corpo no chão e o cercaram com pedras. Cada um proferiu uma prece breve e uma única lembrança, nada elaborado. Cada espírito passava para o reino dos ancestrais e, com outra caçada sempre iminente, a maior honra que podiam mostrar ao falecido era continuar, ano após ano, geração após geração.

"Seu espírito caminha à nossa frente para dentro do agora não escrito," disse a Avó conforme colocou uma grande rocha sobre o peito dele como um lembrete do peso das obrigações que ligavam cada membro da tribo aos outros. O sol, também, era parte da rede de parentesco, e o sol assistiria conforme os pássaros e feras e insetos devorassem seus restos.

Afastou-se. "Estão todos prontos?"

Naiva olhou ao redor. Claro que estavam prontos, lanças e facas em punho, mochilas penduradas nas costas. A tribo estava sempre pronta.

"Precisamos alcançar o túmulo de Ugin antes que a tempestade atinja."

A Avó liderou-os para longe dos rochedos e dos restos roídos e ossos estilhaçados dos dois dragões mortos. Abutres circulavam no alto, aguardando sua chance de alimentar-se nos destroços. À frente, Fec esperava para juntar-se a eles.

Naiva escaneou o céu. Os restos de nuvens escuras haviam sido soprados para o sudeste como um rebanho em fuga. O sol nascente vertia sua luz dourada através da tundra. Longe, na borda das colinas, uma estranha espiral de pedra empenada erguia-se do solo, o detalhe tão nítido e delineado que por um instante, ela acreditou na ilusão de que poderia esticar a mão e tocá-la.

"Você acha que outra tempestade de dragões está vindo?" ela perguntou à Avó.

"Acho que ela já está aqui."

Crônica de Bolas: Um Estranho Familiar

Onde a tundra plana dava lugar à cordilheira ocidental de Qal Sisma, colinas erguiam-se como os dentes denteados de um dragão monstruosamente grande brotando do solo duro. Em meio às colinas erguia-se um pináculo de pedra retorcido em uma bobina maciça. Ao seu lado, uma estranha luz azul-esverdeada derivava como névoa de uma fenda que dividia a terra.

Aqui, no portal para o túmulo de Ugin, a Avó parou o grupo com uma mão erguida em vez de fala. A fissura mergulhava fundo para criar um vasto desfiladeiro cortado através de gelo e rocha. O que jazia na base do desfiladeiro estava escondido por um enorme casulo de rochas espinhosas polvilhadas com neve e decoradas com linhas estalantes de gelo que traçavam runas insondáveis tecidas em sua superfície.

Cadinho do Dragão Espírito | Arte de: Jung Park
Cadinho do Dragão Espírito | Arte de: Jung Park

De onde estavam em um mirante, não havia caminho para baixo no desfiladeiro, embora uma trilha empoeirada seguisse fora de vista ao redor do terreno rochoso que bordeava o abismo. Naiva lembrava da jornada ao túmulo de Ugin seis anos atrás, a caminhada através da tundra, prendendo pássaros e caçando um bando de saiga, e como haviam alcançado a fenda. Após ficarem de boca aberta em temor diante da estranha formação, haviam caminhado pela trilha estreita ao longo da borda do desfiladeiro até uma caverna rasa. Ali, haviam acampado por dez noites.

A Avó chamou com o grasnar de um lagópode, então escutou.

Enquanto esperavam por uma resposta, Naiva deslocava-se nervosamente. O brilho a perturbava quase tanto quanto a visão do casulo de rocha crescido ao longo das profundezas do abismo. Estariam os crescimentos maiores do que haviam sido há seis anos? Haveria mais das runas misteriosas?

"O que são aqueles?" Tae Jin sussurrou.

"A Avó os chama de edros. Protegem os ossos do Dragão Espírito."

"Ah. Pelo que estamos esperando?"

"Há uma caverna adiante. Um grupo de caça às vezes acampa aqui."

"Por quê?"

"A caça é particularmente boa aqui porque dragões evitam esta área. E temos que guardar contra incursões das tribos Ojutai e Kolaghan. Eles caçariam aqui também, se pudessem, roubando a caça do nosso território."

"Quis dizer, por que estamos esperando em vez de prosseguir?"

"Para deixá-los saber que estamos vindo. Não queremos surpreendê-los."

Tae Jin encarava o abismo e a superfície cintilante dos edros. Eram opacos; impossível de ver se ossos jaziam sob eles, como a Avó afirmava. Uma curva na parede do desfiladeiro escondia o restante do casulo.

"Não tinha ideia de que o Dragão Espírito fosse tão imenso," Tae Jin sussurrou. "Pensei que fosse do mesmo tamanho dos dragões soberanos."

"Não, ele era o maior dos dragões, como é claro que deve ser, já que é o progenitor de toda Tarkir," interrompeu Baishya. Estava do outro lado de Tae Jin, sombreando os olhos com uma mão enquanto estudava os edros com um sorrisinho misterioso.

Um pensamento trespassou a cabeça de Naiva: quão irritante que Baishya devesse exibir seu conhecimento quando fora Naiva quem mostrara interesse no jovem guerreiro de fogofantasma primeiro. Sua gêmea já comandava mais da atenção da Avó. Não podia ela deixar Naiva com nada?

Um som agudo quebrou o caminho de seus pensamentos: a Avó assobiando um chamado mais alto.

Apenas o vento respondeu.

"Mevra é a líder do grupo que veio aqui na última estação. Mesmo que estejam caçando, geralmente deixam algumas pessoas no acampamento para tratar couros e tal trabalho." A Avó gesticulou para Fec. "Vá trilha acima até a caverna. Mattak, você, Oiyan, Rakhan e Sorya fiquem aqui para guardar Tae Jin."

"A senhora acha que isto foi uma armadilha Ojutai desde o início?" Mattak perguntou, olhando furioso para Tae Jin.

O olhar severo da Avó assentou sobre o jovem. "Pode ser. Quero que vocês guardem Tae Jin de ataques de qualquer um de seus irmãos Ojutai que possa ter sido encarregado de segui-lo e matá-lo. Abriguem-se nas rochas. Garotas, comigo."

Fec rapidamente desapareceu de vista ao redor da curva da trilha enquanto os outros escondiam-se entre um amontoado de rochas, os destroços lançados para fora do desfiladeiro quando o Dragão Espírito se chocara contra o solo.

"O que houve?" Naiva perguntou. "Aonde a senhora acha que eles foram?"

A Avó tocou os lábios para comandar silêncio. Conduziu as garotas de volta pelo caminho que vieram através do campo de destroços, cortado aqui e ali com aglomerados de árvores sobreviventes. Após cerca de duzentos passos ela lhes mostrou um entalhe cortado no tronco de um velho zimbro. Deslizando lateralmente entre as árvores, passaram através da folhagem e emergiram no leito de um riacho seco. Seguiram sua descida por um curto trecho, escorregando e deslizando em pedras lisas. A Avó parou ao lado de uma grande rocha metade escondida pelos galhos espessos de uma planta medicinal chamada baga chorosa. Uma marca fora esculpida na rocha: a "garra de Temur," agora proibida por Atarka. Ela afastou os galhos pendentes para revelar a entrada estreita de um túnel.

Ela tocou primeiro o nariz de Naiva e depois o de Baishya, o velho gesto que usara para atrair a atenção delas quando eram crianças pequenas. "Este conhecimento pertence às sussurradoras, e aos anciãos. Nunca contem a mais ninguém. Vocês me entendem?"

"Sim," disse Baishya.

Naiva franziu o cenho, tanto perturbada quanto excitada pelas palavras solenes. "Eu entendo."

Caminharam em fila indiana, a Avó liderando, com Naiva na retaguarda. Após algum tempo, a passagem tomou uma curva fechada e emergiram em um vale circular de cerca de cem passos de largura. O ar dentro do vale era quente, quase ameno. Plantas comestíveis cresciam ao redor de uma nascente. O céu no alto era tornado pequeno pelas rochas envolventes, mas o cheiro intenso de coisas crescendo dava uma riqueza ao minúsculo santuário.

Baishya ajoelhou-se junto à nascente. "É lindo. Olhem, aqui tem baga-de-engasgar e quebra-pedra, e musgo do crepúsculo. Como está tão parecido com o verão?"

"Este é um lugar sagrado, onde xamãs vêm meditar. Agora é mais que isso, um santuário escondido dos dragões."

"Como pode estar escondido dos dragões?" Naiva perguntou, apontando para o céu.

"Uma magia tecida na rocha o esconde de cima. Mas a magia só pode abranger uma curta distância e deve ser renovada a cada ano."

"Por que a senhora nos trouxe aqui, Avó?" Baishya perguntou. "Poderíamos ter ficado com os outros enquanto Fec batedora."

A Avó girou em um círculo lento, estudando o pequeno vale como para ter certeza de que tudo estava como ela deixara. "Se as coisas correrem mal, se meus piores medos se realizarem, vocês podem precisar se abrigar aqui."

"Que medos?" Naiva perguntou.

"Peguem uma pedra."

Quatro montes arrumados de ágata polida marcavam as quatro direções. As pedras irradiavam um calor que aquecia o ar. Quando Naiva pegou uma, descobriu que o brilho que tomara por polimento era um fulgor de calor. Baishya arquejou, olhos arregalados de deleite e assombro, e ela também pegou uma pedra, pressionou-a contra uma bochecha, então sorriu conforme a aninhou nas palmas das mãos.

A Avó tocou dois dedos nos lábios pedindo silêncio antes de gesticular em direção a uma abertura de túnel no lado distante do vale. Seguiram-na silenciosamente, seus passos leves raspando no chão rochoso conforme se moviam como para dentro dos ossos da terra. A rocha envolvia-as, protegia-as; o fulgor das pedras iluminava seu caminho. Nas paredes do túnel estavam pintados os contornos de bisões e saigas, de ursos e lobos, de veados e alces chifrudos. Grupos de caça cercavam dragões jovens, prendendo-os com redes conforme viravam suas lanças contra ventres e olhos vulneráveis. Em meio às pinturas graciosas estavam esculpidas a garra de Temur bem como outros sigilos — espirais e chamas, teias de aranha e picos montanhosos gélidos fendidos por fendas — que Naiva nunca vira antes. Sob outras circunstâncias alguém como ela nunca veria este lugar secreto. Mas ela era gêmea de uma xamã, e a Avó nunca fazia nada sem motivo.

Com o tempo, o túnel expandiu-se em uma caverna longa, suas paredes tão altas que a luz das pedras não conseguia penetrar a escuridão superior. Formas saudaram-nas como parentes silenciosamente aguardando seu retorno. Conforme se aproximaram, as sombras arredondadas resolveram-se em grandes adornos de cabeça repousando em pilares de pedra. Os capuzes de couro superdimensionados estavam guarnecidos com osso esculpido, galhadas, presas e amuletos martelados em bronze.

Baishya parou tão abruptamente que Naiva esbarrou nela. "O que são estes, Avó?"

"São os trajes de uma sussurradora, como você está destinada a ser. Nós os escondemos aqui para salvá-los de Atarka. O dia em que você não puder mais se esconder de Atarka é o dia em que você se juntará aos escondidos, minha criança. Teremos que esconder você dela."

"Em um túmulo de rocha, como nossa mãe?" Naiva exigiu.

"Hsst, não tão alto, minha brava caçadora. Você teria aprendido isto com o tempo, mas agora não há tempo. Ouça cuidadosamente, Naiva, pois você tem uma parte nisto também. Você tem a habilidade para ser uma grande caçadora, para sustentar nosso povo. Mas você tem em si a chance de fazer algo ainda mais importante que isso."

"O que pode ser mais importante que alimentar o clã e manter Atarka alimentada para que ela não nos mate?" Naiva perguntou.

"O que é mais importante? Manter vivo o conhecimento de nossos verdadeiros eus." A Avó passou por elas. Prateleiras haviam sido esculpidas diretamente na pedra. Aqui, dispostos em linhas arrumadas, repousava uma coleção de chifres, presas e galhadas. A luz das pedras revelava entalhes em sua superfície, suas linhas finas e elaboradas claramente o trabalho de mestres entalhadores. A luz também revelava o modo como a expressão da Avó suavizou-se em uma rara exibição de satisfação. Poucas coisas na vida severa que viviam podiam suavizar sua cautela, mas quando ela pegou uma das galhadas e inclinou-a dentro da aura de luz para considerar o entalhe, ela realmente sorriu.

"Estes entalhes contam a história do passado. Enquanto nossos ancestrais viverem através de nossa memória deles, então há esperança de que possamos um dia reclamar quem somos em vez de servirmos apenas à fome de Atarka e seus filhos."

"Existem histórias de batalhas e matança de dragões?"

"Sim, e muito mais que isso. Já passou da hora de vocês garotas se tornarem guardiãs deste conhecimento, para que possam passá-lo adiante após eu me ir."

Naiva pegou a galhada da Avó e examinou o entalhe inciso no osso. Nenhuma matança de dragões, mas dragões matando humanos. De repente ela percebeu ser a história de como os khans caíram, um conto que a Avó frequentemente contava à beira da lareira à noite tanto como aviso quanto como lembrete.

Baishya nem sequer viera olhar a gravura. Derivara de volta para os adornos de cabeça, estendendo a mão em direção ao mais próximo antes de trepidantemente retirar a mão. Após tomar um fôlego instável por resolução, estendeu-se novamente e desta vez cautelosamente roçou os dedos ao longo dos símbolos de poder. Seu rosto assentou-se em um olhar de temor.

"Eu ouço vocês," sussurrou ela.

Claro, os objetos estavam sussurrando segredos para ela. Esta tradição pertencia àqueles agraciados com os dons da xamã; não pertencia a caçadores como Naiva. Ela só estava aqui por causa de Baishya.

Era tão injusto.

A Avó pegou a galhada e a colocou de volta entre as outras. "Fec terá alcançado o acampamento a esta altura. Venham comigo. Não façam ruído. Não tragam luz."

Colocaram as pedras no chão e seguiram-na para dentro de um túnel largo, a única outra saída. O teto inclinava-se para baixo até que tivessem que engatinhar. A voz estrondosa de Fec sussurrava ao redor delas, embora suas palavras fossem inaudíveis. Após uma pausa, como se estivesse ouvindo, ele falou novamente em aparente resposta. Por que a Avó estava espionando em vez de saudar seus parentes da maneira normal?

Nutrição Sem Forma | Arte de: Cliff Childs
Nutrição Sem Forma | Arte de: Cliff Childs

A passagem terminava em uma longa fenda horizontal, estreita demais para se espremer, que dava para a caverna larga e rasa. A lareira de pedra estava coberta por uma cinza branca e fina. As mochilas e armas de caçadores do clã jaziam espalhadas no chão atrás de um muro de pedra alto o suficiente para manter feras errantes fora, mas os caçadores haviam sumido. Fec estava à entrada com a luz atrás dele. Olhava para alguém ao fundo da caverna, cujo rosto e forma estavam obscurecidos por sombras.

A Avó sibilou suavemente entre os dentes.

Uma voz de tom baixo falou das sombras em um tom tanto doce quanto melancólico. "Uma doença consumiu suas vidas e lhes trouxe a morte. Sou tudo o que restou."

"Quem é você, parenta? Saia para que eu possa ver seu rosto."

"Não ouso saudá-lo, Irmão, por medo de espalhar a doença que levou os outros."

"Você está doente?"

"Não estou. Mas talvez a doença se esconda em mim. A morte pode se esconder em muitos disfarces e golpear quando menos se espera, não pode?"

Fec escondeu uma mão atrás das costas e deu o sinal para "cautela" — o que significava que ele sabia da fenda escondida e presumia que a Avó já estivesse lá, observando. "Há quanto tempo eles morreram?"

"Perdi a conta dos dias. Sonhos perturbam minhas noites. Você sabe de algum sonho?"

"Eu não sonho." Ele manteve as mãos abertas para mostrar-se desarmado. "Como disse antes, sou chamado de Fec, da linhagem de Abek, agora filho adotivo de Yasova Primeira Mãe. Novamente pergunto, posso conhecer você e sua família, Irmãzinha?"

O silêncio preencheu o ar como calor irradiando de um fogo. A forma deu um passo para fora da escuridão do fundo da caverna, resolvendo-se em uma mulher extremamente grávida segurando um machado. Um chapéu de pele estava puxado sobre seu cabelo. Era difícil distinguir suas feições devido ao modo como as sombras salpicavam seu rosto.

"Yasova Primeira Mãe," disse ela naquele tom doce como mel. "Este nome eu conheço, mas não conheço você, Fec, da linhagem de Abek. Traga-me Yasova, e falarei com ela e lhe contarei o que aconteceu aqui. Ela saberá sobre os sonhos."

"Há algo que você precise, Irmãzinha? Algo que precise até que eu retorne?"

"Tenho o que preciso." Ela repousou uma mão sobre a protuberância de seu ventre, como em lembrança de que cada criança nascida era uma criança colocada na trilha do clã, um elo entre o passado e o não escrito que ainda não veio a ser.

"Este é o seu primeiro?"

"Meu primeiro?"

"Seu primeiro filho. Você parece perto do seu tempo, e não há parteira ou curandeiro aqui."

"Sim, sim, tudo está bem. O tempo está próximo. Onde está Yasova?"

Ele bateu no peito com a mão aberta como em reconhecimento de suas palavras, mas era na verdade um sinal para a Avó de que se encontrariam de volta com os outros. "Verei o que posso fazer, Irmãzinha. Embora possa levar algum tempo. Espere aqui em paz até que eu retorne."

Nada disse ela, apenas esperou. Ele recuou sem nunca dar as costas a ela e finalmente desapareceu na luz do dia. Só então ela retornou às sombras. Uma escuridão enrolou-se ao redor dela, escondendo tudo exceto um brilho de olhos.

Sem falar Naiva rastejou para trás com a Avó e Baishya até alcançarem a caverna onde os adornos de cabeça repousavam como presenças aguardando serem libertadas do confinamento.

A Avó entregou a cada garota uma pedra. Sua expressão era grave.

"Vocês são o que tenho de mais precioso, minhas garotas."

O choque de ouvi-la dizer isto em voz alta roubou o fôlego de Naiva. Por um instante, pensou que todo o ar tivesse sido sugado da câmara e ela sufocaria. Sempre sintonizada com as emoções da gêmea, Baishya agarrou sua mão e a apertou.

"Chegamos a um tempo de grande perigo. Aqueles de nós que lembram do que outrora foi estão passando para o gelo dos ancestrais, enquanto aqueles que nascerão nunca saberão quem outrora fomos exceto através de histórias que lhes são contadas por pessoas que nunca testemunharam o que contam. Vocês são tudo o que resta da minha filha, a quem amei. Mas vocês são também minha oferenda ao agora não escrito, vocês e os entalhes que fazemos para contar nossa história para que outros possam saber de nós em dias distantes que virão."

"O que houve?" Naiva exigiu. "A senhora acha que a doença da mulher nos infectará?"

"Vocês não a reconheceram?"

"Não."

Baishya disse, "Estava difícil ver o rosto dela mas achei que se parecia com Mevra."

"Sim, o corpo assemelha-se a Mevra, mas acredito que quem fala não seja o que parece."

"A senhora está dizendo que alguém roubou a forma de Mevra? Como alguém pode fazer isso?" Naiva perguntou.

"Minha magia de cura é poderosa. Existem outras formas de magia poderosa no mundo."

"Como Baishya movendo pedra e gelo."

"Isso mesmo. Talvez a magia possa moldar uma pessoa em uma forma diferente. Talvez meramente nos faça acreditar através de ilusão que vemos algo que não está lá. Não sei. Mas o senso de olfato de Fec é excelente, e pelo seu sinal, ele também suspeita que não seja ela. Não posso ter certeza até me aproximar mais e questionar esta pessoa eu mesma. Vou deixar vocês duas aqui enquanto faço isso."

"Não tenho medo," disse Naiva resolutamente.

"Claro que não tem." A Avó agarrou uma mão de cada garota, segurando firme. "Mas até que eu descubra por que Ugin nos enviou visões agora, ou se são sequer as visões de Ugin, vocês duas devem ficar aqui."

Nexo de Ugin | Arte de: Sam Burley
Nexo de Ugin | Arte de: Sam Burley

"De quem mais poderiam ser as visões?"

"De um intruso que já nos infectou ao trazer o reinado dos dragões soberanos. Se algo acontecer comigo e com os outros, esperem um mês."

"Um mês!"

"Façam o que eu digo. Após um mês, retornem a Ayagor e digam a Gerrak que ele é agora o Primeiro Pai da tribo."

Sem mais explicações, ela as deixou.

"Que intruso?" Naiva encarou a escuridão deixada pela partida da Avó. "Como um intruso poderia ter trazido o reinado dos dragões soberanos? Dragões não estão sempre destinados a nos governar?"

"Uma corda não é um único fio mas muitos fios tecidos juntos," disse Baishya suavemente. "O futuro é como aquela corda. O fio em que estamos agora não é o único fio que poderia ter sido. Houve um caminho diferente, um que não foi tomado."

"Você soa como uma sussurradora agora!"

"Sou uma sussurradora. Não se lembra do conto, Nai? Houve outro grande dragão na tempestade naquele dia, aquele que matou Ugin. Ele veio de lugar nenhum e desapareceu para lugar nenhum."

"A Avó acha que ele retornou?" Naiva abraçou os próprios braços. Subitamente parecia tão frio. "Ela não pode enfrentar um dragão sozinha. Deveríamos voltar ao mirante e ver — "

"Não!" O tom usualmente brando e hesitante de Baishya endureceu, fazendo-a soar como outra pessoa, não a gêmea tímida e sonhadora que Naiva conhecia tão bem em alguns aspectos e no entanto cuja mente era tão diferente da sua que frequentemente a confundia. "Não podemos voltar lá, Nai. Sei para onde temos que ir."

Puxou Naiva para o canto mais escuro da caverna. A luz das pedras revelou uma fenda tão estreita que Baishya já tirara sua mochila e a colocara no chão para poder se espremer.

"O que você está fazendo, Bai? A Avó disse para ficarmos aqui."

"Ugin está me chamando. Não ouvi antes. Talvez estivéssemos longe demais e só consiga me alcançar através da magia tecida nos adornos de cabeça."

"Ugin está morto. Coisas mortas estão mortas."

"Não. A morte é mais complicada que isso. Se você não vier, vou sozinha."

Dissera as mesmas palavras quando se dispusera a escalar o Gelo Eterno. Uma parte de Naiva quis recusar, virar as costas. Mas tal qual no dia em que Baishya partira montanha sagrada acima, Naiva sabia que sua gêmea pusera a mente em um caminho e não voltaria atrás. Como era seu dever proteger Baishya, ela pousou sua mochila e, ainda segurando a pedra, virou-se lateralmente e seguiu-a pela fenda. Raspou o nariz na rocha conforme caminhava de lado. A parte de trás de sua cabeça batia contra a outra parede. Após cento e onze passos laterais a fenda alargou-se o suficiente para que pudesse se espremer ao lado da gêmea. Bai respirava com dificuldade, tossindo um pouco.

Naiva passou um braço pelos ombros dela. "Olhe, há um vislumbre de luz do dia à frente. Deixaremos as pedras aqui para podermos pegá-las quando voltarmos."

A fenda abria-se em uma caverna rasa onde um anel de pedras formava um fosso de fogueira. Não fora usado por muito tempo, toda a cinza soprada para longe, e Naiva não viu sinal de combustível estocado. Encontraram um trilha, um ziguezague descendo a face íngreme do desfiladeiro. O sol ainda não estava no zênite, e sombras preenchiam o desfiladeiro, então caminharam com cuidado para onde punham os pés. A trilha não tinha mais que um palmo de largura. Seria fácil tombar sobre os espinhos de gelo dos edros. O ruído do vento cessou conforme desceram, afogando-as em um silêncio denso como se seus ouvidos estivessem entupidos com pano. Uma vibração profunda e sem som cantarolava através das solas de suas botas em um ritmo lento que lembrava Naiva de respiração, não que houvesse nada vivo aqui embaixo exceto as duas garotas. Nem mesmo pássaros voavam. Quando lambeu os lábios, o ar quase pareceu faiscar em sua língua, como se estivessem caminhando para dentro de uma folha invisível de relâmpago congelado.

Finalmente a trilha terminou, prendendo-as em um beco sem saída. Paredes de edros anguladas as confinavam. Não havia para onde ir exceto de volta trilha acima.

Sua gêmea a levara a um beco sem saída, como sempre. O pensamento rastejou furtivamente na mente de Naiva. Tinha sempre que seguir o caminho que a Avó traçara para Baishya em vez de comandar a glória que lhe era devida pela sua proeza na caça. Merecia mais.

"Nai?"

"O quê?" Sobressaltada, Naiva virou-se para ver Baishya observando-a com olhos estreitados.

"Houve algo engraçado em seus olhos mas se foi. Olhe aqui o que encontrei." Firmou uma mão em um canto inferior de um dos edros. Como se fosse a escama de um dragão solta, ela deslocou uma laje de rocha parecida com ardósia para revelar uma abertura grande o suficiente para engatinhar.

"Não entre aí!"

Baishya caiu de joelhos e engatinhou para dentro. Seus pés desapareceram. O chão zumbiu, então silenciou.

Naiva orgulhava-se de sua coragem. A visão daquele vão em uma escuridão turva que luz alguma conseguia penetrar atingiu seu coração com uma lâmina de terror. Covarde! Por toda a vida fora lembrada repetidamente de que deveria proteger sua gêmea. Por tanto tempo pensara ser porque Baishya era mais fraca, mais frágil, menos competente, talvez uma pessoa que a tribo decidiria não valer a pena alimentar. Mas não era nada disso.

A Avó a ama mais do que ama você. Você pode deixá-la. Ninguém sentirá falta dela, e então a Avó amará mais você.

O pensamento a importunava. Deu um passo para longe, em direção à trilha. Outro passo.

Você tem um destino maior. Você se tornará a mais magnífica caçadora conhecida pelo seu povo. Será fácil, uma vez que não a tenha mais para sobrecarregá-la.

Mas dever e amor enraizaram seus pés. Era impossível caminhar para longe e deixar sua gêmea para trás. Haviam nascido juntas, puxadas do útero sangrento de sua mãe morta, mão colada à mão. Trair aquele laço era trair a si mesma.

Então ajoelhou-se e baixou-se para dentro do edro.

Uma névoa reluzente derivou diante de seus olhos, obscurecendo sua visão. Cores retorciam-se como fios, cintilando, estonteantes. O espaço era vasto, imensurável, o hálito inebriante da eternidade doce contra seu rosto. O espaço era tão pequeno quanto uma tenda de pele erguida contra a neve no meio do inverno, apertado e úmido. Baishya jazia estatelada no chão como se adormecida, uma mão frouxa ao seu lado e a outra estendida acima da cabeça para agarrar um objeto que Naiva não conseguia ver.

O ar coagulou nos pulmões de Naiva. Caiu para frente conforme sua visão embaçou. Com seu último fôlego consciente, agarrou a mão da gêmea, pele com pele. A magia dos edros abriu um portal de mente para mente. A essência do Dragão Espírito ergueu-se como um penhasco de gelo ao seu redor, reluzente e intransponível. Caiu na visão onde Baishya já mergulhara.

Ugin, o Dragão Espírito | Arte de: Chris Rahn
Ugin, o Dragão Espírito | Arte de: Chris Rahn

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A paisagem é uma folha prateada de água tão plana e refletiva quanto um espelho estendendo-se ao horizonte em todos os lados. Aqui e ali ilhas rochosas como pináculos erguem-se do mar interminável, cada uma criando um lugar de repouso perfeito sobre o qual meditar.

Nenhum vento agita o ar, no entanto globos vislumbrantes e translúcidos flutuam como bolhas capturadas em uma brisa que nada mais toca.

Um destes globos deriva para perto, e mais perto ainda da sombra sonhadora da garota adormecida sobre as águas. Quando sua superfície frágil toca a borda de sua forma nebulosa, ele estoura. A fina esfera de líquido derrama memória na sombra de sua mente.


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Um dragão paira sobre as águas paradas, encarando seu reflexo, um espelho que olha de volta para si mesmo. O reflexo é tão completo em cada detalhe que poderia ser o dragão original olhando para um mar espelhado, e o dragão flutuando no alto poderia ser seu reflexo, completo em cada detalhe.

"Que lugar é este?" diz o dragão e, ouvindo sua própria voz, chicoteia sua cauda em surpresa. Mas a cauda chicoteante não agita vento algum. As águas não ondulam. Apenas o reflexo se move conforme o dragão responde a si mesmo.

"Este deve ser um dos planos de que Te Ju Ki fala. Caminhei entre mundos — "

A percepção acende um clarão de chama cintilante e sem luz que parece envolver o dragão, e num piscar de olhos ele desaparece.


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A água espera imóvel, calma, e no entanto expectante, quase consciente. Outro globo gira até a sombra da garota adormecida, e estoura.


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O dragão cai em confusão, abrindo as asas no último momento para estabelecer-se no topo de um pico denteado. Mas esta não é sua montanha de nascimento de encostas suaves presidindo sobre uma paisagem magnífica e rica. Este é um mundo selvagem, tempestuoso e acidentado, apenas metade nascido, chamado Tarkir. Ventos ferozes saúdam o dragão em rajadas selvagens. As montanhas cantam, derramando árias de lava ardente, e os rios jorram em um falatório impetuoso de deleite. Os corações do dragão sentem-se tocados como por um lar. Este ermo pode ser cuidado, não para criar o jardim de seus desejos mas para tornar-se si mesmo, para cumprir a promessa de sua alma nascente.

Assim, ele enterra-se no solo e escava as criaturas da terra. Nada nos rios agitados e mares inquietos e mires pesados, e cada ondulação espumante ferve uma miríade de criaturas para dentro das águas. O bater de suas asas estala trovão e relâmpago através do céu, e esta tempestade gera dragões. Até o fogo gera coisas vivas, esplêndidas em seu calor e beleza.

Ou ao menos, esta é uma história que os humanoides frequentemente contam enquanto tecem contos sobre os dias mais antigos, pois aqueles que testemunham a majestade e o poder do dragão não podem deixar de desejar ser associados à sua grandeza. Conforme um conhecimento de magia surge entre os vários povos, xamãs buscam a tutela do dragão. Aos mais sábios, ele relata a história da jornada que o trouxe a Tarkir. Ao contar o conto, ele descobre que a pior aresta do choque e da traição se desgastou. O que aconteceu com seu gêmeo? Nicol sobreviveu? O que dizer do plano de nascimento deles? Se ele pôde caminhar pelos planos uma vez, certamente, pode fazê-lo novamente.

Ele busca em sua mente pela centelha que abre o caminho entre mundos. Em um banho de chama invisível e ondulante, ele desloca-se através de uma escuridão cega e desorientadora e, após um momento de desconforto de revirar o estômago, encontra-se novamente flutuando sobre as águas paradas e sua aura misteriosa de paz meditativa.

Ilha | Arte de: Florian de Gesincourt
Ilha | Arte de: Florian de Gesincourt

Encara sua imagem perfeita encarando de volta para si mesmo.

Uma única gota de água cai do céu fulgurante, ou talvez de seu próprio olho, e atinge a água. A ondulação de sua passagem abre uma vista. Através desta janela, ele vê a montanha de nascimento, ainda orgulhosa, ainda coberta de neve, mas manchada agora por um crescimento feio.

Como um rugido não vocalizado de angústia, toda a emoção espessa e coagulada que ele pensara ter deixado para trás incha em um surto feroz. A centelha lhe dá passagem; ele retorce-se através da sombra, e então ele está lá, caindo do céu em direção à montanha de nascimento.

Ele sobe em uma poderosa corrente de vento e circula a montanha, descendo cada vez mais baixo até ver que alguém construiu um templo no topo da montanha. Esta estrutura é um espetáculo espalhafatoso de telhados em camadas pintados de vermelho como sangue e encimados por dois chifres imensos curvando-se um sobre o outro. Sacerdotes de mantos vêm correndo, vendo-o, e tocam sinos e batem em tambores. Alguns prostram-se como em adoração, enquanto outros tecem magia e a lançam contra ele como uma rede destinada a capturá-lo e arrastá-lo para baixo.

Ele evita estas exibições cruas de magia e voa montanha abaixo, buscando qualquer coisa familiar. A clareira onde Merrevia Sal foi morta, onde o velho chefe construiu seu templo, é agora a praça central de uma cidade grandiosa que se espalha pelas abas da montanha até alcançar todo o caminho até onde o velho assentamento outrora esteve.

Tantos humanoides trilham as ruas da cidade que ele não consegue contá-los. Suas vozes correm como o falatório de rios sem limites, mas sob o bulício e vivacidade habita uma quietude contaminada. Uma escuridão fétida pavimenta os becos e cortiços e insinua-se em cada transação. Sob a prosperidade daqueles que portam um distintivo costurado com chifres curvos, daqueles que banqueteiam em mesas grandiosas e servem em templos opulentos, daqueles que carregam espadas de ferro e lanças enquanto se pavoneiam por seus negócios, rastejam os acorrentados e os famintos, o escravo e o excluído. Este lugar parece pouco diferente na raiz do que o velho assentamento encharcado de sangue do chefe matador de dragões, apenas crescido e em metástase.

Quem governa aqui agora?

Mas ele sabe em seus corações quem governa aqui.

Reconhece a forma dos chifres curvos.

Meu irmão. Meu gêmeo.

Ele me trai ainda, as promessas que fizemos, o laço que compartilhamos.

Com um uivo de frustração, de raiva, de luto, ele desaparece em uma ondulação de chama invisível. Após uma passagem de revirar o estômago através da escuridão cega, ele emerge novamente acima do espelho sonhador.

As águas calmas suavizam seu coração atribulado. O açoite maldito da emoção abranda. Por anos não contados, ele paira acima das águas, perdido em pensamento e perdido para o propósito do ego. O mundo no qual caiu pela primeira vez na terra — Dominária — é apenas um entre muitos. Por que carregar-se com o passado quando todo um universo de mundos aguarda exploração? Ele não está confinado à montanha de nascimento ou mesmo a Tarkir, o lar de sua alma. O universo é maior que ele, e é assim que deve ser. Uma nova paz assenta-se em seus corações. Com elação, com alegria, com propósito, com tranquilidade, ele lança-se em uma ondulação de chama invisível.

O dragão desaparece.


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A água espera imóvel, calma, e no entanto expectante, quase consciente. Outro globo gira até a sombra da garota adormecida, e estoura.


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Ele caminha pelos planos, maravilhas e perigos desdobrando-se conforme cruza de plano em plano. Zendikar tumultuada. Innistrad assombrada pela lua. Lorwyn banhada pelo sol. Alara robusta com seu mana em perfeito equilíbrio. O fluxo verdejante de magia de Shandalar. E tantos outros, alguns vastos e saturados de mana, alguns fragmentos atenuados lixiviados de vida e magia.

Jund | Arte de: Aleksi Briclot
Jund | Arte de: Aleksi Briclot

Teria sequer Te Ju Ki suspeitado quão múltiplo o universo é? A grandeza do Multiverso o assombra; sua magnitude o humilha.

No entanto, repetidamente seus pensamentos circulam de volta para o seu gêmeo. Ele evitou Dominária todo este tempo, sentindo-se preso e diminuído nos confins de seu passado. Talvez ele seja rápido demais em suspeitar de Nicol, que afinal era um dragão muito jovem e propenso, como a juventude é, a erros impulsivos. Talvez ele tenha interpretado mal os chifres curvos e o que eles significam.

Ele sofre de orgulho também, como seu gêmeo, incapaz de desapegar-se de um ferimento passado. Ele pode ter visto o que queria ver em vez de explorar mais plenamente para descobrir a verdade. Certamente, a verdade é mais importante que o orgulho, mais satisfatória que o poder.

Ele encontrará Nicol, e tudo voltará ao que outrora foi entre eles. Tem certeza disso.

A esta altura, ele dominou o transplanar. Em um piscar de olhos, e com uma ondulação de chama invisível, ele se foi.


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A água espera imóvel, calma, e no entanto expectante, quase consciente. Outro globo gira até a sombra da garota adormecida, e estoura.


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Estandartes ondulando ao vento, exércitos marcham pelas planícies de Jamuraa. Em seu rastro espalha-se a ruína de uma grande guerra: corpos quebrados, cidades arruinadas e terras envenenadas por batalhas travadas através de feitiçaria impiedosa e o poder estilhaçante de dragões. Aqui e ali, bandeiras marcadas com a coroa de Arcades Sabboth jazem esmagadas na sujeira e lama onde coortes tombaram perante um exército perseguidor. Padrões portando os chifres curvos avançam até que os sobreviventes orgulhosos do exército em fuga se reúnam e se preparem para um engajamento final.

O último grande embate abre-se com os uivos de soldados levados à loucura por gerações de guerra. Estalos de trovão feiticeiro explodem os corações do inimigo.

Ugin encara em horror enquanto dragões menores, desconhecidos para ele, lutam e caem na primeira investida. Arcades Sabboth comanda com brilhantismo, voando para cá e para lá para repelir uma manobra de flanqueamento aqui e um assalto de feitiçaria acolá. Mas sempre Nicol está lá para contê-lo, patrulhando incessantemente as linhas de batalha conforme companhias de soldados e feiticeiros competem pela honra de lutar na linha de frente onde ele possa vê-los. Ambos estão tão concentrados na batalha que não o notam, bem alto acima deles no céu.

Em um lampejo de raiva, e de vergonha de si mesmo por ter ficado longe por tanto tempo, o dragão recolhe suas asas e mergulha. Em suas viagens, aprendeu feitiçaria para proteger-se contra lanças de ferro e redes de magia mortal, então lança-se entre os dois exércitos e abre suas asas em um cintilar de chama invisível para pairar ali entre eles como uma aparição. As tropas chocadas recuam. Até seus irmãos guerreiros ficam assombrados o suficiente pela sua aparição inesperada para interromperem a luta.

Agora que tem a atenção deles o dragão ruge. "Nicol! Arcades! Vocês devem pôr um fim a isto! É errado!"

"Luto apenas para proteger o meu povo!" Arcades responde em um bramido furioso. Mas ele é astuto, e nota de imediato que a atenção de Nicol caiu dele e de seu exército para o intruso.

Conforme o dragão paira entre eles, Arcades chicoteia os remanescentes de seu exército maltrapilho em uma retirada total.

A linha do outro exército aguarda suas ordens.

Nicol encara em choque o revenante que o confronta.

"Que feitiçaria é esta?" exige ele. "Ugin está morto."

"Nenhuma feitiçaria. Você não me conhece, Nicol?"

"Isto é alguma magia amaldiçoada empunhada por Arcades!"

Ele investe para frente e, com uma explosão de fogo, tenta obliterar a miragem. Mas a magia de Ugin é poderosa, tecida de todo o espectro da magia. A raiva de Nicol flui inofensivamente para dissipar-se no ar. O exército aterrorizado mantém sua posição, mesmo aqueles atingidos por faíscas ardentes que se contorcem em tormento conforme caem.

"Nicol! Pare! Sou realmente eu."

"Você está morto. Eu o vi aniquilado por uma explosão vil de feitiçaria humana. Foi a vingança deles pela minha vitória, destruindo o que mais amo. Mas eu o vinguei. Dispús-me a tornar o mundo digno de sua visão de paz e harmonia."

"É a isto que você chama de paz e harmonia?"

"Será. Venha ver o que realizei. Venha, Ugin."

Suas palavras são tão sinceras. No entanto ele abandona seus soldados, deixando-os para recolherem seus mortos e feridos. Batedores do exército em retirada de Arcades cavalgam para relatar esta mudança abrupta de circunstâncias, como o vencedor abriu mão de sua vantagem no campo. Mas Ugin não pode ficar para ver o que Arcades pretende fazer, muito menos dispensar uma hora ou um dia para falar com seu irmão mais velho, para perguntar o que aconteceu nos anos ou séculos desde que partiu.

Ele veio para encontrar Nicol, então segue seu gêmeo. Voam através das planícies e montanhas de Jamuraa e daí através do oceano, passando sobre outras ilhas e continentes. Dominária é bela, trabalhada com cachoeiras em cascata e cordilheiras montanhosas esplêndidas, pastos exuberantes e florestas florescentes que respiram vida no ar, recifes coloridos e ilhas salpicadas de areia cintilante. Mas em meio à paisagem marcante aninha-se o resíduo da guerra: campos blighted, aldeias queimadas, ossos espalhados. Até a terra foi empenada por magia terrível empunhada sem pensamento para suas consequências: rios bloqueados até que as águas inundem assentamentos infelizes, desfiladeiros escavados através de planícies pacíficas, avalanches enterrando vales quietos. Nicol vistoria a paisagem com um sorriso satisfeito, parecendo não notar nada desta destruição horripilante.

Fenda Tectônica | Arte de: John Avon
Fenda Tectônica | Arte de: John Avon

"Você algum dia suspeitou que o mundo fosse um lugar tão vasto, Ugin? Viajei por toda parte, nenhum lugar pequeno ou grandioso demais que eu não tenha posto a garra nele. Metade dele eu governo agora, conforme me ergui de menor a maior. Toda a Dominária logo se ajoelhará perante mim. Ninguém ousa me chamar de 'menor' agora. E você retornou para compartilhar este triunfo comigo."

Finalmente alcançam o continente de seu nascimento, e a montanha de nascimento. O pico da cratera está nu exceto por um par de chifres curvos moldados em mármore, fazendo parecer que a própria montanha tem chifres.

"Não havia um templo construído aqui?" Ugin pergunta.

"Havia, há muito tempo, mas percebi que não era adequado para humanoides porem seus pés em solo sagrado destinado apenas a dragões. Apenas a mim." Ele pousa graciosamente, deixando espaço para Ugin estabelecer-se ao seu lado. "Para você também. Senti tanto sua falta, Ugin. Minha angústia me esmagou. Pensei em você todos os dias, imaginando o que fora feito de você e como estava passando. Então, conte-me, como você gosta do meu domínio?"

Ugin fica em silêncio por tanto tempo que ao final, Nicol, perdido na contemplação de sua magnificência, percebe que ele não respondeu.

"Compartilhe seus pensamentos comigo, Irmão. Não é notável o que realizei? Até você deve admitir que criatura alguma jamais deteve tanto poder sobre tantos quanto eu detenho."

As palavras jorram como fogo. "Você tentou me influenciar com aquele truque da mente. Como você pôde, Nicol? Ruim o suficiente que você tenha operado tal magia terrível sobre outros mas em mim, seu gêmeo!"

"Você desgostou do 'truque' nunca tanto quanto quando ele funcionou contra você." Nicol ri suavemente. "Eu era jovem, e testando meu poder. Mas agora não tenho necessidade de tais inseguranças. Sou imperador de tudo, ou serei em breve."

"Tudo? Você acha que isto é tudo?" Ugin ri, seu ventre revolvendo-se com uma raiva que ele não entende.

Nicol bufou, a cabeça girando para encará-lo ferozmente. "Por que você ri? O poder não é nada para se zombar."

"Isto é apenas um fragmento de uma miríade de fragmentos. Não insignificante para aqueles que vivem e morrem aqui, é claro. Mas comparado ao Multiverso que jaz além, é como clamar que esta montanha seja o mundo inteiro quando é apenas um fragmento minúsculo do todo."

"Do que você está falando?"

"Estou falando sobre o que Te Ju Ki me ensinou — "

"Aquela velha humana foi há muito vencida pela morte e sua sabedoria palradora nada mais é que poeira. Enquanto você e eu ainda estamos aqui."

"Se é isso o que você pensa então você não entende a morte ou a sabedoria. Pensei que houvesse mais em você que isto, Nicol. Você realmente acredita que este belicismo mesquinho e conquista significam algo nos alcances vastos do universo?"

Faíscas bufam das narinas de Nicol. Uma mecha sulfurosa de fumaça sibilia de sua boca. Mas por um longo, longo tempo, ele permanece em silêncio.

O vento skirla no topo da montanha. A neve começa a cair. Os flocos que pousam nos couros escamosos dos dragões vaporizam instantaneamente. A água pinga na rocha, formando poças e então congelando. Muito abaixo, a neve drapeja a paisagem circundante no manto do inverno. Ugin não lembra de jamais ter ficado tão frio aqui, mas o clima ameno claramente mudou. Até a cidade outrora grandiosa aparentemente se dissolveu, tomada pela floresta que se enrolou ao redor de torres desmoronantes e arrancou nobres avenidas. Na distância, um anel de fortalezas protege todas as aproximações à base da montanha. Além destes postos avançados jazem templos encimados com chifres, e além dos templos jazem cidades distantes demais para serem vistas exceto por olhos de dragão. Mas cada fortaleza e templo e cidade está voltado para dentro em direção à montanha, como se tudo o que importa para Nicol agora seja que cada rosto esteja voltado para ele para louvá-lo.

Nicol fala em uma voz contemplativamente nostálgica. "Você retornou apenas para me insultar? Pensei que fôssemos gêmeos, não rivais!"

Seduzido pelas palavras, Ugin suaviza-se. "Claro que somos gêmeos, não rivais. Nosso laço, nossa irmandade, é a única razão de eu ter retornado para encontrá-lo. Se eu não tivesse voltado, estaria descobrindo todas as maravilhas que jazem além deste pequeno mundo."

Os olhos de Nicol estreitam-se com um olhar de curiosidade alarmante. "Onde você esteve? Se não foi um feitiço feiticeiro que fez você sumir bem diante dos meus olhos em uma ondulação de magia, então o que aconteceu com você?"

"Sou um Planeswalker agora."

Nicol o encara, olhos reluzentes.

"Nem tenho certeza se existe outro como eu. Não encontrei rastro de nenhuma outra criatura que possa caminhar entre mundos."

Nicol pisca mas nada diz.

"Não sei por que, ou como, aconteceu. Apenas que eu estava em Dominária, enfrentando você, e então, subitamente, fui arremessado para além deste plano. Isso me chocou na época. Fiquei perplexo e confuso. Mas desde então descobri que existem muitos planos, muitos mundos. Eles estão ligados por um espaço sombrio, uma teia de escuridão à qual tudo se anexa. Ao mover-me para dentro e para fora através da teia, posso passar de um mundo para outro. Que maravilhas eu vi! Cem mundos eu visitei. Governar Dominária é muito bom para um déspota de mente pequena como aquele velho chefe que matou nossa irmã ferida e acreditou que isso o tornava divino e invencível. Mas ele e seus herdeiros esquálidos nada mais foram que tiranos desprezíveis comparados à eternidade e infinitude de — "

Cadinho de Mundos | Arte de: Ron Spencer
Cadinho de Mundos | Arte de: Ron Spencer

"Você está me comparando àqueles humanos patéticos, fracos e de vida curta que destruí com o mais superficial lampejo da minha mente?" As palavras emergem no mais puro sussurro.

"Quando olho para o que você produziu com estas guerras inúteis contra nossos irmãos dragões? Ouço você se vangloriar disso como uma criança franzina poderia se gabar de matar uma mosca dizendo que matou um dragão poderoso? Sim, eu o comparo a tais criaturas patéticas. Pois ao menos elas não sabem o que fazem. Você deveria saber."

"Há quanto tempo você sabe como fazer isto?"

"Desde aquele dia. O dia em que você tentou manipular meus pensamentos."

"Aquele dia aconteceu há quatro ou cinco mil anos conforme humanoides medem o tempo. E você nunca pensou em retornar até agora? Nunca disse a si mesmo, devo compartilhar esta revelação momentosa de caminhar entre os planos com meu irmão, meu gêmeo?"

"Como eu poderia confiar em você? Você tentou me manipular — "

"Mostre-me como caminhar pelos planos. Leve-me com você."

Esofregamente Ugin começa. "Você foca sua vontade sobre a centelha dentro de você e — "

Ele interrompe-se. Foi uma centelha nascida dentro dele que lhe deu a capacidade de transplanar. Sem a centelha, as passagens entre mundos são simplesmente uma porta fechada.

"Você não consegue me contar, não é?" desdenha Nicol. "É tudo uma mentira, não é? Você esteve se escondendo todo este tempo em um santuário de covarde. Agora que quase conquistei o mundo — o único mundo que existe — você retorna como um rato faminto esperando roubar minha glória e reclamá-la para si mesmo."

"Você não acredita em mim."

"Claro que não acredito em você. Você é um mentiroso. Você sempre foi um covarde e um mentiroso. Esta é a maior mentira de todas, nascida no fundo do seu coração assustado e invejoso porque realizei todas as coisas que você nunca teve a coragem ou a força de vontade para concretizar. Foi sempre sobre mim, não foi, Ugin?"

"Você só consegue ver a si mesmo em tudo o que acontece. O que aconteceu com você?"

"Nada aconteceu comigo. Sou como sempre fui."

"Sim, talvez isso seja verdade. Talvez todo esse tempo tenha sido eu quem estive mentindo para mim mesmo, achando que você fosse melhor."

"A mentira é que você todo esse tempo acreditou ser melhor que eu. Você é o manipulador, Ugin. Não eu. Apenas fiz o que precisei para nos ajudar a sobreviver. Apenas mantive a fé com você e com nossa irmã assassinada. O que você fez exceto esconder-se covardemente, abandonando-me? Você só veio rastejando de volta quando eu fiz todo o trabalho duro de tornar o mundo seguro para nós."

"Você tem razão. Eu nunca deveria ter voltado. Que seja. Aproveite sua ascendência sobre Dominária. É tudo o que você jamais conhecerá, enquanto mundos incontáveis jazem para sempre além do seu alcance."

Enraivecido, furioso, de coração partido, Ugin desaparece em uma ondulação de chama invisível.


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Um solavanco rolou Naiva de lado. Ao seu dorso atingir a parede fria do edro, abriu os olhos em choque. Sua mão perdera o contato com os dedos de Baishya, a conexão quebrada. Sua gêmea ainda respirava, peito subindo e descendo em ondas lentas. Sob as pálpebras fechadas seus olhos moviam-se inquietos, dardeando como tentando absorver um fluxo interminável de visões. Estaria ela presa em memórias, ou em sonhos falsos? Seria o que estavam vendo real, ou uma ilusão?

Um caçador confiava na evidência diante de seus olhos: a marca de cascos ou patas, grama quebrada revelando uma trilha, os cheiros no chão e no ar, o farfalhar da passagem de uma fera ou suas vocalizações marcando sua posição. Como alguém poderia confiar em histórias passadas do passado antigo ou sonhos borbulhando de uma fonte desconhecida? E se fosse tudo mentira?

Um som de raspar soou de fora, seguido por um deslize de seixos na trilha. Ela meteu a cabeça para fora da pequena abertura para ver sua Avó descendo apressada a trilha em ziguezague. Escalan do para fora, agarrou sua lança.

"Avó." Manteve a voz baixa, lançando olhares nervosos ao céu, embora não soubesse dizer o porquê, apenas que sentia um formigamento nas costas, um eriçar pelo pescoço, como se o caçador estivesse sendo caçado por um predador muito maior e mais mortal que qualquer humano.

"Naiva!" A Avó pôs uma mão firme em seu ombro, sacudindo-a com uma rara exibição de preocupação. "Por que vocês duas deixaram a segurança da caverna? Onde está Baishya?"

Naiva indicou a abertura baixa e o interior turvo. "Tentei pará-la, mas a senhora sabe como ela é. O Dragão Espírito a atraiu aqui para baixo e a prendeu em um reino estranho de águas largas, como um espelho."

"Prendeu-a?"

"Eu a segui lá para dentro. Quando segurei a mão dela, caí no sono também. Vi o que ela viu, sonhos que pareciam memórias. Então eu rolei e o contato entre nós quebrou, e eu acordei. Mas ela ainda está dormindo. É como se ela não conseguisse parar."

"O Dragão Espírito está tentando falar conosco."

"Ugin está morto."

"Você continua dizendo isso, mas os ancestrais nunca verdadeiramente nos deixam a menos que descartemos nossa memória deles. O que você viu?"

Naiva não era contadora de histórias. Em vez disso, como um caçador, descreveu eficientemente a paisagem estranha e os globos flutuantes. A Avó ouviu atentamente e, após Naiva terminar, ficou em silêncio, sua expressão tão focada como se estivesse caçando através das palavras pelo segredo que buscava.

Finalmente, Naiva não pôde mais suportar o silêncio dela e interrompeu. "Mas o que tudo isso significa? Por que tudo isto está acontecendo?"

"Parece que Ugin não está morto afinal. Mas não acordado também. Devo concluir que o Dragão Espírito está tentando se comunicar conosco da única maneira que consegue, como os ancestrais às vezes fazem através de sonhos e visões. O povo-do-vento está mais profundamente sintonizado com os ventos da magia, então ele lhes enviou uma visão das profundezas do seu sono. Chamaram Baishya até ele, conhecendo-a como uma sussurradora que pode falar mente para mente." Ela pausou. "Como você e eu não conseguimos, Naiva. Isso não é uma falta em você e em mim. Apenas significa que Baishya tem seu próprio caminho na vida."

"Passar uma visão para a senhora dizendo para vir a este túmulo?"

Túmulo do Dragão Espírito | Arte de: Sam Burley
Túmulo do Dragão Espírito | Arte de: Sam Burley

"Talvez. O mestre de Tae Jin deve ser um xamã poderoso. Assim, ele também pode receber uma visão, e assim, Tae Jin é enviado a mim a fim de contar a história que Ugin contou aos Jeskai há muito tempo. Aquela história deve ser importante como parte do que o Dragão Espírito quer que eu saiba. Mas o que devo aprender com todas estas dicas e marcos? O que Ugin quer que eu veja?"

"E se for tudo mentira, Avó? Sonhos podem ser mentiras. Velhas histórias podem ser mentiras."

A Avó agarrou seu queixo e a forçou a olhar para ela, encarando em seus olhos enquanto examinava perscrutadoramente seu rosto. "Suas pupilas parecem normais. Você ouve um sussurro em sua cabeça?"

"O que a senhora quer dizer? Não! O que a senhora acha que está acontecendo?"

"Mevra e os outros estão quase certamente mortos. O que tomou a forma de Mevra eu não sei, mas se o que suspeito for verdade, então estamos em perigo terrível."

O modo plano como a Avó falou enviou um calafrio de medo através da carne de Naiva, um verme de frio que mordiscou seu coração e a fez sentir tonta. "Que perigo? Onde estão os outros?"

"Escondidos na caverna sagrada. Você deve subir para juntar-se a eles."

"O que a senhora vai fazer?"

"Não tenho certeza," disse a Avó. As três palavras foram a coisa mais assustadora que Naiva ouvira em toda a sua vida, porque a Avó sempre sabia o que fazer. "O aviso que o Dragão Espírito está tentando nos dar pode ter vindo tarde demais, mas devo ver se consigo me comunicar com Ugin eu mesma para descobrir o que ele quer. Se o que você diz é verdade, talvez eu consiga alcançar os sonhos dele através de Baishya."

Um estalo de ruído fez sua cabeça subir. Ambas encararam a borda do desfiladeiro, bem no alto, e erguendo-se além dela o encanto azul lustroso do céu sem nuvens. O sol estava no zênite. Nada se movia, nem mesmo um pássaro ou um inseto.

"Minha doce criança," a Avó disse em uma voz baixa e ríspida com emoção inesperada. Beijou-a em cada bochecha. "Vá rápido. Vá silenciosamente. Você me entende? Deixe nada te distrair."

Ela engatinhou para dentro através da minúscula abertura, desaparecendo dentro da estrutura de edro. Um tremor estremeceu o chão sob os pés de Naiva como o tremor de um terremoto distante ou o estremecimento de uma criatura rolando nas profundezas subterrâneas.

"Avó?" sussurrou ela.

Nenhuma resposta veio.

Um surto de medo derramou adrenalina através de seus músculos até que ela tremeu. Mordendo o lábio, respirou para conter a onda de terror, mas não pôde evitar pensar nas duas pessoas que mais amava no mundo jazendo adormecidas e inconscientes, inteiramente indefesas. Colocou o pedaço de cristal quebrado de volta através da abertura para escondê-la mas sem fixá-lo no lugar para que fosse fácil de deslocar por dentro. Após dar dez passos trilha acima, olhou para trás. Desta distância, a superfície do edro parecia tão lisa e inquebrada que ficou subitamente com medo de tê-las prendido acidentalmente, que elas lutariam para se libertarem apenas para se verem em uma prisão de sua autoria. E se morressem de sede ao lado dos ossos do Dragão Espírito?

Ela apenas voltaria e checaria mais uma vez —

Movimento lampejou na periferia de sua visão. Girou, apontando sua lança em direção à trilha. Uma mulher emergiu de trás de uma crista de rocha, negociando o último ziguezague antes de a trilha tomar uma linha reta desfiladeiro abaixo. Estava imensamente grávida porém notavelmente leve em seus pés, forte e graciosa, nada desajeitada. Naiva conheceu-a de imediato. O rosto de Mevra era uma visão familiar na reunião anual em Ayagor quando os vários grupos de caça e grupos familiares eram obrigados a se apresentar a Atarka. Ela era aparentada com a Avó através de avós que eram irmãs, e por sua própria parte era também uma líder de caça, inteligente e ponderada, uma das poucas pessoas que a Avó genuinamente respeitava.

O rosto de Mevra sorriu, vendo Naiva. Era um sorriso tão amigável e agradável, tão tranquilizador.

"Saudações, Irmãzinha. Vim de tão longe para encontrar você e sua família, e descobrir alguma família de minha autoria."

"Quem é você?" O medo estalou em sua voz e surgiu através de sua carne, embora ela não soubesse dizer o porquê.

"Não nos conhecemos? Qual é o seu nome e família?"

A boca de Naiva abriu antes que soubesse que pretendia falar. As palavras apenas fluíram para fora. "Sou Naiva, filha de Kiarka, neta de Yasova."

"Yasova! Ora, é Yasova quem busco. Ela não está aqui? Não a vi descendo em direção a este lugar?"

"Não há nada aqui, como você vê." Naiva concentrou-se em mover seu pé direito, qualquer coisa para se afastar, mas o pé não se deslocava. Um terror doentio cravou-se através de seu ventre, e ela o respirou para conter até que pudesse proferir palavras compreensíveis. "Nada exceto estes edros, cobrindo os ossos de um dragão que morreu há muito tempo."

"Não há tanto tempo. Um momento. Um fôlego."

"Minha vida inteira atrás," disse Naiva.

"Ah, você é muito jovem, um mero filhote."

"Quem é você?"

"Você não me conhece?"

A esta altura o fôlego de Naiva vinha em arquejos, como se tivesse estado correndo e não pudesse parar, e no entanto ela não se movera nada. A mulher grávida vestindo o rosto de Mevra descia mais e mais baixo, aproximando-se cada vez mais. O treinamento de caçador de Naiva soava cada alarme: a mulher não tinha cheiro de feltro ou suor, nenhum brilho de óleo em suas bochechas descobertas. O vento não agitava nenhum fio solto de seu cabelo negro.

Seus passos não faziam ruído algum, nem o menor arrastar.

Seus pés não estavam tocando o chão, um vão da espessura de um dedo entre as solas de suas botas e a terra bruta.

O que a Avó dissera? Ilusão pode nos fazer ver o que não está lá.

"Quem é você?" Naiva repetiu temerariamente, suas mãos agarrando sombriamente a haste conforme nivelava sua lança para a mulher, que ainda descendia com aquele deslize estranho. "Você não é Mevra. Você não é parenta minha."

A mulher grávida parou. Piscou em um baixar e levantar lento de pálpebras que pareceu transformar o dia em crepúsculo. Então sorriu, um pouco larga demais, um pouco brilhante demais, um pouco calorosa demais.

"Um filhote sábio, para ser tão observador. Onde está Yasova?"

"Não está aqui, como você pode ver por si mesma," disse Naiva resolutamente, embora se sentisse tonta com o esforço de permanecer ereta. "Quem é você? Você não é Mevra. Seus pés nem sequer estão tocando o chão."

"Uma esperta!"

O riso da mulher grávida preencheu o desfiladeiro, ecoando de suas paredes altas até que Naiva caiu de joelhos e, deixando cair sua lança, tapou os ouvidos com as mãos. O riso rachou conforme o sorriso da mulher alargou-se, enrolando-se de volta ao redor de sua cabeça, a boca dividindo-se como se cortada por uma lâmina para expor sua garganta, lábios descascando-se para consumir sua cabeça e então seus ombros e então ela virou-se do avesso em uma distorção horrível de nascimento. Mas o que emergiu do corpo derretendo da mulher retorceu-se e esticou-se, crescendo tão vorazmente como se este novo ser desejasse consumir os próprios céus.

Um dragão desdobrou-se da ilusão, uma criatura tão magnífica que a memória do poder de Atarka parecia pífia em comparação. Ele era tão grande que bloqueava o sun, permitindo que sua luz delineasse sua forma em cada lado de modo que brilhava. Arco-íris refratavam-se ao seu redor, derramando arcos de cor através do céu como se em celebração de sua chegada. Em choque Naiva encarou os chifres curvos familiares a ela das estranhas memórias que compartilhara dentro do edro. Uma gema reluzente em forma de ovo flutuava entre os chifres, girando lentamente, hipnótica.

Gema do Vir-a-ser | Arte de: Jack Wang
Gema do Vir-a-ser | Arte de: Jack Wang

"Tudo ficará bem agora," disse o dragão em sua voz suave e sedutora. "Você está segura agora, pequena Naiva. Todos os seus problemas serão resolvidos. Tudo o que você sempre quis se tornará seu enquanto você viver. Confie em mim. Só preciso de uma coisa. Uma coisinha."

Nunca ela se curvaria. Nunca ela se encolheria. Nunca. "O que você quer?"

"Quero Ugin."

"Ugin está morto."

"Foi o que pensei na primeira vez que o matei, mas afinal ele não estava morto. Desta vez retornei para garantir isso. Você é a caçadora indomável, logo a ser renomada como a mais poderosa de todos os matadores de dragões, que vai me ajudar a destruí-lo por toda a eternidade."

Crônica de Bolas: Perspectivas

Naiva agarrou sua lança, apoiando-se nela para não colapsar de puro e absoluto terror. O enorme dragão preenchia metade do céu, bloqueando as paredes do desfiladeiro. Ele flutuava ali sem esforço, sua expressão divertida com a tentativa patética dela de parecer audaz.

"Pequena, você não pode me desafiar, muito menos me derrotar. Mas com minha ajuda, você pode governar este pequeno mundo triste e fazer dele o que desejar. Apenas me diga onde Ugin está, e por que estes edros preencheram o lugar onde ele caiu."

Sua garganta estava tão seca que as palavras saíram em um grasnar. "Por que você odeia Ugin? Ele é seu gêmeo."

O grande dragão recuou, uma explosão de fogo raivoso rugindo sobre a cabeça dela. Faíscas choveram sobre os edros que escondiam o esqueleto do Dragão Espírito, mas as chamas e cinzas incandescentes deslizaram inofensivamente pela superfície dura.

"Ele não é gêmeo meu. Isso é apenas uma história que ele espalhou, tentando abocanhar uma parte da minha glória e do meu triunfo."

Naiva não se importava com Ugin; nunca o conhecera, e não conseguia imaginar que qualquer dragão pudesse ser amigo da humanidade, mesmo que pessoas como sua avó e o mestre de Tae Jin o chamassem de alma de Tarkir. No entanto, uma semente de força desabrochou em seu coração. De alguma forma, surpreendentemente, este dragão poderoso não sabia que o corpo de Ugin jazia escondido sob os edros. Isso significava que ele não conseguia ver Baishya onde ela jazia perdida em um transe indefeso. O pensamento de sua gêmea morrendo encheu seu coração de tal pavor que alimentou uma determinação temerariamente feroz. Por uma vez, sua lança não tinha utilidade. Ela tinha que encontrar outro caminho.

"Você é Nicol Bolas," disse ela, tentando juntar o que aprendera das histórias e memórias.

Ele sorriu. "Claro que sou. Quem mais eu poderia ser?"

Se ele era como as histórias afirmavam, seria capaz de entrar na mente dela. Provavelmente já o fizera. Assim que ele vasculhasse seus pensamentos, perceberia que Yasova Garra de Dragão estava bem na frente dele. Sua única esperança era distraí-lo. Não dissera Ugin para nunca deixá-lo zangado? Se ele a matasse, então ao menos ela não poderia trair seus entes queridos.

Nicol Bolas, o Erguido | Arte de: Svetlin Velinov
Nicol Bolas, o Erguido | Arte de: Svetlin Velinov

"Sim, ouvi falar de você. Sei tudo sobre você. Você é um mentiroso quando diz que não é gêmeo de Ugin. Vocês nasceram juntos e caíram juntos. Não é isso?"

Seu rugido sacudiu o ar. Pedras caíram da parede do desfiladeiro, rolando e quicando para chocarem-se contra o casulo de edros, mas os edros mantiveram-se firmes porque eram mais fortes que a rocha.

"Claro que não é isso! Quem te contou isso?" Ele aproximou-se, sua sombra roubando a mancha de sol em que ela estava. Sua voz caiu de trovão para um sussurro ameaçador. "Ugin te contou isso?"

Ela deu um passo involuntário para trás em direção aos edros para colocar distância entre si e os dentes dele. Não era estranho que a primeira reação dele não fosse golpeá-la, mas sim discutir defensivamente? Talvez se ela o mantivesse ocupado, pudesse encontrar uma maneira de sair desta. "Se você e Ugin não são gêmeos, então o que vocês são?"

Ele inalou com tal força que a neve rodopiou de onde polvilhava edros distantes, girando ao redor dela como uma nevasca. Sua voz trovejou sobre ela conforme ele começou a falar.


)

Esta é a verdade, não que você possa apreciá-la, desmamada como obviamente foi em mentiras mascaradas de verdade.

Eu caí.

Ugin terá lhe contado que caímos juntos, mas esse é apenas o jeito dele de turvar as águas, contando meias mentiras que as pessoas confundem com a verdade.

Caí das asas do vácuo. Cair foi minha primeira sensação: o rugido do vento contra minhas escamas; um clarão de relâmpago fendendo o ar; o estrondo dos batimentos de asas do progenitor.

O trovão da passagem do progenitor despertou-me do sonho da queda. Quando acordei para o pensamento consciente, soube de imediato com plena compreensão que meu destino não é cair, mas sim voar.

Abri minhas asas para captar o ar. Ugin pode lhe contar que ele e eu estávamos envoltos juntos como uma única criatura, nascidos juntos, caindo juntos, mentes acordando juntas em perplexidade e curiosidade. Ele pode lhe contar que conforme percebíamos sermos seres — mentes — consciências — que nos desdobramos juntos. Voamos juntos.

Mas isso está errado.

Eu voei primeiro.

Eu respirei primeiro.

Contemplei a majestade do sol e o esplendor dos céus e compreendi a magnificência da minha mente naqueles primeiros instantes. Então reconheci a criatura enrolada caindo indefesa ao meu lado. Claro, meu instinto foi ajudar.

Usando a ponta da minha asa para golpear seu flanco, eu o acordei. Com meu encorajamento, ele também desdobrou as asas. Suas asas não eram tão poderosas quanto as minhas nem mesmo então, quando ainda não estávamos totalmente crescidos. Desta maneira ele descobriu o voo ou, eu deveria dizer, eu o ensinei que o voo é para o que nós dragões fomos feitos.

Voo, e poder.

Claro, notei imediatamente que tínhamos irmãos. A tempestade agitando-se dentro das asas sombrias do progenitor passara, deixando-nos para trás em uma terra verde e quieta. Estávamos sozinhos, apenas nós seis.


)

"Seis?" Naiva perguntou. "Não eram oito de vocês? Dois não caíram sem acordar? Seus corpos não se estilhaçaram no topo da montanha?"

Uma de suas garras dianteiras golpeou o chão ao lado dela, o impacto sacudindo-a e derrubando-a. Seus joelhos atingiram o chão com força. A dor arrancou lágrimas de seus olhos.

"Não me interrompa novamente!" ele trovejou.

Ao se firmar para levantar-se, seu rosto ficou brevemente escondido do escrutínio dele e, neste momento de privacidade, permitiu-se um sorrisinho. Como ele amava o som da própria voz! Talvez fosse possível distraí-lo afinal, exatamente como a Avó há tantos anos escolhera distrair Atarka com a promessa de comida a fim de salvar seu povo.


)

Cair e voar é como começou.

Voamos por alegria. Voamos em uma jornada de descoberta, ansiosos para aprender mais sobre os padrões complicados de formas de relevo e mares. A princípio, pensamos que estes fossem seres vivos como nós, mas logo compreendemos que isto era nada mais que a ordem natural do mundo. Voamos pelo que criaturas menores mediriam como anos. Aquela foi a nossa infância: os céus, o vento, o sol e as estrelas, e a canção que faziam em sua existência gloriosa, um cenário perfeito para criaturas tão esplêndidas como nós dragões.

Finalmente, eu sozinho tive a coragem, e a fome, de ousar dobrar minhas asas e pôr minhas garras no chão. Claro, aquela decisão momentosa pressagiou tudo o que foi e está por vir: minhas asas abrangem os céus, e minha presença, meu peso, meu tamanho, minhas garras, tudo isso me dá domínio sobre a terra e tudo o que vive na terra. Assim, nomeei nosso lar Dominária, porque reivindiquei sua canção para mim.

Naturalmente, os humanoides facciosos e instáveis tiveram que ser domesticados e tornados aptos a viverem em paz. Meu sucesso excepcional nestes esforços naturalmente causou inveja entre meus irmãos e primos, mas o ressentimento e as críticas pelas costas deles foram facilmente lidados por um personagem do meu talento e sabedoria.

Mas nem tudo foi triunfo naqueles dias. Infelizmente, Ugin não se provou à altura do desafio. Nos primeiros anos da minha luta, ele prometeu estar ao meu lado, mas de fato não tinha estômago para o trabalho.

Tivemos que limpar um ninho de humanoides particularmente imundos que tropeçaram em um dragão ferido e já moribundo e alegaram tê-lo matado. Um falso senso de vitória fez com que eles se pavoneassem como se tivessem ganho uma chuva de glória. Claro, eles tiveram que ser erradicados. Mas Ugin perdeu a coragem. Voou para fora do alcance de suas armas encharcadas de veneno, observando enquanto eu altruistamente me arriscava para vingar a morte de nossa irmã. Até ele admitiria ser verdade. Inventou desculpas, cavilou, choramingou, continuou tentando me dissuadir de tomar controle de uma situação que logo ameaçaria todos os dragões em Dominária se tivesse permissão para se espalhar sem controle.

Mesmo quando os vanquihei completamente, ele me criticou pelos meus métodos, como se eu não tivesse tomado o único caminho disponível para encerrar a ameaça! Mas ouvi pacientemente todas as suas queixas persuasivas. Alguns retalhos de sabedoria percolaram aqui e ali dentro de suas palavras, e eu os ouvi também, pois desejava nada mais que trazer uma existência harmoniosa a todas as criaturas sapientes em Dominária. Tentei explicar como tudo daria certo, mas ele ainda estava assustado.

E assim, ele fugiu. Desapareceu, ali num momento e então como que num piscar de olhos e uma ondulação pelo ar — SUMIU.

Que tristeza e luto senti com o seu desaparecimento! Que uivo de desespero elevei!

Aconteceu tão rápido que realmente acreditei ser minha culpa. Pensei não ter calculado adequadamente a astúcia e o ódio dos humanoides sobreviventes. Recriminei-me por ignorar o poder de seus feiticeiros, pois era impossível para mim acreditar que meu querido Ugin fosse um covarde. A única explicação que fazia sentido era que um feitiço poderoso o aniquilara bem diante dos meus olhos atônitos.

Lançamento Duplo | Arte de: Even Amundsen
Lançamento Duplo | Arte de: Even Amundsen

Naturalmente, erradiquei todos os feiticeiros humanoides da área. Persuadi-os a entregarem seus segredos. Aqueles que recusaram, matei, enquanto daqueles que cooperaram, aprendi e então matei depois. Já que não podia mais confiar neles. Depois sabiamente criei minhas próprias academias para treinar aqueles com magia, para que pudessem servir ao bem maior sob minha suserania.

Naturalmente meus irmãos e primos invejaram meu sucesso. Não queria nenhum conflito com eles — "viva e deixe viver" é uma boa frase, não é? — mas não tive escolha se queria proteger meu povo.

Poderia falar longamente sobre a guerra que os outros forçaram sobre mim, mas isso me entediaria. Basta dizer que as guerras duraram muito tempo, muitas gerações conforme vocês humanoides de vida curta medem o tempo. Um dia, quando eu finalmente impelira aquele tirano obstinado Arcades à retirada, Ugin retornou. Voou direto para o meio de nossa batalha final, interrompendo-a.

O choque de sua aparição me desfez completamente.

"Que feitiçaria é esta?" rugi. "Ugin está morto."

"Nenhuma feitiçaria. Você não me conhece, Nicol?"

Meus corações incharam de alegria, então contraíram-se com fúria. "Esta é alguma ilusão amaldiçoada empunhada por Arcades!"

Com uma explosão de fogo, pretendi obliterar a miragem.

"Nicol! Pare! Sou realmente eu."

No último momento, desviei minha ira para soprar inofensivamente sobre a terra. E se fosse realmente ele?

"Você está morto. Eu o vi aniquilado por uma explosão vil de feitiçaria humana. Foi a vingança deles pela minha vitória, destruindo o que mais amo. Mas eu o vinguei, e dispus-me a tornar o mundo digno de sua visão de paz e harmonia."

"É a isto que você chama de paz e harmonia?"

Falado como Ugin! Ele estava sempre encontrando defeito em tudo o que eu fazia. Mas desta vez eu o impressionaria, e ele admitiria que eu estava certo, que eu o superara.

"Será. Venha ver o que realizei. Venha, Ugin."

Atuei como seu guia em Dominária, mostrando-lhe toda a sua beleza e esplendor, todo o seu poder e glória, pois ele sempre ficara grudado em nossa montanha de nascimento e temia aventurar-se longe demais. Quando ele cansou de voar, retornamos para lá e estabelecemo-nos no pico da montanha de nascimento, agora coroado com chifres gêmeos em honra à supremacia da linhagem de dragão. Vistoriei a paisagem de nosso alto poleiro, Ugin silencioso ao meu lado. Pensei que estivesse contente, exatamente como eu estava contente por tê-lo de volta ao meu lado. Mas, de fato, ele estava fervilhando de inveja, como eu logo descobriria.

"Claro, você nunca suspeitou que o mundo fosse um lugar tão vasto, não é, Ugin? Viajei por toda parte, nenhum lugar pequeno ou grandioso demais que eu não tenha posto a garra nele. Ninguém ousa me chamar de 'menor' agora."

Ugin riu. "Você realmente acredita que estas picuinhas insignificantes significam algo nos alcances vastos do universo?"

Como pained meus corações ouvir este bit de zombaria. Claro, eu quis apontar que ele estivera se escondendo todo este tempo em um santuário de covarde, mas me refreei e em vez disso tentei acalmá-lo.

"Você retornou apenas para me insultar? Pensei que fôssemos melhores amigos que isso. Agora que você retornou, pode partilhar do meu triunfo, exatamente como sempre fizemos antes."

"Não quero suas sobras, Nicol. Tenho segredos de minha autoria, aprendidos aos pés de uma sábia."

"Aquela velha humana foi há muito vencida pela morte e sua sabedoria palradora nada mais que poeira. Seus segredos eram como bolhas que estouram quando você as toca: bonitas de se ver mas sem substância."

"Você verá!" Ugin gritou raivosamente. Começou a balbuciar sobre planos e caminhar por trilhas entre mundos. "Vou encontrar o caminho, como ela me prometeu há muito tempo, e então você se arrependerá. Então se arrependerá de pensar que é melhor que eu."

O vento estrondou no topo da montanha em um uivo de tempestade. Neve caiu tão densamente que sua nevasca o obscureceu da minha visão.

"Ugin?" gritei.

Em uma ondulação de vento morno, ele se fora.

Fugido.

A paisagem feia de seus corações foi rudemente revelada. Não me abandonara ele a primeira vez justamente quando eu mais precisei dele? Agora ele voltara meramente para escarnecer do afeto que eu nutria por ele e que ele claramente não nutria por mim. Obviamente, fizera-o porque tinha inveja de tudo o que eu realizara. Minha vasta inteligência e estratégias astutas. Meu domínio de habilidades mágicas que ele queria para si mas não conseguira alcançar. Meus miríades de súbditos gratos e a promessa do mundo que eu logo governaria como suserano benevolente amado por todos, atônitos pela minha majestade e poder.

Discípulo Dracônico | Arte de: Yongjae Choi
Discípulo Dracônico | Arte de: Yongjae Choi

Como ousava ele clamar ser melhor que eu? Como ousava ele ostentar magia que se recusava a compartilhar? Ele era nada, ninguém, fraco e covarde demais para lutar. Era o menor em posição entre nós dragões anciões, não merecendo realmente sequer ser contado entre nós. Provavelmente esperara roubar minha glória e reclamá-la para si. Não admira estar zangado, reconhecendo não ter o dom ou a força para o que eu tão facilmente gerira.

E no entanto mais agudo que o dente de um dragão, a mordida de seus insultos abriu caminho independentemente para dentro dos meus corações.

Abandonara-me novamente. Deliberadamente. Zombeteiramente. Condescendentemente.

Eu, que queimava com o calor brilhante de mil sóis, senti frio pela primeira vez, frio com o luto da rejeição. Ele retornara com o propósito expresso de repelir minhas propostas de amizade, de atirar minha generosidade de volta no meu rosto.

Tal um como ele não conseguia sentir prazer na boa fortuna de outro mas apenas ressentimento.

Tal um como ele não conseguia ganhar satisfação ou deleite nas realizações e sucessos de outro mas apenas amargura.

Tal um como ele só conseguia encontrar refúgio na inveja.

Na raiva.

RAIVA

Como ousava ele ter o que eu não tinha!

Uma centelha branca incandescente acendeu-se fundo no meu peito com um clarão de tal brilho solar que me cegou. Negrume impenetrável preencheu minha visão. Tombando, caí, totalmente desorientado, até que com um giro de revirar o estômago me endireitei.

Apenas para encontrar-me não mais no topo da montanha de nascimento mas deslizando sobre uma extensão sem limites de águas oceânicas tão planas e imóveis quanto um espelho. Eu era a única coisa em movimento, minhas asas sombreando a superfície do mar. Não havia sol neste lugar peculiar, apenas a água e muitos ilhotas escarpadas e um constante sussurro shushing de segredos justamente fora do meu alcance. Por uma vibração de zumbido tênue fundo nos meus ossos, suspeitei não ser este um plano mas algum modo de constructo artificial, construído por um agente desconhecido que não deixara nem garra nem pegada para marcar sua autoria. Quem, ou o quê, possuía tanto poder? E por que fora abandonado?

Bolhas flutuavam pacificamente no céu, derivando para baixo até tocarem minhas escamas e estourarem.

Com cada estouro, uma doce vista abria-se diante de mim por um momento de tirar o fôlego antes de desaparecer: outras terras, outros mundos, outros planos.

Ah!

Com meu próximo fôlego, compreendi o todo: eu me tornara um Planeswalker.

Eu me tornara a própria coisa sobre a qual Ugin estivera vociferando o tempo todo, a magia que ele queria para si mas não conseguira alcançar.

Após aquela primeira passagem inesperada, foi fácil continuar, mover-me para dentro e para fora através de uma teia de conexões ligadas por um coágulo de trevas ao qual tudo o mais se aderia. Caminhei de um mundo para outro, para o seguinte e o seguinte.

Que maravilhas jaziam além dos parcos tesouros de Dominária! Cem mundos visitei, e então outros cem. No entanto em todo esse tempo não encontrei rastro de nenhuma outra criatura que pudesse caminhar entre mundos. Eu fora o primeiro entre todas as criaturas sapientes a descobrir a possibilidade de viajar entre planos. Não admira que a eternidade e a infinitude me acolhessem, tendo peregrinado sozinho por tanto tempo!

Mesmo assim comecei a pensar novamente em Ugin, querendo compartilhar esta glória com outro, ou ao menos perdoá-lo, ouvir como ele poderia finalmente reconhecer quão longe eu chegara.

Não sou uma criatura egoísta. Parecia churlish reter este conhecimento de Ugin, mesmo que ele nunca conseguisse duplicar o transplanar que eu alcançara, pois naquela época eu ainda não entendia como uma centelha inigualável separa nós raros Planeswalkers dos outros indignos de vida sapiente para quem mundos incontáveis jazerão para sempre fora de alcance.

Pensei nele. Acreditei que poderíamos ser amigos como outrora fomos no alvorecer dos dias. Então fui para casa.

Claro, uma grande quantidade de tempo passara conforme vocês humanoides medem. A Dominária que eu deixara estava tão mudada, mal reconheci largas faixas dela. Os cursos dos rios alterados; ilhas fendidas; lagos secos e mares erguidos para inundar margens outrora habitáveis. Ali encontrei as guerras entre os dragões anciões terminadas há muito. Uma paz tênue tomara conta de grande parte da terra. De todos os dragões anciões e seus filhos, apenas Chromium Rhuell, Arcades Sabboth, Palladia-Mors e aquela fera vexatória Vaevictis Asmadi haviam sobrevivido. Rhuell vagava pela terra no disfarce de um observador prestativo, todos oferecendo louvores pela sua sabedoria e beneficência, no entanto ele não era melhor que aqueles de nossos irmãos que pilhavam e governavam, pois enfiava seu focinho onde quer que desejasse, e quem entre os humanoides poderia lhe dizer não? Vaevictis ainda vagava com fervor inquieto, saqueando e queimando como desejava, às vezes juntando-se àquela criatura mal-humorada Palladia-Mors mas mais frequentemente sozinho.

No entanto enquanto eu buscava o mundo largo, não encontrei rastro de Ugin. Com o tempo, fiz meu caminho até o reino de Arcades, como Ugin e eu outrora fizemos quando éramos filhotes.

Arcades, o Estrategista | Arte de: Even Amundsen
Arcades, o Estrategista | Arte de: Even Amundsen

Arcades acolheu-me no seu modo mais tendencioso de irmão mais velho, perguntando onde eu estivera me escondendo todo esse tempo e orgulhosamente me mostrando o império que considerava meticulosamente regulado e magnificamente vasto. Mas eu sabia melhor.

"Ugin? Sei que você e ele eram particularmente próximos, nascidos como foram. Mas não o vejo desde os primeiros dias quando vocês dois partiram para erradicar aqueles matadores de dragões. Você nos disse que ele morreu."

"Não foi isso o que eu disse," corrigi-o. "Ele não estava morto de jeito nenhum. Estava apenas escondido. Retornou bem no clímax de nossa última batalha."

Ele me observou com sua habitual superioridade patronizadora. "A batalha da qual você fugiu, abandonando suas tropas? Eu as reuni sob minhas asas. Ficaram gratas pela minha proteção, asseguro-lhe."

"Você não o viu, voando entre nossos exércitos?" exigi, totalmente atônito pela sua falta de percepção.

"Você não era você mesmo naquele dia, Bolas. Sem dúvida estava vendo coisas ilusórias. Você sempre sentiu vergonha da morte de Ugin, não sentiu? Culpou-se por não protegê-lo? Ou ficou de lado e permitiu que ele fosse morto por alguma feitiçaria venenosa? Sempre me perguntei. Sempre suspeitei que você o invejava porque ele era mais esperto e sábio que você."

Eu, invejar Ugin? Ridículo.

Então entendi: Arcades estava me depreciando, esperando me fazer perder a calma como eu faria quando era jovem e volátil. Mas eu era maior que isso. Muito, muito maior. Eu era um Planeswalker, o primeiro e único da minha espécie. Governar em Dominária era muito bom para um déspota de mente pequena como Arcades, enquanto eu crescera tanto além dele quanto ele estava além dos humanos patéticos, fracos e de vida curta.

Vistoriei a arquitetura graciosa e as ruas e distritos fastidiosamente ordenados da cidade onde ele presidia a partir de um palácio construído no topo de um penhasco. E insinuei um verme de dúvida em sua mente altiva: talvez os humanoides que moravam aqui não fossem tão merecedores quanto ele pensava. Talvez não o respeitassem realmente nem seguissem suas leis, mas apenas fingissem. Talvez estivessem tramando se erguer e derrubá-lo, pois não passava ele de um tirano mesmo que se imaginasse benevolente? Não era isso que seus súditos sussurravam, quando tinham certeza de que ele não podia ouvir? Se ele enviasse agentes para cada canto e fenda do reino, eles poderiam reportar a ele e assim erradicar instigadores. Poderia oferecer recompensas para pessoas entregando traidores e pagar generosamente por pessoas bravas e audazes o suficiente para se voltarem contra seus próprios parentes. E se isso não fosse suficiente, então ele poderia queimar distritos suspeitos ou até cidades inteiras. Queimá-las. QUEIMÁ-LAS.

Com um último sorriso, envolvi-me em magia e parti de Dominária. As dúvidas que eu semeara criariam raízes, ou murchariam. De qualquer forma, Arcades não voltaria a me atribular. Jamais caminharia pelos planos. Não tinha o que era preciso. Apenas eu tinha.

Assim, você pode imaginar meu choque e minha alegria quando saí das eternidades cegas para dentro do lugar que passara a chamar de meu Reino de Meditação apenas para encontrar Ugin lá! Ele estava flutuando sobre as águas encarando-se como se pudesse imaginar nada melhor que olhar para o seu próprio reflexo.

"Ugin! Como é que você está aqui? Estou exultante por vê-lo, Irmão, pois temi tê-lo perdido para sempre."

Mas ele não teve palavras para mim. Teve apenas animosidade, impulsionada pela sua raiva e inveja e ressentimento e amargura, pela memória de risada zombeteira e condescendente. Pelo medo de eu revelar a verdade sobre coisas que ele não queria que outros soubessem, e que esses outros acreditariam em mim em vez de nele.

Ele atacou, viciosamente e sem aviso, pura fúria bruta e ressentimento maligno. Não tive escolha senão me defender. Primeiro sobre as águas largas do Reino de Meditação e então em um caminho selvagem e pummelling através dos planos, lutamos por dias, anos, gerações. Batallhamos com garra e dente e com magia. A luta enfureceu-se sem parar, pois ele era implacável, rejeitando todas as minhas tentativas de proposta de trégua. Tudo o que ele queria era me matar pelo crime de caminhar pelos planos antes dele. Seus corações estavam consumidos pela inveja do que eu não compartilhara com ele.

O que eu poderia fazer? Não havia como aplacá-lo.

Ao final, por diversos caminhos, retornamos ao Reino de Meditação. Ali, puramente em autodefesa, eu o matei.

Com um respingo imenso, ele caiu nas águas paradas. O impacto ressoou como trovão. Ondas monstruosas ergueram-se do deslocamento e varreram os ilhotas escarpados, chocando-se e destruindo conforme avançavam. As ondas correram sem parar, lavando muito além dos limites do Reino de Meditação para dentro da teia de conexão que liga os planos entre si e talvez até para dentro das eternidades cegas cujas profundezas nem dragões podem sondar. As ondas transbordaram para fora do Reino de Meditação como se a morte de Ugin tivesse, como um peso largado sobre uma tigela de cerâmica, aberto rachaduras no próprio vaso.

A violência das ondas varreu-me para fora do Reino de Meditação. Como uma lança lançada, fui arremessado através de dez ou vinte ou cem planos antes de cair duramente de volta em Dominária, sobre a cadeia de ilhas de Madara em uma época em que a memória das Guerras de Dragões Anciões desvanecera em lenda. Machucado e atordoado, lutei para recuperar minha força, mas a recuperei de fato. Muitas batalhas jaziam à minha frente, e as enfrentei com facilidade.

Claro, pequena Naiva, você deve estar interessada no longo curso da minha vida fascinante, e eu de bom grado lhe presentearia com o todo agora que a corrigi sobre a história falsa de Ugin. Mas sei que você acredita estar me distraindo do meu propósito aqui.


)

Ela não conseguia mais ver o céu, apenas seus olhos deslumbrantes e a curva brilhante de seus chifres com a gema-ovo girando mesmericamente entre as pontas.

O sorriso dele mostrava os dentes. Em um gole, ele poderia comê-la.

"Sempre me desencoraja," disse ele em uma voz bondosa, "que as pessoas sejam tão rápidas em pensar que nós dragões gostamos do gosto de carne humana quando na verdade não é do nosso gosto de jeito nenhum."

Sua cabeça baixou mais. Ela deu outro passo para trás mas não pôde se mover mais, presa contra os edros.

"O que você não entende é que tenho todo o tempo dos mundos, enquanto o seu tempo está acabando rápido. Agora. Onde está Ugin?"

"Ugin está morto."

"Assim acreditei quando o matei no Reino de Meditação. Parti, acreditando-o morto. Esse foi o meu erro. Porque de alguma forma, ele não estava morto. Ele vem me atormentando desde então, mais recentemente com um plano mal concebido para me prender em Ixalan por meio de um artefato mágico."

"Ixalan?" Ela grasnou a palavra, qualquer coisa para mantê-lo falando.

"O nome nada significa para você. É outro plano. Um que você nunca verá em sua vida inteira, curta, brutal e sórdida."

Lago das Terras Altas | Arte de: Noah Bradley
Lago das Terras Altas | Arte de: Noah Bradley

Seus membros estavam frios e seu coração estava lento, como se seu corpo tivesse decidido ser melhor colapsar em insensibilidade que enfrentar o poder estilhaçante de Nicol Bolas, o maior inimigo de Ugin. Mas ela não se encolheria.

"Ugin está morto." Ela forçou as palavras em um sussurro ríspido. "Seus ossos jazem bem aqui. Sob os edros."

"Ah. Hum." Seu estrondo a desorientou conforme seu olhar escaneava a formação serpenteando fora de vista além da curva do desfiladeiro. "Seu corpo em queda fendeu este desfiladeiro. Suponho ser possível que seus ossos realmente jazam aqui."

"O senhor não consegue ver os ossos?"

Ele bateu uma garra dianteira no chão, o som ecoando nas paredes do desfiladeiro. "Não me questione. É uma pena que os outros a considerem descartável, não é?"

"Descartável? Eles dependem de mim!"

"Você não pode ser tão ingênua, pequena. Sua avó a tolera apenas porque a acha útil em proteger a neta com quem ela claramente se importa, a que herdou os dons xamânicos. Você não tem magia, tem?"

"Sou uma caçadora!"

"Sim, sim, você é uma caçadora. Todos são caçadores. Mas sua irmã é uma xamã. Não há nada pior que descobrir que alguém que você ama se agarra firmemente a um dom que lhe negou. Que ela se recusa a compartilhá-lo com você. Que se espera que você a lisonjeie e a admire, quando na verdade, você é a valiosa. Você é quem alimentará a tribo nos anos que virão. Você é quem liderará o povo para as altas montanhas no verão e para as terras baixas durante o inverno. Você é a líder, sobrecarregada por esta irmã que você nunca pediu e não queria realmente. Continuam te segurando por causa dela, fazendo você vigiá-la, esperar por ela, não lhe dando as responsabilidades de batedora e caçadora que você conquistou com sua habilidade. Simplesmente não é justo. Se você estivesse livre dela, então poderia finalmente alcançar seu potencial, não poderia? Poderia finalmente tornar-se a grande caçadora e líder que merece ser. E eu posso ajudá-la com isso, Naiva."

Suas palavras, proferidas em tal tom suave e persuasivo, insinuaram-se em seu coração. O velho ressentimento faiscou. Todas as irritações de anos passados abriram caminho de volta para o primeiro plano de sua mente, latejando como uma dor de cabeça que apenas ele poderia acalmar. Mas ela não podia confiar nele. Agarrou-se àquele pensamento desvanecente. "Como o senhor pode me ajudar? Por que o senhor me ajudaria?"

"Porque se eu não a ajudar, então serei forçado a destruir Tarkir. Não seria uma pena? Especialmente já que você é a única que pode prevenir sua destruição."

"Por que o senhor destruiria Tarkir?" sussurrou ela roucamente, horrorizada e tremendo.

"Porque ele ama Tarkir. Mas principalmente para que não haja chance de ele renascer aqui." Ele pausou, então bufou uma brisa morna e suave, como magia, sobre seu corpo trêmulo. "Não se inquiete, Naiva. Não quero aniquilar este plano porque preferiria ajudá-la. Juntos, limparemos Tarkir de todos os seus inimigos, todos os dragões e todas as outras tribos. Você poderá caçar o mundo largo sem ninguém para ficar no seu caminho. Realizarei tudo o que você algum dia sonhou porque tenho esse poder, e eu o usarei em seu favor. Tudo o que você precisa fazer é me trazer Yasova. Agora."

Agora. A palavra reverberou em sua cabeça. Era verdade, afinal. Baishya fora sempre um fardo mais pesado que uma rede de goblins mortos. Quando a Avó morresse, nenhum grupo familiar arriscaria acolher uma sussurradora jovem e inexperiente cuja presença poderia fazer todos serem mortos. Por que deveria ser pedido a ela que desistisse de tudo o que queria apenas para proteger sua irmã? Os antigos caminhos nunca pertenceram a Naiva. Eram apenas obstáculos em seu caminho adiante.

"Ela está aqui. Bem aqui. Escondida."

O sorriso dele iluminou o mundo inteiro. "Busque-a para mim. Então você receberá sua recompensa."

Não havia futuro para ela em apegar-se ao passado. Tivera razão quando dissera a Tae Jin que os antigos caminhos eram um cadáver melhor consumido por abutres.

Comando de Atarka | Arte de: Chris Rahn
Comando de Atarka | Arte de: Chris Rahn

No entanto, quando pensava no jovem guerreiro de fogofantasma, em sua coragem e sacrifício, um estremecimento percorreu sua estrutura e rasgou uma fenda em sua certeza. O que diria Tae Jin quando soubesse que ela entregara a grande Yasova Garra de Dragão a Nicol Bolas?

"Pequena Naiva, você não deve acreditar que eu queira ferir Yasova. Quero ajudar. Apenas isso. Agora vá." A voz dele endureceu. Uma pressão acumulou-se em sua cabeça até ela pensar que seu crânio explodiria. "Agora ."

Ajoelhando-se, ela afastou o fragmento de edro quebrado e engatinhou para dentro. Ali, nos confins turvos e abafados do espaço, Baishya jazia como se adormecida, respirando regularmente. A Avó sentava-se de pernas cruzadas em meditação, olhos fechados, mão esquerda repousando aberta sobre uma coxa enquanto sua mão direita agarrava os dedos nus de Baishya com um fecho afetuoso. O gesto abriu um buraco de inveja direto através do coração de Naiva. A Avó sempre preferira Baishya. Amava-a mais do que amava Naiva.

Ela teria que arrastar a Avó fisicamente para fora. Mas aquilo poderia esperar. Puxando sua faca da bainha, pressionou a lâmina contra a garganta vulnerável de Baishya.

Crônica de Bolas: O Agora Não Escrito

Protegida dentro dos edros que cresceram sobre os ossos de Ugin, Naiva ajoelhou-se ao lado de sua irmã gêmea, segurando uma faca em sua garganta. Baishya estava perdida em um transe de sussurradora, olhos fechados, caída profundamente em uma visão que Naiva só podia compartilhar se estivesse tocando a pele nua de Baishya com a sua própria. A magia vivia em sua gêmea e era negada a ela. Inveja e raiva roíam suas entranhas até que ela não passava de estilhaços denteados.

Por que lhe diziam constantemente que tinha que proteger sua gêmea? Não era Baishya nada mais que um fardo e um perigo para a tribo? Seria melhor se sua irmã estivesse morta. Então ela nunca mais seria tratada como a menor porque seria a única. E nos anos vindouros, as pessoas esqueceriam que Baishya sequer existira; nunca precisariam saber que Naiva, a grande caçadora, um dia fora gêmea.

Uma linha fina de vermelho brotou ao longo da curva do pescoço de sua irmã.

No entanto, conforme Naiva respirava, lutando com os pensamentos ríspidos, uma quietude expandiu-se lentamente dentro das águas atribuladas de seu coração. A essência do Dragão Espírito pressionou sobre ela, clara e afiada, decepando o fio que a ligava à voz cruel que cortava desfiladeiros carregados de veneno em sua mente. Seu olhar caiu para onde uma faca estava agarrada em sua mão. Por que estava segurando uma lâmina contra a garganta de sua irmã?

"O que você está fazendo!"

Uma mão forte arrancou a faca de seus dedos e a atirou para o lado. Ela bateu com força contra a parede e atingiu a terra com um baque.

Piscando em confusão, ela virou-se para ver a Avó acordada e consciente. Yasova agarrou o queixo de Naiva e forçou seu olhar a encontrar o dela.

"Qual é o seu nome?" a Avó exigiu, examinando seus olhos.

"Sou Naiva," disse ela indignada, afastando-se. "A senhora já me esqueceu?"

"Claro que não te esqueci. Cortei vocês duas do corpo morto da minha filha com a faca que você estava segurando contra a garganta de sua irmã. Por que você não subiu para o santuário, como eu te disse?"

"Havia alguém na trilha — Mevra — não — um dragão — isso não pode ser — " Ela esfregou os olhos. Já os eventos recém-passados pareciam nebulosos e irreais, como uma história que ouvira anos atrás e não conseguia recordar bem.

"Ele te encontrou." A Avó estudou o casulo que as envolvia. "Os edros nos protegem do toque dele."

"Não entendo."

"O dragão que matou Ugin retornou."

Seus pensamentos dragaram as profundezas lentas, trazendo um nome à superfície. "Nicol Bolas."

"Sim. Ele usa seu toque para manipular os pensamentos e emoções de outros. Ele te disse para matar sua gêmea?"

Sua cabeça começou a doer. Quando ela apertou os olhos fechados, formas fantasmagóricas pálidas flutuaram como se tentando formar uma memória coerente. "Não lembro — não, não, espere. Devo levar a senhora, Avó. Ele quer a senhora."

"Ele me terá."

"A senhora não pode ir lá fora! Ele a matará."

"Isso é provável."

"Então ficaremos seguras aqui dentro até ele ficar entediado e ir embora."

"Você acha que ele se distrai tão facilmente quanto uma das crias de Atarka? Pois ele não se distrai. O que você acha que acontecerá se ele não me tiver?"

"Ele ameaçou destruir Tarkir. Ele consegue fazer isso?"

"Ele matou Ugin voltando as mentes de todos os dragões contra o seu próprio progenitor. Ele é um Planeswalker, antigo além da medida. Então sim, devo assumir que ele pode destruir Tarkir se decidir fazê-lo."

"O que eu fiz?" Lágrimas de vergonha correram por suas bochechas. "Nunca quis trair a senhora, Avó."

"Você não traiu nada. No entanto, por tudo o que tentei ensinar a vocês garotas, vocês não ouviram bem o suficiente. Entenda isto. Qualquer um de nós pode morrer a qualquer momento, e todos morreremos eventualmente. O que importa é que tenhamos tecido fios para nos conectarmos ao passado para não esquecermos nossos ancestrais e o que eles têm a nos ensinar."

"Vou lá fora e direi que não consegui encontrar a senhora!"

"Ele a matará e voltará sua ira contra Tarkir. Se nosso povo deve sobreviver, precisamos superá-lo em astúcia." Ela estudou os olhos fechados e a expressão serena de Baishya. "Talvez seja por isso que Ugin nos convocou."

"Ugin está morto."

"Sim. Ugin está morto. Ele não pode falar conosco da maneira comum. Ele não pode sequer falar através da Mente Sussurrante."

"Como Ugin saberia sobre isso?"

Ela ergueu uma sobrancelha. "Ele ensinou a habilidade aos xamãs entre nossos ancestrais."

Xamã dos Velhos Caminhos | Arte de: Tyler Jacobson
Xamã dos Velhos Caminhos | Arte de: Tyler Jacobson

"Ele deve ter aprendido a fala mental com o Bolas," Naiva murmurou raivosamente. "Por que deveríamos confiar no Dragão Espírito? Ele poderia estar nos manipulando todo este tempo também, não poderia?"

"Ele ensinou segredos diferentes para as outras tribos."

"Como o fogofantasma?"

"Sim. Compartilhando seus segredos entre os clãs, nenhum clã teria mais poder que os outros. O que Bolas lhe ofereceu em troca de me levar até ele?"

Ela deu de ombros, envergonhada demais para revelar as palavras que ele dissera, e os pensamentos horríveis que ela tivera. "Não sabia que eu era tão fraca."

"Você não é fraca. O poder dele é vasto. Pretendia contar a você e sua irmã a história completa quando vocês atingissem a maioridade, mas parece que você encontrou seu desafio agora. Então ouça cuidadosamente. Anos atrás, antes de você nascer, ajudei Bolas a rastrear Ugin porque ele me prometeu um fim para os dragões em Tarkir. Para minha vergonha, até lancei um feitiço que o ajudou a voltar as mentes dos dragões recém-nascidos contra Ugin. É importante que você saiba a verdade, que me foi prometido o que eu mais queria — o fim de todos os dragões — e eu cedi a isso. Só depois descobri que a promessa era uma mentira. Eu sou fraca?"

"Não!"

"Então nem você é."

Baishya dormia em seu transe, intocada e tranquila. Um surto de inveja atada retorceu-se através do ventre de Naiva; estava feliz por Baishya ter sido poupada desta cena terrível, porém por que sua gêmea era sempre a única a ser poupada das emoções cruas e do tumulto da vida?

"Ah. Vejo o que ele te prometeu. Você ressente sua gêmea."

"Eu a amo!"

"Sim. É possível tanto amar quanto ressentir alguém ao mesmo tempo. Mas vocês duas estarão sempre ligadas, não importa o que aconteça."

Naiva esfregou as lágrimas das bochechas, odiando como a faziam sentir. "A senhora estava segurando a mão dela. Viu a visão? A água e os globos estourando?"

"Não, não vi. Sua natureza como gêmeas deve lhe dar uma janela para o que quer que ela esteja vendo."

"O que ela está vendo, se Ugin está morto? Ou está ele apenas dormindo?"

"Seus ossos nos dizem que ele está morto. No entanto sua essência está contida nestes edros. Ele é a alma de Tarkir. Isso deve ser o porquê de xamãs poderem se comunicar com a parte dele que está enraizada em Tarkir, mesmo que ele esteja morto. Exatamente como temos nossas maneiras de nos comunicarmos com os ancestrais."

"Por que isso importa para nós? Por que não deixar Bolas ter o que quer para ele ir embora?"

"Não acredito que Bolas consiga destruir os edros. Mesmo que consiga, se ele destruir os edros, então a essência de Ugin será aniquilada. Se sua essência for destruída, então mesmo que a rocha de Tarkir permaneça, ela não terá mais uma alma. Aquilo será a morte de nosso povo e de toda Tarkir. Até dos dragões. Por mais que eu odeie os dragões, amo mais o meu povo. Não quero que eles pereçam, mesmo que signifique salvar os dragões."

Cadinho do Dragão Espírito | Arte de: Jung Park
Cadinho do Dragão Espírito | Arte de: Jung Park

Naiva contemplou o rosto de sua irmã. A expressão de Baishya era pacífica, mas os movimentos rápidos de seus olhos traíam que alguma parte de sua mente estava ativa.

"Os globos são memórias," disse Naiva.

"Segure a mão de Baishya novamente. Descubra o que Ugin está tentando nos dizer."

Naiva ressentia Baishya e sua magia e sua estranha certeza de propósito, tanto dinâmica quanto misteriosa. Por anos, sentira-se como se as pessoas a pensassem menor porque era apenas uma caçadora, e havia fartura de caçadores, enquanto sussurradoras eram raras e portanto preciosas. Fingira não invejá-la. Era um alívio ter a inveja azeda arrastada para o aberto, mesmo sendo tão repugnante. Sob os edros protetores, garra alguma da mente de Bolas poderia dilacerar seu coração. Por mais irritada que estivesse frequentemente com Bai, não queria imaginar o mundo sem ela.

Sorriu para o rosto de sua irmã, gêmeo do seu próprio, o espelho no qual olhara por toda a sua vida. Após um aceno decisivo para a Avó, agarrou a mão de Baishya. O mundo ao seu redor desapareceu conforme os penhascos reluzentes da mente dormente de Ugin a vincularam.


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A paisagem é uma folha prateada de água tão plana e refletiva quanto um espelho estendendo-se ao horizonte em todos os lados. Aqui e ali, ilhas rochosas como pináculos erguem-se do mar interminável, cada uma criando um lugar de repouso perfeito sobre o qual meditar.

Nenhum vento agita o ar, no entanto globos vislumbrantes e translúcidos flutuam como bolhas capturadas em uma brisa que nada mais toca.

Um destes globos deriva para perto, e mais perto ainda da sombra sonhadora da garota adormecida sobre as águas. Quando sua superfície frágil toca a borda de sua forma nebulosa, ele estoura. A fina esfera de líquido derrama memória na sombra de sua mente.


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Um dragão paira sobre as águas paradas, encarando seu reflexo, um espelho que olha de volta para si mesmo. O reflexo é tão completo em cada detalhe que poderia ser o dragão original olhando para um mar espelhado, e o dragão flutuando no alto poderia ser seu reflexo, completo em cada detalhe.

Embora este reino seja perfeitamente criado para a meditação, embora tenha repousado aqui por longos períodos para contemplar o mistério e a eternidade, Ugin não consegue acalmar seus pensamentos turbulentos agora. Estivera tão certo de que Nicol ficaria exultante em vê-lo, quereria que ele compartilhasse os detalhes maravilhosos de suas fascinantes jornadas através dos planos. Mas julgara mal. Ou talvez tivesse apenas julgado mal a si mesmo.

Nunca deveria ter deixado a montanha de nascimento, no entanto não fugira de Dominária de propósito. A centelha o tomara desprevenido. Arremessara-o para fora como um peixe fisgado e puxado para fora da água, o único lar que ele jamais conhecera, para ser jogado em margens desconhecidas. Não entendera o que acontecera até pousar em Tarkir, e então o senso de pertencimento e conexão que sentira por Tarkir o mantivera preocupado por tempo demais.

Buscar o Horizonte | Arte de: Min Yum
Buscar o Horizonte | Arte de: Min Yum

Estaria ele em falta? Ou fora apenas o modo como os eventos caíram? Talvez se tivesse ficado, os eventos tivessem se desenrolado da mesma maneira. Nicol sucumbira ao pior em si mesmo, e agora, pretendia infligir seu poder e raiva sobre toda a Dominária.

O arrependimento pelo que Dominária sofreria conforme os dragões iam à guerra uns contra os outros batalhava com o alívio de que Nicol estava preso lá. Incapaz de caminhar pelos planos, nunca poderia impor sua terrível visão de lei e justiça no restante dos planos. Aquilo era algo, ao menos.

Um clarão brilhante como o erguer de um segundo sol derrama um respingo de ouro através das águas paradas. Um uivo de raiva sunderas o silêncio pacífico.

Um corpo imenso cai como uma pedra atirada dos céus. Justo antes de atingir a água, Nicol Bolas abre as asas e ergue-se. Brilha tão intensamente quanto o sol, e a ira é a sua cor.

Com um uivo no vento e uma rajada abrasadora de fogo, ele mergulha assassino em direção ao seu irmão. Ugin encara, perplexo pelo ataque abrupto, pensando a princípio que pudesse ser um excesso de celebração jubilosa. Apenas quando as faíscas pungentes do fogo de Nicol lavam sua cabeça, empolando seus olhos, é que ele guina para um lado. Sua asa direita roça a superfície da água, cortando um sulco através de seu próprio reflexo. Ele se endireita, nivelando-se, e corre em direção ao arquipélago de ilhotas. Nicol o persegue. Sua fúria lhe concede uma força e velocidade que o exausto e luto-atribulado Ugin carece.

Fogo queima em suas garras traseiras. Um banho de magia cáustica como uma nuvem de veneno entorpece seus quartos traseiros. Ele esquiva-se entre as ilhotas. Explorou aqui frequentemente, repousou sobre estes afloramentos escarpados sob o céu prateado e suas luas plácidas. Sabe exatamente onde girar e virar, deixando Nicol ultrapassar o alvo com um bramido de raiva e virar-se desajeitadamente.

Mas Nicol entende o jogo rapidamente. Muda de tática, ascendendo para poder avistar Ugin de cima sem obstáculos rochosos em seu caminho.

O grito de Ugin esculpe ondas na água como se tivesse se tornado um vento poderoso. "Nicol! O que quer dizer com me atacar?"

"Você entesourou o conhecimento dos planos para si mesmo. Você mentiu para mim. Você me provocou com uma visão do tesouro que descobrira, e então maldosamente me abandonou."

"Voltei por você — "

"Você nunca voltou por mim. Apenas retornou para escarnecer de mim porque não conseguia estar contente a menos que estivesse certo de que eu sofreria pela eternidade sabendo que você ganhou um prêmio que eu nunca poderia tocar."

"Isso não é verdade. Não sabia — "

"Claro que sabia."

Nicol mergulha em direção à água, garras para fora. Conforme Ugin esquiva-se, ergue uma névoa densa da água para esconder seu movimento. Nicol arrasta um sulco através da água, e ondas ondulam em grandes volumes para fora então lentamente silenciam conforme Ugin considera o que fazer.

Batimentos de asas levam Nicol ao alto novamente. Ele começa a circular conforme a névoa lentamente dissipa-se. "Ugin! Não seja covarde demais para admitir sua traição. Terei minha vingança de qualquer modo."

Nicol Bolas, o Devastador | Arte de: Svetlin Velinov
Nicol Bolas, o Devastador | Arte de: Svetlin Velinov

Ugin viajou através do Multiverso com a maior curiosidade, observando conforme ia, recordando as lições de Te Ju Ki e o exemplo de Chromium Rhuell. Aprendeu a magia da descoberta, da investigação, do discernimento e até da defesa. O que não teve tempo de aprender foi a magia do ataque e assalto. Preferiria sempre conversar a lutar, construir a derrubar. Não pode vencer copiando a agressão de Nicol. Apenas astúcia, e um pouco de truque de dragão, podem salvá-lo agora.

"Como você obteve a centelha?" ele pergunta, porque saber o porquê pode ajudá-lo a entender no que Nicol se tornou.

"A centelha que você pretendeu reter de mim?"

"Nunca poderia ter lhe dado a centelha. Não a busquei. Ela veio a mim sem ser chamada."

"Assim você clama, mas não acredito em você. E agora a centelha é minha. Não a compartilharei com você. Não compartilharei os planos com um inimigo que me traiu."

"Não sou seu inimigo — "

Nicol mergulha novamente, silencioso e determinado.

Ugin toma o único caminho que lhe resta, mesmo que signifique que Nicol o marcará como fraco e covarde por isso. Caminha para fora do Reino de Meditação e através das trevas para cair na tempestuosa Zendikar. Dentro do tumulto de nuvens, desliza nos ventos da tempestade, certo de que pode ao menos recuperar o fôlego e pensar no que fazer em seguida, como escapar até Nicol se acalmar, como negociar, como convencer seu gêmeo de que fora ignorância e não malícia.

Mas Nicol está logo atrás dele, irrompendo nas trevas em um clarão de luz dourada. Novamente, Ugin caminha, e novamente, buscando um plano que o esconda apenas por um curto tempo. Da movimentada Kephalai à crescente Ravnica e assim por diante, ele foge com Nicol fungando em seu pescoço, nunca esmorecendo em sua perseguição.

Está ficando mais difícil para Ugin ver conforme seus olhos empolados desenvolvem pústulas, conforme o entorpecimento rasteja por suas extremidades a partir da magia que Nicol empunha. Ele curará com o tempo. Dragões têm esse dom. Mas não pode descansar, não pode comer, não pode fazer nada exceto correr. Conforme apressa-se para ficar à frente da animosidade inextinguível de Nicol, começa a sentir seus ferimentos consumindo sua força.

O anseio lampeja: poderia retornar a Tarkir, esconder-se onde sua alma se sente em paz, onde o mundo o acolhe e deseja curá-lo. Mas então a própria Tarkir torna-se vulnerável à raiva de Nicol. Ele preferiria morrer a deixar Tarkir ser deliberadamente destruída e, se alguém cometeria tal ato vil e sem remorso, Bolas o faria.

Conforme o pensamento o lava, vê em seu olho mental as águas paradas do Reino de Meditação. Vê a si mesmo refletido naquele espelho líquido, em cada detalhe. O que é o Reino de Meditação, realmente? É um mistério que ele ainda tem que sondar.

As sábias palavras de Te Ju Ki varrem sobre ele como um sopro de vento morno, com um perfume que acalma seus corações batendo tumultuadamente.

A morte não te assusta? ele perguntara a ela. E ela respondera:

Minha essência continuará a existir em outras formas. Todas as coisas terminam. Às vezes isso não é o mesmo que morrer.

Ele sabe o que deve fazer. Nicol nunca parará de persegui-lo, a menos que pense que seu gêmeo está morto.

Ele transplana de volta para o Reino de Meditação, onde espera, flutuando acima das águas paradas, ou talvez seu reflexo flutua, olhando para baixo para si mesmo. Está exausto no entanto animado por nova força, por uma certeza de que rejeitará o que Nicol se tornou.

Piscinas do Vir-a-ser | Arte de: Jason Chan
Piscinas do Vir-a-ser | Arte de: Jason Chan

Em um surto de luz, Nicol aparece alto no céu luzente. Mergulha, todo dente e garra. Em um flash de compreensão, Ugin vê como a malevolência está tecida através de todo o ser de seu gêmeo. Talvez fosse apenas uma minúscula semente dentro dele, há muito tempo; talvez Ugin ter partido permitiu que ela prosperasse e florescesse. O irmão com quem nascera, com quem voara — Nicol — fora inteiramente devorado por Bolas, o nome que Nicol deu a si mesmo porque só conseguia se medir contra outros. Talvez nada que Ugin pudesse ter feito teria mudado este resultado. Mas ele lamenta que tenha chegado a isto.

Com um suspiro, Ugin aceita sua morte. Ele solta.

Bolas ruge em triunfo conforme sua magia ondula em uma nuvem fumegante ao redor de seu odiado inimigo, conforme suas garras cortam fundo nos corações de seu inimigo batendo calorosamente, conforme seus dentes retalham a garganta desprotegida de seu rival.

Com um respingo imenso, Ugin cai nas águas paradas. O impacto ressoa como trovão. Ondas monstruosas erguem-se do deslocamento e varrem as ilhotas escarpadas, chocando-se e destruindo as rochas antigas. A perturbação lava muito além dos limites do Reino de Meditação, derramando-se na profunda e insondável cavidade escura cuja teia infinita conecta os planos entre si. O mar esvazia-se, expondo a rocha do leito marinho como ossos deixados para branquear ao sol.

Arrastado pela força pura e chocante do cataclismo, Bolas brilha como um sol e desaparece, arrancado para o plano de seu nascimento, caindo nas ilhas de Madara.

Onde outrora o reino estava preenchido com o silêncio da tranquilidade, agora está vago. Tornou-se um ermo de rocha, estéril e arruinado, toda a sua serenidade drenada para as frestas das eternidades cegas, um abismo que nunca pode ser preenchido.

Nada se move porque nada resta.

Um momento passa. Um ano. Uma geração.

Um milênio.

Ou talvez, tempo algum.

Uma pálida folha de líquido escorre como do nada, retornando da teia de escuridão não vista e intocável. Com silêncio misterioso, ela inexoravelmente sobe, reenchendo o reino com suas águas prateadas. Quando as águas cessam de subir, tornam-se paradas, e naquele espelho imóvel espera o reflexo do dragão.

Ele inala, puxando as águas para dentro de si. Elas se enrolam e espumam em cada fenda e ruga e escama e indentação até que seus chifres brilham e suas garras reluzem e seus olhos brilham com magia. Seria ele carne e osso, ou seria ele espírito e magia? Importa?

O dragão paira acima do leito marinho seco sob o céu luminoso.

Varre seu olhar pelo reino fraturado e sua paisagem estéril e quebrada. Este modo de destruição é a promessa que Bolas fez; é o que Bolas quer para qualquer coisa ou qualquer um que o desafie. Alguém deve se opor a ele, alguém que o conheça bem o suficiente para derrotá-lo. E Bolas não é a única ameaça contra o Multiverso.

Ápice do Poder | Arte de: Svetlin Velinov
Ápice do Poder | Arte de: Svetlin Velinov

Ugin tem muito a fazer se pretende proteger os planos.

Em uma ondulação de chama invisível, ele parte.


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O leito marinho seco jaz quiescente, vazio.

Bolhas começam a inchar uma por uma da própria rocha. Uma por uma, estouram. O líquido de sua superfície desliza para as cavidades e depressões no leito marinho vazio, e lentamente — oh-tão lentamente — o Reino de Meditação começa a se encher novamente com memórias perdidas.


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A água espera imóvel, calma, no entanto expectante, quase consciente. Outro globo gira até a sombra da garota adormecida e estoura.


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No Reino de Meditação, o deus-imperador empoleira-se no topo de um afloramento de rocha em meio às ruínas de um templo outrora belo cujas colunas e telhado foram atirados ao chão na época do cataclismo. Para Bolas, estas marcas de devastação são marcas de vitória. Suas asas, abertas, lançam uma sombra sobre as águas. Não consegue recordar exatamente onde Ugin caiu, mas caiu de fato, e agora as águas opacas tornaram-se seu túmulo.

Este, o local de seu maior triunfo, é um lugar apropriado para ele ruminar sobre seus planos. Para dar a si mesmo um ponto focal no qual centrar sua meditação, escolhe um ponto no centro de um vasto espaço onde nenhuma ilha rompe a superfície. Ali, ergue dois chifres curvos gigantescos para que emerjam das águas como se um dragão gárgula jazesse adormecido por baixo, o corpo escondido da vista. Quando termina, o céu brilha com um contentamento que condiz com o seu próprio.

No entanto, um resquício de descontentamento arranha sua satisfação. Retalho por retalho, a máscara de vitória descasca para revelar a semente de rancor por baixo. Nem toda a Dominária se encolhe sob o seu governo. Tem inimigos tolos o suficiente para acreditarem que conseguem derrotá-lo. Além disso, tantos planos aguardam sua presença. Como ele agraciará a todos com sua magnificência? Como provará que não é o menor, que foi o primeiro, o melhor, sempre?

O desafio surge diante dele como os penhascos de uma montanha altíssima, como a vastidão de um desfiladeiro que abrange planos, como as tecelãs espadas e lanças de um exército que massacra mundos. A bocarra insaciável de sua ambição devorará a todos.


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A água espera imóvel, calma, no entanto expectante, quase consciente. Outro globo gira até a sombra da garota adormecida e estoura.


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Em uma grande cidade de vidro e pedra, uma criatura alada com o rosto barbado de um homem e as patas graciosas de um grande gato saúda o Dragão Espírito.

"Ugin, meu amigo, bem-vindo ao meu mais novo lar. O que o traz a este plano?"

Azor, o Legislador | Arte de: Ryan Pancoast
Azor, o Legislador | Arte de: Ryan Pancoast

"Quando nos encontramos pela última vez, discutimos nosso inimigo comum. Cada mundo está em perigo, enquanto nosso inimigo estiver livre e inteiro. É por isso que estou aqui. Elaboramos um plano para livrar o Multiverso de sua influência, mas não consigo fazê-lo sem você."

"Para capturá-lo e prendê-lo, você primeiro terá que atraí-lo para um local específico."

"Vou atraí-lo para Tarkir."

"Não é o plano de Tarkir o lar da sua alma? Tal esquema não coloca a própria Tarkir em perigo?"

"É por isso que ele virá e não suspeitará de nada. Ele acredita que eu nunca arriscaria Tarkir."


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A água espera imóvel, calma, no entanto expectante, quase consciente. Outro globo gira até a sombra da garota adormecida e estoura.


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O Dragão Espírito plana em meio a uma tempestade, nuvens de trovão surgindo ao seu redor conforme os ventos estrondam e rugem. Ele está esperando. Um clarão de luz anuncia a chegada de Nicol Bolas, seus chifres curvos agora adornados com uma gema flutuando entre eles como um terceiro olho que vê apenas o que lhe falta, o que ainda não possui.

Os dois dragões anciões enfrentam-se, circulando conforme a tempestade cria um funil de ventos furiosos ao seu redor. Estão equilibrados, um armado com astúcia e o outro com sabedoria. O Dragão Espírito sabe ser impossível matar Bolas diretamente. Por isso elaborou este plano elaborado com seu aliado: sua única chance é prender seu inimigo para que nunca mais possa transplanar. Para fazer isso, deve manter Bolas aqui em Tarkir até que o dispositivo mágico possa ser ativado.

Com um rugido, ele desperta a força da alma de Tarkir. Dragões afluem de todo o plano em resposta ao chamado de Ugin. Mesmo com esta vantagem em números, o Dragão Espírito não ataca. Isto é tudo um fingimento, para atrair Bolas, para fazê-lo esquecer de ser cauteloso.

No entanto, mesmo os planos mais bem traçados podem rachar. Bolas volta os dragões de Tarkir contra seu próprio progenitor e, quando seu inimigo foi enfraquecido pelos ataques deles, ele quebra o corpo de Ugin com um golpe mortal. O Dragão Espírito despenca em direção ao solo. A força de seus impactos esmaga um desfiladeiro na rocha que altera a paisagem. As reverberações da destruição rolarão por anos e gerações e milênios através do Multiverso.

Vitorioso, Bolas desaparece em um surto de luz.


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A água espera imóvel, calma, no entanto expectante, quase consciente. Outro globo gira até a sombra da garota adormecida e estoura.


)

Em uma grande cidade de vidro e pedra, uma criatura alada com o rosto barbado de um homem e as patas graciosas de um grande gato saúda o Dragão Espírito. É a mesma memória, repetida exatamente.

"Ugin, meu amigo."


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A caçadora sabe quando pegou sua presa. Uma forma escura corta a sombra da garota adormecida. Uma mão de cinco dedos dobrada em forma de garra estende-se para dentro da sombra da garota e a arranca da visão.


)

Naiva deu um solavanco para cima.

"Ai! Solta!" Sua irmã sacudiu a mão de Naiva e esfregou o ombro. "É como se você tivesse arranhado meu coração!"

"Você viu?" Naiva exigiu.

Baishya esfregou o rosto, sacudiu-se e soltou um suspiro. "Vi para dentro de um oceano de memórias. Você viu também, Nai?"

"Sim. Através de você."

A Avó ainda estava sentada de pernas cruzadas, observando atentamente. "Contem-me."

Falando em uma pressa, uma pegando onde a outra pausava para tomar fôlego, as duas garotas descreveram o que tinham visto. Quando terminaram, a Avó considerou em silêncio por alguns fôlegos, revolvendo o que haviam dito. Então assentiu em seu modo decisivo.

"O Dragão Espírito não esqueceu Tarkir. Temos uma chance de desviar o Bolas. Uma chance desesperada. Eu a tomarei."

Ugin, o Dragão Espírito | Arte de: Raymond Swanland
Ugin, o Dragão Espírito | Arte de: Raymond Swanland

"A senhora pretende se render a ele?" Naiva exigiu.

"Pretendo."

"Mas ele já manipulou a senhora uma vez."

"Sim, por isso estou preparada desta vez. Não serei tão vulnerável."

"E se ele matar a senhora?" Baishya perguntou, com a voz falhando enquanto agarrava a mão de sua avó.

"Não temo a morte. Ajudei a trazer isto, então é apropriado que ajude a terminar."

Naiva puxou a mão da gêmea para longe da avó. "Você ficará aqui dentro, Bai. Tem que ficar segura porque quem mais consegue se comunicar com o Dragão Espírito?"

"Não," disse a Avó. "Bolas cravou as garras em você, Naiva. Não te culpo por isso, mas Baishya vestirá o seu manto e sairá em seu lugar."

"Que diferença isso fará? Se ele invadir a mente dela ou a mente da senhora, ele verá que não sou eu."

"Talvez. Mas ele é arrogante. E ele nunca viu Baishya, então pode não acreditar que precisa sondar mais fundo já que certamente acredita que controla você. É uma chance que temos que tomar."

"Consigo fazer isso, Nai," disse Baishya. "A segunda coisa que uma sussurradora aprende é como desviar magia."

"Ele é poderoso demais. Matará as duas."

"Ela precisa apenas desviar o toque dele o suficiente para semear uma semente de dúvida, exatamente como ela vestir o seu manto suavizará a suspeita dele," disse a Avó.

"E o escudo de edros oferecerá um pouco de proteção, como uma extensão do adorno de cabeça de uma sussurradora," Baishya acrescentou.

"Sim," concordou a Avó. "Agora faça como eu digo."

Naiva tomou um fôlego calmante e o soltou com um sibilo misturado de frustração, raiva, medo e resolução. As garotas trocaram mantos.

A Avó as examinou. "É afortunado que vocês usem o cabelo da mesma forma."

"Espere." Naiva arrancou o colar que vestia, enfiado no dente de um urso que matara aos dezesseis anos, e o colocou no pescoço de Baishya. Então abraçou a irmã. O medo se alojara sob suas costelas como uma ponta de lança, mas agora que a decisão fora tomada, sua mente podia focar na caçada. Entregou sua lança. A Avó e Baishya engatinharam para fora pela abertura baixa, deixando-a para trás no espaço do tamanho de uma tenda inteiramente cercado pelas paredes do casulo de rocha. Seus passos rasparam na terra conforme caminharam para frente.

Não conseguia suportar esperar em ignorância, então ajoelhou-se ao lado da abertura, ajustando sua posição para poder espiar para fora sem ser vista de fora.

A Avó e Baishya estavam na sombra do dragão. Um bufo de fogo, um golpe de garra, uma explosão de magia as mataria facilmente, no entanto não se encolheram nem se arrastaram.

Nenhum ouvinte poderia confundir o estrondo triunfante das palavras do dragão.

"Yasova Garra de Dragão. Você me serviu bem."

"E você, Nicol Bolas, agiu exatamente como o Dragão Espírito sabia que você agiria." A Avó lançou sua lança de palavras sem hesitação. "Você pensa que é o enganador, mas ele o enganou."

A sombra ondulou conforme o dragão moveu-se inquieto. Em um tom mais afiado, ele disse, "O que você quer dizer?"

"Você voltou para ver se ele estava realmente morto."

Faíscas lampejaram pelo chão em uma chuva mortal de aviso. "Claro que ele está morto. Eu o matei."

"A última vez que você pensou ter matado ele, ele te enganou. Estou aqui para te dizer que ele te enganou de novo."

"Por que você mente?" gritou o dragão. "Eu o vi cair! Vi o corpo dele atingir o solo. Sua própria neta o confirmou. Pequena Naiva, não é verdade? Ugin está morto!"

Túmulo do Dragão Espírito | Arte de: Sam Burley
Túmulo do Dragão Espírito | Arte de: Sam Burley

"Se o senhor tem tanta certeza de que Ugin está morto, por que retornou a Tarkir?" disse Baishya em sua voz mais desdenhosa, a que geralmente irritava Naiva fora de toda a razão. Ouvi-la voltada para um Planeswalker estupendamente poderoso, que poderia aniquilar avó e neta com o mais mero toque de magia, fê-la apreciar a coragem quieta porém afiada de sua gêmea, tão diferente de sua própria audácia impetuosa. No entanto, quem era a audaz agora? Não Naiva, escondida dentro do espaço cavernoso dentro de um edro enquanto outros enfrentavam o dragão.

Baishya prosseguiu no mesmo tom provocador. "O senhor não consegue admitir que voltou para garantir que ele estivesse morto de verdade desta vez, após ele ter te enganado da última vez."

A sombra arrancou-se, desaparecendo conforme o dragão voou. Naiva jogou-se estatelada no chão, esticando o pescoço para poder ver o céu e as paredes do desfiladeiro. Sua forma física desaparecera de vista, mas sua magia irrompeu em uma exibição estalante de relâmpagos bem no alto seguida por quatro estrondos massivos de trovão. Um vento mágico soprou do alto, forçando a Avó e Baishya aos joelhos. Os edros estremeceram sob o vendaval. O vento era tão forte que o óvalo de rocha fina parecido com escama que haviam usado antes para cobrir a abertura foi atirado lateralmente para bloquear a visão de Naiva, deixando apenas um vão da largura de um dedo para deixar entrar luz e ar.

Tão subitamente quanto surgiu, o vento enfurecido morreu. Uma escuridão espalhou-se pelo chão com o retorno do grande dragão. Embora não conseguisse vê-lo, cada fibra do seu ser sentia sua presença massiva e malévola como uma garra em sua garganta. Tentou inalar um fôlego mas engasgou em vez disso em um terror venenoso e consumidor. Perderia a ambas. Se corresse agora, poderia golpeá-lo, distraí-lo enquanto as outras duas corriam para a segurança dos edros. Ela seria a audaz, a caçadora feroz, exatamente como sempre soubera que deveria ser seu lugar de direito na tribo.

Empurrou-se para uma posição agachada, preparando-se para empurrar a laje para o lado e lançar-se contra o inimigo.

Em vez disso, parou, forçando-se a respirar mais devagar.

Talvez a Avó temesse que mesmo com a proteção dos edros, Naiva fosse fraca demais para ser confiada. Ou talvez o medo de que sua amada avó não a valorizasse fosse sua própria fraqueza falando, um inimigo que apenas ela poderia derrotar. Tinha que confiar na mulher que a criara, que salvara o povo Temur da ira de Atarka.

Mãos cerradas, ela focou seus pensamentos. Por mais difícil que fosse fazê-lo, tinha que aceitar que sua parte na caçada de hoje não era lançar a lança mas sim permanecer escondida.

Conforme o grande dragão exalou em raiva, um banho de calor pungente rodopiou através da fresta estreita e para dentro da minúscula câmara sob os edros. "Não brinque comigo. Posso matar as duas num piscar de olhos. Depois disso, devastarei jubilosamente Tarkir até que nem mesmo o menor inseto rasteje sobre sua superfície arruinada."

"Então prossiga com isso em vez de se vangloriar," respondeu a Avó em seu tom brusco de sempre. "Mate-nos se quiser, arrase e arruíne Tarkir se escolher, porque não faz diferença alguma para o plano de Ugin. Sempre haverá um poder maior que o que você empunha."

"Eu sou o poder maior!" Sua voz trovejou, rachando rochas. "Como você logo verá, Yasova Garra de Dragão, quando sua própria neta amada cravar uma faca no seu coração. Faça, Naiva. Eu te comando! Mate-a, e eu lhe concederei tudo o que você deseja, o domínio sobre este mundo para tornar-se seus campos de caça particulares. Você será a primeira e a melhor, sempre."

As palavras cravaram-se no coração de Naiva como um desejo secreto e venenoso. Primeira e melhor, sempre. A Avó deveria estar treinando ela para tornar-se líder depois dela em vez de desperdiçar seu tempo com Baishya e as outras xamãs. O caminho delas estava morto, como Ugin. Deveria estar morto, e ela poderia matá-lo de uma vez por todas.

Precisava apenas empurrar a laje de rocha para o lado e engatinhar para fora. Baishya nunca fora tão forte fisicamente, então seria fácil arrancar a faca da mão da irmã. Pressionaria a faca contra a garganta da Avó, sentiria o trovão de seu pulso, a vulnerabilidade de seu coração batendo.

O grande dragão inalou um fôlego expectante. Seu prazer em assistir o amor tornar-se ódio, lealdade em traição, espalhou-se como um calor devorador sobre a cena.

Seus dedos tocaram o escudo de rocha granulada, prontos para empurrá-lo para o lado.

A voz de Baishya a esbofeteou como um vento gélido. "Talvez eu não queira caçar. Talvez nada do que o senhor oferece me tente, porque por tudo o que ouvi, o senhor está preso no passado, circulando ao redor e ao redor da sua rivalidade com Ugin — "

Nicol Bolas, o Erguido | Arte de: Svetlin Velinov
Nicol Bolas, o Erguido | Arte de: Svetlin Velinov

"Não estou preso!"

"Está prestes a ficar," a Avó interrompeu bruscamente.

Naiva puxou a mão de volta, dentes cerrados conforme lutava contra um desejo feroz de lançar-se para frente. Para o plano funcionar, ela tinha que permanecer escondida. Tinha que.

"Você está parado exatamente onde os edros concentram força mágica em um nexo de grande poder," a Avó prosseguiu. "O Sol Imortal está apontado para cá, exatamente para este ponto em Tarkir. Ele o arrastará para outro plano e, lá, o prenderá por toda a eternidade. Por que você acha que o mantivemos falando todo este tempo? Para que ele possa ser ativado, e você nunca mais caminhará pelos planos."

Se ele fosse arrancado de Tarkir, não poderia torná-la a primeira e a melhor entre os caçadores. Apenas ela poderia pará-las, e só então conseguiria o que sempre quisera, o que merecia. Novamente, pressionou uma mão, dedos espalhados, contra a superfície lisa da laje, pronta para empurrá-la para o lado. Um pulso resfriante de calma correu pelo seu braço. Sua vibração estabilizadora verteu uma luz severa nas profundezas de sua alma.

Era o desejo mesquinho e egoísta de uma criança que a impelia. Ela era melhor que isso. Ela seria melhor que isso. Tremendo, fechou a mão em um punho e o enfiou contra a garganta enquanto engolia o sabor rançoso de seu ressentimento e inveja.

Lá fora, como que em reação àquele movimento não visto, a Avó inalou audivelmente, como em antecipação e suspense. "Ah! Ouça! Você ouve o zumbido do artefato, Naiva?"

"Eu ouço!" gritou Baishya no tom mais falso que Naiva já ouvira, mas como o dragão saberia disso quando não conseguia sequer distinguir as gêmeas? "Exatamente como Ugin disse que aconteceria! Olhe para cima! Você vê a luz? Um segundo sol nos céus!"

Um rugido de fúria chacoalhou os edros. Solta pelo tremor, a laje de rocha parecida com escama inclinou-se, balançou e caiu lateralmente para desbloquear a abertura justamente quando a vasta sombra se ergueu. Rochedos despencaram da borda sobre o solo aberto onde a Avó e Baishya estavam. Uma avalanche de rocha e gelo fustigou os edros indestrutíveis, estilhaçando-se em fragmentos que voaram através do vão contra o rosto de Naiva para retalhar suas bochechas. Puxou o manto da gêmea sobre a cabeça para proteger-se. Poeira ferveu para obscurecer a cena além até que ela nada conseguia ver exceto um redemoinho escuro estonteante que preenchia o mundo. Ele golpeara, e aqueles que ela mais amava seriam aniquilados, e depois deles, toda a Tarkir — e ela com ela.

A luz lá fora mudou de cor com um clarão dourado severo que a cegou. O ar rodopiou para fora da abertura, puxando a sufocante rajada de poeira de volta para fora.

De alguma forma, ela não estava morta ainda. Seu coração ainda batia.

Lentamente, em silêncio agourento, as partículas assentaram. Seus lábios estavam irritantemente imundos, cobertos com uma areia de gosto fétido. O silêncio pesava horrivelmente, como o fim de toda esperança, o arrependimento doentio de que tivesse levado tão pouco para o dragão manipulá-la. A Avó tivera razão sobre sua fraqueza.

No entanto ainda seu coração batia. Resistira à magia de Bolas e permanecera dentro do edro. Tarkir não fora assolada e quebrada.

Cautelosamente, baixou-se para espiar pela abertura.

Neve derretida dos edros angulados pelo calor pingava no chão em pequenos baques e tiques. Esfregou os olhos ardentes conforme as sombras e o brilho do mundo gradualmente voltavam à vista. Raspando as mãos, engatinhou para fora sobre um monte deslizante de pedras quebradas para dentro de uma clareira metade cheia com os detritos mortais. As paredes do desfiladeiro erguiam-se solidamente acima dela, vigiando os edros intocados. O céu brilhava em um azul radiante, o sol ardendo alto no alto em indiferença magnífica exatamente como fazia em cada dia ensolarado.

O dragão desaparecera. Mas ela estava sozinha.

A Avó salvara Tarkir, mas ao custo das vidas dela e de Baishya.

Estupefata, balançou para trás, batendo na parede de edro. Suas pernas cederam e, incapaz de se deter, deslizou até o chão. O que ela fizera, estupidamente se encolhendo dentro do edro? Por que não agira, lançara-se contra o dragão?

Mas ela sacudiu os pensamentos inúteis. A chance de morte fora parte do plano. Não teria funcionado de outra forma. No entanto ela não conseguia respirar, pensando em como teria que caminhar adiante pelo mundo sem sua gêmea ao seu lado. Seu coração estava rasgado em dois, mas de alguma forma, tinha que se levantar e encontrar os outros. Apenas não agora. Não conseguia encontrar a força ainda.

Um arrastar fraco quebrou o silêncio. Soou exatamente como um pé deslocando-se na terra, mas não havia ninguém exceto ela na clareira, apenas um monte de pedras imensas. Alguém tossiu.

Sobressaltada pela adrenalina, saltou com a faca na mão. Um rochedo grande deslocou-se com um estrondo profundo e de moagem. Rangeu lateralmente para revelar a Avó e Baishya de pé, vivas, em um minúsculo bolsão de espaço feito por vários rochedos compactados juntos. Um brilho poderoso de magia desvaneceu dos braços estendidos de sua gêmea conforme Baishya pendeu para frente.

Mal capaz de respirar pela poeira nos pulmões e pela esperança sufocando seu coração, Naiva escalou temerariamente até elas, esgravatando e deslizando em rocha solta até alcançar a mancha de solo intocado. Agarrou sua gêmea por trás, segurando-a. Sua gêmea estava morna. Respirando.

"Você usou sua magia para segurar as pedras!" gritou ela, porque era a única coisa que conseguia pensar em dizer. Lágrimas cortavam trilhas em seu rosto manchado de poeira e riscado de sangue.

Marcas Rúnicas dos Temur | Arte de: Chris Rahn
Marcas Rúnicas dos Temur | Arte de: Chris Rahn

"Ele se foi?" Baishya sussurrou, apoiando-se confiantemente na irmã.

"Ele se foi," disse a Avó. "Não podia arriscar ser um blefe."

"Tive certeza de que ele as matara!" Naiva começou a tremer conforme o impacto total a atingiu. Baishya: morta. Mas não morta. Estava viva. Haviam sobrevivido.

"Foi um risco," concordou a Avó. "Mas ele sabia que se eu estivesse dizendo a verdade, então mesmo tomar o tempo para voar para baixo para nos golpear com suas próprias garras poderia ser tarde demais para ele. Acredito que ele teve certeza de que a avalanche criada por sua partida nos mataria."

"E a senhora estava dizendo a verdade de certa forma," disse Baishya. "Houve uma trama para prender Bolas usando o Sol Imortal. Exceto que Ugin morreu antes de poder colocá-la em movimento."

"O Dragão Espírito está mesmo morto?" Naiva estudou a superfície sem marcas dos edros, pensando na plenitude vívida das memórias que as garotas haviam compartilhado. Como era possível que a recordação pudesse passar dos mortos para os vivos tão fortemente?

"Todas as coisas terminam," disse a Avó. "Às vezes isso não é o mesmo que morrer."

Um estalo de som fez suas cabeças subirem. Rocha solta quebrou da parede inferior do desfiladeiro e deslizou ruidosamente pelos edros para cobrir a abertura para a câmara onde ela se escondera. Mais estalos e estouros craquelaram ao redor delas, ecoando entre os altos penhascos.

"Precisamos sair daqui," disse a Avó.

Escolheram cuidadosamente o caminho para fora do campo de destroços até onde a trilha emergia da zona de avalanche, parando ali para novamente recuperarem o fôlego.

Um tapa de passos correndo ecoou de cima. Naiva agarrou sua lança de sua irmã e colocou-se em uma posição agachada, lança erguida, então relaxou conforme seus companheiros surgiram à vista. Tae Jin corria na frente, sua lâmina de fogofantasma brilhando com uma luz formidável.

"Apague essa lâmina!" disparou a Avó. "É uma bandeira que trará cada dragão sobre nós."

Obediente ao comando de sua anciã, o jovem recolheu a magia para dentro de si, e a lâmina dissolveu-se como névoa sob o sun de verão. Então olhou para Baishya, que vestia o manto e o colar de Naiva. Assentiu educadamente para ela e apressou-se até Naiva.

"Você está bem, Naiva?" perguntou ele com um olhar atento que a fez corar calorosamente. "Você deve ter enfrentado o dragão sozinha!"

"Não sozinha, porque sempre tenho minha gêmea. Mas como você soube que era eu? Trocamos de mantos."

"Sim, estou vendo. Suponho que você tenha tido algum motivo de caçadora para isso. É verdade que quando nos conhecemos pensei que vocês duas parecessem exatamente iguais. Mas agora caminhamos juntos por alguns dias. Não te confundiria com sua irmã nunca mais."

"Por que seu rosto está tão vermelho, Nai? Sol demais?" exigiu Baishya com um esgar. Piscou para Tae Jin como piscaria para um primo, e ele corou também, mas não se moveu de perto de Naiva.

A Avó olhou de um para o outro, sem emoção no rosto, antes de voltar-se para seus quatro caçadores leais. Mattak, Oiyan, Rakhan e Sorya encaravam os destroços que enterravam o espaço aberto e a abertura do edro, o único resíduo visível de uma batalha titânica vencida com palavras e truques em vez de força e lâminas.

"Foi uma ilusão?" Mattak perguntou. "Nunca vi um dragão tão imenso, e tão magnífico."

"Magnífico de fato," disse a Avó. "Espero que a ameaça da armadilha de Ugin signifique que nunca mais o veremos."

"Se ao menos pudéssemos tê-lo convencido a matar os dragões soberanos antes de partir," Naiva murmurou.

"O caminho dos 'e se' leva apenas à miséria," disse a Avó. "Uma criatura como aquela não faz favores para outros, apenas para si mesma. Além disso, como sei bem eu mesma, quando você tenta moldar sonhos egoístas em realidade, são as consequências que você não espera que te atingem mais forte. Ficamos com o que já tínhamos. Aceitarei isso com gratidão. Onde está Fec?"

O som irregular de um último conjunto de passos foi sua resposta. O orc chegou por último, segurando um cinzel fino em uma mão e um chifre na outra, suas espadas embainhadas no suporte em suas costas.

"Você ia atacar o dragão com o cinzel ou com o chifre?" a Avó perguntou com um levantamento sardônico de sobrancelha.

"Foi imediatamente óbvio para mim que tal dragão não poderia ser derrotado por nossa magia pífia," Fec disse. "Então pensei que a surpresa poderia funcionar onde as armas não funcionariam."

Ela riu discretamente.

"No entanto o dragão se foi, e a senhora está viva," Fec acrescentou.

"Contarei a história quando estivermos descansando sob o ressalto, fora da vista de dragões errantes. Atarka e Ojutai enviarão crias para investigar os eventos estranhos de hoje." A Avó começou a subir a trilha. "Garotas! Venham!"

Lado a lado apressaram-se atrás da Avó.

Naiva estava quase delirante demais de alegria para pensar, porém transbordante de energia demais para permanecer em silêncio. Então, proferiu a primeira pergunta aleatória que lhe voou à mente. "E quanto ao fígado e corações da cria? Vamos buscá-los em nosso caminho para casa?"

"Sim," disse a Avó.

Justo quando Naiva começou a perguntar para que os órgãos seriam usados, Baishya interrompeu sem fôlego.

"A senhora acha que eu poderia aprender a caminhar pelos planos? Ou é uma magia reservada apenas para dragões?"

"Não apenas para dragões, já que conheci um Planeswalker antes de você nascer. Parecia em muitos aspectos tão humano quanto você ou eu, e era especialmente desrespeitoso e um tanto tedioso quando choramingava e implorava," disse a Avó com uma tosse de desagrado.

Sarkhan, Sangue de Fogo | Arte de: Grzegorz Rutkowski
Sarkhan, Sangue de Fogo | Arte de: Grzegorz Rutkowski

Mas foi mais que uma tosse. Estava ficando sem fôlego conforme subiam a trilha íngreme em direção à borda do desfiladeiro e teve que se apoiar pesadamente em sua lança quando nunca precisara de sua ajuda antes. Onde outrora parecera atemporal, a jornada difícil e o confronto com o poderoso Bolas a haviam exaurido. Talvez não morresse este ano, ou mesmo em cinco anos, mas a mortalidade fincara suas garras nela. O conhecimento afundou seu peso no coração de Naiva como uma pedra. No entanto agora ela também entendia que Yasova Garra de Dragão não temia a morte para si mesma, apenas a aniquilação de seu povo.

"Está na hora de vocês duas garotas entenderem suas próprias responsabilidades e quanto repousa nos ombros de vocês jovens," a Avó prosseguiu. "O clã Temur não deve morrer, mesmo que deva dormir, como Ugin, escondido até que possa acordar novamente. Só pode acordar se restarem memórias para guiá-lo."

"Como podem os entalhes ser suficientes?" Naiva perguntou.

"Suficientes para quê? Nada pode permanecer igual ao que era nos dias da minha juventude, ou da sua, uma vez que você seja velha. A mudança é mestre de todos nós."

Alcançaram o ressalto. Mattak e Oiyan voltaram para fora para servirem de sentinela, enquanto Rakhan e Sorya puseram um pote para ferver sobre uma fogueira. A Avó sentou-se exausta em uma pedra, deixando suas netas paparicarem-na de uma maneira que ela nunca teria permitido no passado, quando ela cuidava delas, criando-as de bebês até a beira da vida adulta. Tiraram o manto dela, arrumaram seu cabelo, limparam terra e suor de seu rosto, e a acomodaram com uma infusão quente para aquecer suas mãos e fortalecer seus pulmões.

Tae Jin deu um olhar a Naiva. "O que posso fazer?" perguntou ele suavemente.

A Avó gesticulou, indicando que o jovem deveria sentar-se ao lado dela. Fec acomodou-se do outro lado da fogueira e dispôs uma fileira arrumada de instrumentos de entalhe em um banco de rocha. Começou a trabalhar no chifre que estivera carregando, um que seria adicionado à coleção de ossos entalhados escondida nas cavernas.

"Tae Jin, você é bem-vindo a ficar conosco, se é o que deseja," disse a Avó.

"Preciso retornar ao meu mestre. Ele tem mais para me ensinar. Depois, será minha responsabilidade passar meu conhecimento para aqueles que virão depois de mim, para que o Caminho Jeskai não morra." Olhou para Naiva, suspirou, e deu um leve balançar de cabeça. "Este é o meu dever, não importa o que mais eu pudesse desejar."

"Sim, claro que é," disse a Avó bruscamente conforme Naiva torceu as mãos mas nada disse. No mundo severo dos clãs, o dever vinha sempre primeiro. "Ugin enviou você aqui com uma história para nos contar com a esperança de que pudéssemos usá-la para expulsar Bolas de Tarkir para sempre. Mas essa não é a única razão de Ugin ter enviado você. O Dragão Espírito entendeu as lições ensinadas a ele pela velha sábia Te Ju Ki. Isto não é apenas sobre Ugin, e Bolas. Isto é sobre os Temur, e os Jeskai, sobre todos os clãs em Tarkir. Lembro-me de todos eles, enquanto vocês jovens nunca conheceram aquele mundo. Nossos dragões soberanos pretendem aniquilar o conhecimento de tudo o que veio antes. É por isso que devemos fazer tudo o que pudermos para salvaguardar o coração de nossos ancestrais."

Ela estendeu um braço. Fec colocou o chifre nele. Girando o chifre, ela exibiu um belo entalhe, recém-começado, de duas garotas paradas em uma encosta íngreme de montanha.

"Algum dia, talvez muito à frente no agora não escrito, pessoas nascerão que encontrarão esta história, e ela transformará sua compreensão do mundo."

Devolveu o chifre a Fec. Ele voltou ao trabalho com facilidade de concentração e perícia consumada.

Baishya cutucou Naiva e sussurrou: "Eu disse a você que a Avó o acolheu na tribo por um motivo."

"Preciso retornar a Ayagor e caçar para Atarka. Acima de tudo, ela deve acreditar que matou todas as sussurradoras. Ela nunca deve suspeitar da existência da Mente Sussurrante. Fazemos o que precisamos para sobreviver. Por ora, vocês garotas ficarão aqui."

"Mas a abertura para os edros está bloqueada," Naiva objetou.

"Com cuidado, pode ser escavada. Baishya, você deve ver se Ugin continuará a se comunicar com você através do oceano de memórias. Fec registrará o que quer que você veja. Tudo o que ele entalhar será guardado aqui com o restante de nossas histórias escondidas. Naiva caçará para vocês, e as manterá seguras."

Cerca de Montanha | Arte de: John Severin Brassell
Cerca de Montanha | Arte de: John Severin Brassell

"Algum dia estaremos seguros?" Naiva perguntou.

"Seguro significa meramente que o último dragão que vimos está voando para longe de nós. Quanto a Bolas, espero que ele considere arriscado demais retornar a Tarkir."

"A senhora mentiu para ele," Naiva acrescentou. "E se a história dele for a verdadeira, e a história de Ugin a mentira destinada a nos manipular para salvarmos sua essência da vingança de Bolas?"

"Nunca saberemos." Ela fixou o olhar em Tae Jin, que estava sentado tão imóvel e silencioso quanto as águas do Reino de Meditação que as gêmeas haviam percorrido. "Sei que você deve retornar ao seu mestre. Mas deixe-me pedir que por favor permaneça aqui por alguns meses ao menos. Gostaria que você recitasse a história de Ugin mais uma vez para Fec para que possa ser entalhada e preservada em mais de um lugar. Nós, o povo dos clãs, devemos trabalhar juntos para nos salvarmos. Esse é o único jeito. Essa é também a mensagem de Ugin para nós."

Naiva prendeu a respiração conforme Tae Jin encontrou o olhar severo da Avó. Mas ele sorriu e, com um olhar rápido e tímido para ela, assentiu. "Sim. Ficarei aqui por um tempo."

Um clarão de elação a sacudiu. Não pretendia sorrir, no entanto não conseguiu conter o grande sorriso que vincou seu rosto.

Baishya snortou e chutou Naiva nas canelas.

"Ai!" Mas Naiva riu.

Tae Jin corou novamente, deu uma tosse rígida atrás de uma mão, e disse com solenidade altiva, "Ainda estou ferido. Não posso esperar correr mais ou escalar mais que as crias de Ojutai até ter recuperado minha força total."

"Sim, claro que é por isso," disse Baishya com um revirar de olhos extravagante.

Naiva a beliscou, e Baishya lhe deu uma cotovelada forte.

A Avó sorriu um de seus raros e relaxados sorrisos. "Esta é a tarefa de vocês, minhas garotas. Crianças nascerão não conhecendo nenhum outro caminho senão o dos dragões soberanos. Pensarão que sempre foi assim, que humanos só podem se curvar a dragões, que os grandes dragões não podem ser derrotados. Mas a história de Ugin nos ensinou outra lição, uma que o Dragão Espírito pode não ter pretendido. Até o maior dos dragões pode morrer."

"A senhora realmente acha isso?" Naiva perguntou.

"Realmente acho. Pois no agora não escrito, qualquer coisa pode vir a acontecer."

Insubmissa, Parte 1

"Você fala com peixes também? Mademoiselle, suas habilidades são inúmeras."

As enguias recuaram para dentro da água ao som da voz do homem, um barítono magro ainda não habituado à idade adulta. Não que ele algum dia tivesse ocasião de amadurecer. Vivien lançou um olhar ponderado sobre o semblante do recém-chegado, observando as feições saturninas, a suavidade juvenil de sua boca, sua compleição sem sangue. Vampiros eram eternos, tanto em hábito quanto em biologia.

Vivien levantou-se. Era alta, parda e musculosa de uma forma que compelia trovadores a pensarem em cavaleiros disfarçados, seu cabelo escuro preso em um rabo de cavalo pragmático. Se Vivien era bela, ninguém ainda pensara em comentar tal fato, mais preocupados, talvez, com seu comportamento marcial e a intensidade fria e saciada de seu olhar.

O mar ondulava e lambia o navio, lançando espuma preciosa ao ar.

"Falo com peixes tanto quanto falo com dinossauros." Vivien ajustou a posição do Arco das Arcas, sua ligadura morna mesmo através de seu gibão. Frederic, o caçador vampiro que se elegera seu escolta, passara uma noite e partes de uma manhã esforçando-se para convencê-la de que a arma precisava ser guardada: envolta em papel oleado, mantida a salvo do ar salino abrasivo.

Mas Vivien recusou. Preferiria ser esfolada a ser separada da relíquia, tortuosa e brilhante como uma espinha revestida de prata, a última peça de Skalla fora de sua própria pele e tendões.

"Então, o que você está dizendo é que é versada em cada um de seus dialetos, familiarizada com seus símiles, e dotada em interpretar suas anedotas nativas?" Frederic radiou como se esperasse ser recompensado por sua grandiosidade. Ele cheirava a sangue, salmoura e incenso, um açougueiro na igreja, e mesmo após dias em sua companhia, Vivien não conseguia se descontrair em sua presença. "Estou dizendo que não 'falo' com peixes."

Uma das enguias ergueu-se para interrogá-la com um olhar, o olho de ágata bissecado por uma pupila retangular, parecida com a de um bode e animada, apenas para ser afugentada pelo mugido do cativo premiado do navio: um brontodonte jovem. O dinossauro era grande demais para sua prisão. Tanto a cauda quanto o pescoço projetavam-se das vigias em cada lado da embarcação, incessantemente atormentados por gaivotas e peixes-engolidores. Pelo que Vivien conseguia inferir, a criatura não dormia, apenas gemia e uivava através das horas.

"Você, no entanto, fala com dinossauros?" Um mexer lascivo de sobrancelhas. Atrás dele, a tripulação de Frederic fervilhava e se agitava e gritava em um crioulo sublimemente acrobático; Vivien conseguia distinguir apenas uma palavra em oito, as outras emaranhadas demais em gírias e floreios lúgubres. Mas a excitação deles não exigia tradução. O lar estava a apenas um horizonte de distância.

Caravela Sombria | Arte de: Jason Felix
Caravela Sombria | Arte de: Jason Felix

Ela colheu a última das frutas de seu balde e a atirou ao brontodonte, a polpa vegetal suculenta gotejando açúcar como gotas de mel de trigo sarraceno. O réptil fechou a boca sobre o bocado, engolindo uma ave carniceira maltrapilha no processo. Ele a encarou tristemente e trovejou em miséria novamente. "Não."

"Então como você explica o que vimos? Como explica a majestade de você parada lá, com uma mão estendida para a fera? Leva expedições inteiras para Luneau retornar com apenas uma destas feras. Mas você, você as buscou sozinha! Mademoiselle, você é ou dotada ou mágica ou ambos!" Frederic girou uma mão para cima e então pausou, um sorriso antecipatório curvando seus lábios.

Infelizmente para o vampiro, Vivien deixara de prestar atenção. "Haverá atenção médica esperando pelo brontodonte, espero?"

"Ele receberá, como cada novo espécime, as melhores atenções do Viveiro Real." Frederic colocou a palma sobre o esterno e curvou-se profundamente.

Vivien tomou nota de como ele se absteve de uma resposta direta e de quão fácil ele sorria, arquivando ambas as observações atrás de uma careta que ela, se questionada, culparia no vento. A Planeswalker cansara das bajulações, das insinuações sutis, das camadas de significado sobrepostas umas às outras, cada palavra de Frederic carregada com uma multiplicidade de nuances.

Não pela primeira vez, Vivien viu-se lamentando suas decisões. Deveria tê-los expulsado das selvas. Mas Frederic, efeminado porém zeloso, tinha tantas histórias de um Viveiro Real mais impressionante que um mito, tão enorme que guardava ecossistemas inteiros atrás de seus dentes dourados. Que enxoval de raridades, que tesouros. Como nada que Vivien veria novamente nesta vida ou na próxima.

A Planeswalker baixou-se e colheu o balde na dobra de um braço, limpando os dedos nas calças. Conforme batelões, cada um do mesmo tom de pérola da distante Luneau, vinham circular o navio, os marinheiros começaram uma canção de marinheiro ruidosa e risonha, cheia de maridos e maridagem e quais devassidões podem ser alcançadas entre os dois. Frederic olhou por cima do ombro, com o sorriso tão falso quanto as palavras que se seguiriam.

"Devo me desculpar pelos meus homens."

"Não. Está tudo bem." Vivien disse. "É mais ou menos o que espero de pessoas civilizadas."


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Levou exatamente vinte minutos para Luneau, toda becos bizantinos e sacadas barrocas, voltar seus olhos de vitral manchado para Vivien e outros dez para decidir que a Planeswalker não valia o incômodo. Vivien puxou o cabelo do batedor de carteiras humano até seu pescoço dobrar como seus escrúpulos, até mal haver espaço para o ar escorregar por sua traqueia. Só então Vivien inclinou-se, com os dentes a uma polegada do ouvido dele.

"Nós nos entendemos?"

O batedor de carteiras guinchou como as dobradiças de uma fechadura de esqueleto enferrujada.

"Misericórdia, senhora. Uma taça do meu sangue como penitência." Seus ombros recuaram conforme Vivien deu outro puxão. Luneau, já entediada com o espetáculo, cochilava ao redor deles: seus trabalhadores de doca vampiros e seus marinheiros conversavam com os pescadores humanos enquanto mulheres de avental, cada uma pelo menos tão alta e robusta quanto Vivien, limpavam esturjões gigantes à beira da água. Exceto por Frederic, ninguém dava atenção ao apuro do batedor de carteiras e mesmo o vampiro, com um meio sorriso em seu assento costumeiro, parecia apenas divertido.

"Do que ele está falando?" A carne de Vivien arrepiou-se na brisa fraca e apática.

Frederic agachou-se e acolheu o queixo do batedor de carteiras em uma mão enluvada. Com a outra, trouxe à frente um punhal. "Esta é a moeda de Luneau, mademoiselle."

Vivien afrouxou o aperto enquanto mantinha um joelho entre os ombros do batedor de carteiras, com os olhos arregalados. Seu olhar dardejava para a arma oferecida, estendida a ela pelo punho. "O que você espera que eu faça com isto?"

"Você não o ouviu?" Outra das risadas fáceis e efervescentes do vampiro. "Ele deseja lhe oferecer uma taça de sangue — "

"Não. Ouvi o rapaz." Vivien sibilou. "O que você espera que eu faça com o sangue dele?"

"Suponho que isso dependeria da taxa de câmbio atual. Mas imagino que você seria capaz de ao menos financiar um novo guarda-roupa. Sua natureza proletária não deixa de ter seu charme. No entanto, acho que a realeza ficaria lisonjeada se você mudasse sua maneira de vestir para eles." Ele arrastou o abano vermelho de músculo que era sua língua sobre os dentes, e Vivien não pôde deixar de pensar em uma sanguessuga, tão inchada de sangue que brilhava vermelha como tinta fresca. "Ou se você estiver se sentindo generosa, poderia entregá-lo a mim. A Igreja apoia o uso do elemento criminoso."

A Planeswalker afastou o punhal com um tapa. "Não."

"Misericórdia, senhora." O batedor de carteiras arquejava como um cão esquecido à porta da Morte. "Misericórdia. Eu só queria deixar Luneau."

"Deixar Luneau?" Frederic soltou o queixo do batedor de carteiras e levantou-se, sua silhueta cortada e polida pelo luar que incidia pelos becos. Um grupo de freiras parou para revisar a cena, as bainhas de seus hábitos fluidos de madrepérola debruadas de ouro. "E o que você fará fora desta ilha? Juntar-se à Coalizão Brancal? Aqueles rufiões não permitem nada além dos marinheiros mais competentes. Talvez, você pense em encontrar uma cidade ainda civilizada pela Igreja? Suponho que poderia. Mas lá você precisaria trabalhar. Não seria capaz de pagar por sua comida e seu alojamento com gotas de rubi de sua veia. Não, monsieur. Você não deixará Luneau. Não há espaço para você fora destas — "

Vivien ergueu a voz sobre Frederic, não alto o suficiente para o timbre ficar rouco ou falhar, mas o suficiente para sinalizar que estava farta da retórica do vampiro. Levantou-se, com os dedos deslizando sobre o Arco das Arcas. O batedor de carteiras permaneceu sabiamente estatelado. "Se eu fosse uma mulher diferente, mais cínica, diria que você está coagindo este rapaz a aceitar seu destino como gado e que Luneau, bonita como uma moeda recém-cunhada, não passa de um matadouro glorificado."

"Você me fere, mademoiselle." Sua imperiosidade dissipou-se, gordura derretendo em uma língua ávida. Em seu lugar, um novo substrato de astúcia, pior pelo seu pavonear debochado. "Luneau dificilmente é um curral. No máximo, suponho que você poderia nos chamar de uma casa de reabilitação."

"Que aceita pagamento em sangue."

"Você despreza o leão também? Você se ofende com o fato de ele não comer grãos mas preferir a carne do cordeiro? O Rito de Redenção não é isento de consequências. Bebemos sangue porque precisamos. Mas não somos barbáricos em relação a isso." Frederic inclinou a cabeça, a brisa enrolando-se em seus cachos em camadas. "Uma taça aqui, uma porção ali. Nada que possa matar a cidadania mortal. Temos cronogramas."

E para o nojo de Vivien, ele fez beicinho.

"Quanto à questão do rapaz," Frederic suspirou. "Suponho que eu possa ter cometido um erro. Mas a Legião do Crepúsculo se vê como zeladora de Ixalan. Aqui em Luneau, temos as instalações para cuidar de pessoas como ele. Mas o restante do mundo não tem tanta sorte, e que tipo de fidalguia seríamos se não fizéssemos nossa parte para proteger estas terras?"

"E o brontodonte? A miríade de vida selvagem que você arrastou através da água para Luneau? É para o mesmo propósito?" Vivien tocou o batedor de carteiras com a borda curva do Arco das Arcas. , ela articulou sem som, e o rapaz fugiu pelo píer. Para dentro de Luneau propriamente dita, onde os edifícios eram pálidos e lustrosos como creme.

"Preservação, mademoiselle. Nunca se sabe quando uma espécie pode se extinguir. Ixalan é um lugar tão selvagem e implacável." Aquele sorriso de novo. Como se fossem todos cúmplices da mesma mentira bondosa. "Mas por favor. Já perdemos tempo suficiente. As maravilhas de Luneau não podem ser abrangidas por palavras. Deixe-me mostrar-lhe minha cidade e talvez então você comece a ver quão errada estava ao pensar mal de nós."


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Vivien sentou-se em silêncio enquanto Frederic desenrolava resmas de louvor a Luneau, gesticulando e ajoelhando-se diante do esplendor tanto do país quanto da capital. Narrou, com gosto indecoroso, a preeminência do casal soberano, suas virtudes, as circunstâncias que precipitaram tal união requintada. Depois passou a alfabetizar suas conquistas, seguindo elogios com mais do mesmo.

Era tudo, Vivien pensou consigo mesma, tão cafona.

Que houvesse flores de lótus entrelaçadas pelas balaustradas da cidade, jardins mapeando o mergulho de suas torres como as mãos agarradas de um amante desesperado, árvores parasitadas por flores suavemente luminescentes, não vinha ao caso. No máximo, apenas acentuava o nojo de Vivien com a nação insular. O ar fedia a excesso. Luneau era artifício e arrogância, cada uma de suas maravilhas um estratagema. Seus edifícios eram de mármore branco, todos cafés delicados onde quer que Vivien se virasse, todos museus e vitrines exibindo vestidos luxuosos e perucas altíssimas. Luneau assemelhava-se ao sonho de alguém sobre uma cidade, limpa e culta e desprovida de coisas comuns, coisas como açougues e padeiros e oficiais de justiça patrulhando ruelas de paralelepípedos rachados. Apenas nas margens, apenas onde Luneau podia esconder tais aberrações, ocultas atrás de becos ou curvas em vielas, é que Vivien conseguia ver onde a humanidade poderia labutar.

Se havia qualquer beleza verdadeira aqui, era uma coisa piedosa, estrangulada e sufocada pelos caprichos de seus inquilinos mortos-vivos.

Mas Vivien nada divulgou de suas ruminações, apenas enganchou os dedos na corda do Arco das Arcas e sorriu desapaixonadamente, uma expressão que seu companheiro interpretou como convite.

"Como é onde você vem?" Frederic traçou um dedo ao longo da proeminência óssea que subia do pulso pardo de Vivien, o movimento preciso como a plissagem de sua gravata de renda, e virou o braço dela de costas. Seu toque vagou pelos afluentes de suas veias, enquanto Luneau, iluminada pelo crepúsculo e assombrosa, ostentava-se pela janela.

Vivien tentou não pensar em uma silhueta com galhadas erguendo-se no céu, tentou não pensar nos gritos, no estalo da pele conforme ela crestava e quebrava, tentou não pensar em quão silencioso ficou conforme o mundo queimava até o branco. Tentou não pensar em fogo.

"Era lindo." ela sussurrou.

A carruagem rolou adiante.


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Ela contou os corpos na parede até os números fugirem de sua mente e então, Vivien murmurou os números como um canto. Por um momento terrível, a Planeswalker pôde entender Nicol Bolas, a morte de Skalla, o fim de tudo o que ela conhecera e amara.

Aqui, ladeada pelos cadáveres de uma centena de espécies extintas, seus corpos atravessados por fios, empastados com gordura e endurecidos pelas misturas de um taxidermista, a antecâmara dourada e berrante contra o brilho ceroso do pelo, Vivien nada conseguia pensar exceto no desejo de ver tudo aquilo sumir.

"Como nada mais, não?" A mão agarrada de Frederic na dobra de seu cotovelo novamente, dedos travando ao redor da articulação. "O Salão dos Tesouros é uma igreja em si, uma adoração ao mundo natural."

Vivien desvencilhou-se de seu aperto. "Sua ideia de como demonstrar reverência é muito diferente da minha."

"Como deve ser. Não somos criaturas do mesmo mundo." Nobres e suas comitivas passavam pela dupla, efeminados e absurdos em suas perucas altíssimas, minaretes de cabelo provocados em configurações estranhas e nada sutis. "E é isso o que é tão belo na existência."

"Beleza não é algo para ser pregado na parede."

"Oh, absolutamente não." Frederic estalou os lábios. "Melhor se for permitido permanecer vivo, belamente emoldurado por filigrana. Lembro-me de quando trouxeram para casa o par reprodutor de monstressauros. Que alegria foi aquela. Foi um evento, como dizem. E eles foram convidados tão generosos do Viveiro Real também. Alguns animais simplesmente expiram, sem disposição para dar um show. Mas houve tanto teatro com o par. Tanto estardalhaço. O macho não era nem de longe tão resistente quanto sua contraparte. Ele morreu rápido demais e ela o seguiu depois, definhando em uma exibição de tragédia tão profunda que foi imortalizada em um manuscrito."

Vivien engoliu sua raiva. "Mostre-me mais de Luneau."

Monstressauro Atacante | Arte de: Zack Stella
Monstressauro Atacante | Arte de: Zack Stella

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A Corte Perfumada fazia jus ao seu apelido: sua aristocracia era ungida com âmbar-cinzento e água de rosas, seus cavaleiros polvilhados com sal e almíscar e incenso sagrado. Até os suplicantes e os servos, de perucas soltas e trajados em algodão, fediam a pós, sempre mais pós, uma camada de partículas que tornava sua pele nacreous na luz azul da noite.

Vivien pressionou um lenço contra o nariz e engasgou com o odor. Tendo ânsia, correu os dedos pelas bordas, descobrindo tarde demais o pot-pourri costurado nas bainhas. Nada em Luneau era sagrado. Nada aqui era natural.

"Mademoiselle Reid, você está bem?" Frederic estendeu o braço. Na meia hora em que estiveram separados, ele de alguma forma encontrou tempo para trocar seu traje de caça por uma exibição mais extravagante. Babados e calças tufadas, renderizados em cetim lilás e creme, tornavam bulbosa sua silhueta.

"Estou bem." Ela entrelaçou o braço no dele, dobrando o lenço em quatro. "Suponho que apenas fiquei atônita com as glórias de sua terra natal."

"Nesse caso, não deixe que eu a distraia demais. Luneau exige adoração. Não há nada mais em Ixalan como ela." Ele inclinou-se, com a voz aguçada para conspiração. "O Barão de Vernot acredita que existem gigantes entre os lagartos que caçamos. Deuses. Criaturas maiores que até a linguagem consegue abranger. Um dia, as teremos para o Viveiro Real e depois disso, a história nunca será capaz de nomear um rival."

"Entendo."

Frederic fungou. Pigmento manchava suas bochechas. Não rosa, como era tradicional, uma falsificação rosada de vitalidade, mas um rubor de turquesa que evocava em Vivien a memória de uma carcaça roída por caranguejos que ela um dia pescara no mar. "Ah, mademoiselle. Tenho certeza de que você acha o patriotismo injustificado, mas você viu o Viveiro Real. Certamente você deve entender."

A raiva era um frêmito por sua pele. O Arco das Arcas parecia latejar contra a curva de sua coluna, e por um momento ele a subsumiu, uma fome como um poço sem fim. Ele queria ser encastoado — não, ela queria o poder da relíquia encastoado e angulado no coração de Luneau. O Arco das Arcas detestava este lugar. Vivien sabia, do modo como o carvalho e o amieiro sabiam despertar-se na primavera, do modo como o fogo sabia encontrar a gordura dentro da carne, que não haveria como caminhar para longe de Luneau. Juntos, eles veriam seu fim.

Mas ainda não.

Ainda não.

Precisavam esperar.

Vivien educou sua voz para polidez, um sorriso posicionado no lugar. Charme era pedir demais. Seus reflexos as observavam de cada ângulo do edifício de teto alto. Onde a arquitetura não era de pedra índigo, era de ouro e metal brilhante, marchetaria florida e grande trabalho em estuque, lâmpadas de óleo e luzes de mago astutamente posicionadas para garantir que ninguém precisasse semicerar os olhos contra um brilho impróprio.

Detinha, na opinião de Vivien, toda a ternura e compaixão ausentes de certos outros elementos de Luneau.

"Perdoe-me, mas tudo o que vi foram gaiolas cheias de animais doentes e moribundos e um salão resplandecente com um circo de cadáveres." Sua boca contraiu-se. "Se esse era o seu orgulho e alegria, você pode querer considerar investir em outro."

Para sua surpresa, Frederic riu, vaporoso e imperturbado pelo aviso marcado em seu tom. "Mademoiselle, se nos virássemos do avesso para manter tudo vivo, onde colocaríamos todos eles? O Viveiro Real é o maior de sua espécie em Ixalan, mas não é mágico. Além disso, como o barão perseguiria sua ciência se não houvesse corpos para usar em uma autópsia?"

Orgulho dos Conquistadores | Arte de: Tomasz Jedruszek
Orgulho dos Conquistadores | Arte de: Tomasz Jedruszek

O corredor abria-se em um lobby palaciano. Acima deles, um teto abobadado afrescado com navios em conflito com um kraken. Garçons levavam bandejas de latão carregadas de cálices através de uma multidão crescente de cortesãos, seus corpos duplicados no chão espelhado.

As roupas não fazem o monge, Vivien pensou consigo mesma. Não importava quanto se embelezassem e perfumassem, não importava quantos acres de veludo esmagado drapejassem sobre corpos embalsamados em magia negra, como brincassem de refinamento, estas criaturas ainda eram cadáveres. Frederic deu um tapinha na mão de Vivien, e exigiu tudo dela para não afastar os dedos dele com um tapa.

"A propósito," Frederic disse, trocando beijos no ar com uma mulher pálida que mal se dignou a olhar para Vivien, o decote dela coberto de pó de diamante. "Devo parabenizá-la pelo seu senso de tempo. Você escolheu a ocasião perfeita para visitar Luneau."

"E por que isso?"

A mulher virou-se, abrindo um leque. Renda espumava em seu colarinho e ao longo das extremidades de suas mangas, tecia-se na edificação berrante de sua peruca de alabastro. Ela sozinha entre os presentes cheirava a nada além de mausoléus e medula e osso e terra. "Pobrezinha. Não te ensinam nada de onde você vem, mademoiselle? As festividades de hoje são famosas por toda a Ixalan. É — "

Um suspiro, como que para transmitir o fardo que era a tradução.

" — o Tourdion com o Trovão Truculento. Eu disse isso corretamente, Frederic? Não. Não, não me diga. Não me importo o suficiente." Ela abanou o leque devagar. Uma marca de beleza pontuava seu filtro. "Saiba apenas que você é insuportavelmente afortunada, mademoiselle. Existem rurais em Luneau que empenhariam seus primogênitos para comparecer a esta gala. Honestamente, Frederic, por que você sequer a trouxe?"

"Por novidade, imagino." A atenção de Vivien fez uma órbita pelo espaço. Demais deles, e pouco se sabia do que eram capazes. Teria que esperar e observar e imaginar por enquanto. "Como tudo o mais neste lugar."

Risadinhas saudaram a resposta de Vivien, agudas e teatrais, enquanto Frederic observava como um tio indulgente. "Doces misericórdias, esta tem dentes! Que deleite, minha querida."

Antes que Vivien pudesse organizar sua raiva, portas duplas rangeram ao abrir, admitindo primeiro um casal de costas retas em vestes berrantemente elaboradas, seus crânios coroados com perucas de marfim. Dos dois, a mulher, severa e esguia, parecia menos confortável com a elegância: tinha um andar de caçadora, o passo de alguém mais acostumado com couros e o baque de uma espada contra o quadril. Apesar daquele leve ar de mal-estar, sua expressão era beatífica, assim como o visual usado por seu parceiro, um homem de rosto magro com pelos faciais imaculados, ombros curvados como que pesados pela coroa que usava como um fardo.

"Rei Lucard e Rainha Salazar," Frederic murmurou no ouvido de Vivien, seu hálito frio no lóbulo. "Você deve se curvar a eles."

Ela lançou um olhar para trás. "Não."

Os governantes soberanos de Luneau inclinaram as cabeças, e a multidão respondeu da mesma forma: as mulheres fizeram reverência, os homens curvaram-se, a base de suas palmas pressionada aos seus corações. Sozinha entre eles, Vivien permaneceu sem se curvar, queixo erguido. A nobreza reunida endireitou-se conforme a realeza deslizava, crianças em vestidos azul-petróleo vindo segurar suas caudas. Se algum deles notou sua impudência, não achou digno de comentar.

"Audaciosa," murmurou a conhecida pálida de Frederic ao se levantar novamente à sua altura total. "Você tem gostos tão interessantes em amigos."

"Apenas os melhores."

As portas abriram-se novamente. Um silêncio percorreu a congregação. Da penumbra emergiu um sujeito esguio trajado simplesmente em uma batina, mãos brancas unidas no esterno. Seu comportamento exalava uma austeridade coreografada, cada movimento imbuído de propósito. Ergueu a cabeça, e a multidão suspirou à visão dele, um ruído extático.

Vivien inclinou a cabeça. "E quem é ele?"

"O Barão de Vernot." A mulher suspirou, abanando-se, a língua enrolando-se no título honorífico, acalentando-o como um messias recém-nascido. "Marcois Jean-Jaquent. Ele governa o Viveiro Real e as maravilhas no Salão dos Tesouros."

"Monsieurs. Mademoiselles." Seu olhar ofidiano encontrou Vivien através do aperto de corpos, pálpebras pesadas e preguiçosas, segurando-a, seiva dourada esperando afogar um inseto desavisado. "Convidados especiais. Estamos prontos para vocês."


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O ato de abertura estragou o fôlego nos pulmões de Vivien, deixou-a arquejando, e ela sentou-se, sangue infiltrando-se de onde suas unhas feriam meias-luas em suas palmas, conforme um homem abanava uma tocha sob o ventre de um lagarto. Ele guinchava enquanto seu couro enegrecia no fogo, manchas de cor irradiando das queimaduras. Arabescos de púrpura e laranja, trilhas venosas de azul desvanecente: seu terror coagido em uma arte.

O show só ficou pior dali em diante.

Os artistas traziam ursos em vestidos mal ajustados e anquinhas absurdas, raptores vestidos como marqueses, viscondessas encarnadas como garças de joelhos tortos, valsando sobre brasas quentes em saltos hesitantes. Cada um era torturado, atormentado, provocado por sua vez, enquanto a audiência uivava títulos de músicas para um cabaré de metais no fosso, e os monarcas de Luneau conversavam com seus ministros.

Diácono Ungido | Arte de: Winona Nelson
Diácono Ungido | Arte de: Winona Nelson

"Isto é crueldade," Vivien sibilou, meio levantada de seu assento, voz endurecida pela raiva.

"Não, isto é entretenimento." Frederic chupou os dentes e apertou os dedos ao redor do pulso dela. "Agora, sente-se, Mademoiselle Reid. Por favor."

A multidão rugiu conforme a banda entoava um hino triunfante, um andaime de metais em um ritmo de tambor ondulante e vibrante. Algo estava acontecendo. Vivien voltou sua atenção para o palco, um dedo enganchado sobre a corda do Arco das Arcas.

"Senhoras e senhores." Ali estava ele mais uma vez: o sacerdote deste lugar. O homem estava sozinho, sem adorno ou acessório, sem correntes de cargo. Robes negros, mãos pálidas como cálcio erguidas para as massas. A música diminuiu para o estremecimento de uma flauta, como alguma coisa solitária morrendo no escuro. "Agradeço por sua paciência, sua tolerância com os atos menores. Sabemos por que vocês estão aqui."

O silêncio lavou o coliseu, tenso. O homem comandava seus olhares, santificado em seu púlpito de luz. Baixou a voz conforme Vivien mirava, sua voz um sussurro sagrado.

"Nossos melhores passam seus meses no ermo selvagem, espreitando através do matagal. Travam guerra contra a natureza. Morrem em bandos, tudo em serviço ao seu prazer." Aqui, seu tom aqueceu e a multidão murmurou de prazer. "Tudo na busca pelos maiores prêmios, os melhores monstros para trazer para casa para vocês. O espécime de hoje é particularmente intrigante, um Behemoth que até a Cidade Dourada teme. Senhoras e senhores, permitam-me introduzir o convidado mais especial desta noite."

E as cortinas abriram-se, veludo vermelho puxado por cordas luxuosas de ouro trançado. Os holofotes abandonaram o homem de preto e uniram-se como mãos entrelaçadas em prece, iluminando uma rota para o que logo emergiria. Do escuro, algo gritou sua raiva.

"Um novo monstressauro das profundezas das selvas de Ixalan," sussurrou o barão, sua voz carregando como uma maldição. "Mais impressionante até que o nosso par reprodutor. Mais feroz, ainda cheio daquele fogo primal."

Aquele som. Não era o brontodonte. Não podia ser. Vivien conhecia ruminantes. Eles não tinham garganta para tais sons. Não havia espaço em um corpo assim, nenhum espaço com a multiplicidade de estômagos, o conhecimento da morte cavalgando baixo em suas barrigas. Isto era algo mais. Algo maior, mais raivoso, algo que comeria o mundo se tivesse metade da chance e, julgando por aquele chamado, não queria nada menos. Ele ansiava por engoli-los inteiros.

Mas a coisa triste e claudicante que emergiu da penumbra mal conseguia manter-se ereta, muito menos lutar. Vivien esqueceu de si mesma diante do horror que surgiu à vista, um arquejo escapando de sua garganta. A criatura fora outrora massiva, majestosa até, mas agora estava curvada e afundada, faminta de tudo exceto fúria. Alguém a torturara. Alguém, Vivien percebeu com um calafrio de horror, arrancara os maiores dentes de sua cabeça.

"Chega." O Arco das Arcas cantou ao golpe descendente do dedo de Vivien, subitamente reluzente de poder, e Skalla como era, como deveria ter sido, como deveria ter permanecido, estava viva novamente, mesmo que apenas por aquele momento.

A audiência não se importou. Nem com Vivien, nem com o apuro do monstressauro. E por que se importariam? Vivien pensou. Nada importava para estes vampiros senão seus jogos, sua postura e provocações refinadas. Soldados avançaram sobre a criatura, um semicírculo cintilante de aço e chapéus emplumados. Sua cautela era performática. Não havia como ela retaliar. Não assim, não com manilhas em cada membro, seu couro pontilhado de cicatrizes, dois homens em cada extremidade, puxando seu corpo curvado para baixo. No entanto, aquilo não tornava seu sofrimento menos esporte para sua audiência. No máximo, parecia deleitar a multidão. Desta maneira, os soldados tinham espaço para invenção.

Que miséria aqueles soldados traziam à existência. Trabalhavam furos através do couro do monstressauro com as pontas de suas piques, constelações de novos ferimentos em meio a uma nebulosa de retalhos de cicatrizes. Arranhavam seus olhos, um já coberto por uma névoa leitosa, o outro amarelado e girando em sua órbita. Preocupavam-se com seu corpo como corvos, ou cães, ou crianças mimadas bêbadas com a ausência de consequência.

"Madame, por favor — " Antes que Frederic pudesse falar mais uma palavra, Vivien encastoou uma flecha. Antes que Frederic pudesse exalar, ela soltou.

A madeira brilhou em verde conforme o projétil cantou pelo ar. Atingiu o chão ao lado de onde o homem de preto estava, o cabo tremendo com o impacto. E Vivien teve tempo suficiente para saudá-lo, dois dedos em lábios sorridentes, antes que o contorno verde efervescente e vislumbrante de uma hidra se arrancasse da ponta da flecha e uivasse sua fome para o mundo ver.


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Luneau não sabia como lidar com hidras.

Ela aprendera, ao longo dos anos, a acomodar dinossauros e megafauna de tamanho comparável, mas estas eram taxonomias separadas de perigos. A vida selvagem de Ixalan, embora feroz, respondia à decapacitação da maneira tradicional: deitavam e morriam. A hidra, no entanto, não o fazia.

Hidra Faminta | Arte de: Daarken
Hidra Faminta | Arte de: Daarken

O fato de ser feita de magia também não ajudava.

Duas de suas cabeças, cintilantes e verdes, agarraram um nobre gritando: uma enterrou as mandíbulas em seu ombro, a outra travou em uma panturrilha. Puxaram e ele se despedaçou.

Vivien desceu correndo pelas arquibancadas para dentro do estouro de convidados em evacuação, guardas correndo atrás dela, gritando para a Planeswalker parar.

A Planeswalker continuou a correr; saltou sobre um duque que caíra de joelhos, peruca grudada em seu crânio por uma faixa de prece encharcada de suor; correu conforme o monstressauro, esquecido por seus adestradores, rugia em desafio. No caos que se seguira, a fera quebrara uma perna, tentando sem sucesso capturar um dos artistas em fuga. O osso projetava-se dos trapos de seu joelho, mas aquilo não foi suficiente para dissuadi-lo. Gritou. Por retribuição, por raiva, por qualquer esperança inefável que o arrastava para frente, polegada a polegada, em direção aos guardas que avançavam sobre a hidra.

O dinossauro balançou a cabeça; dentes encontraram carne, o vazio de um quadril mal blindado. Mordeu com força. Aleijado, não tinha como ficar de pé. Mas ainda podia balançar seu crânio, ainda esmagar sua presa contra a argamassa e a marchetaria do palco, o corpo dentro da armadura ornamentada reduzindo-se a uma papa mordida por ossos. E ao fazê-lo, gritou e, desta vez, havia triunfo no ruído.

Vivien girou, caiu sobre um joelho, mirou e soltou uma flecha. O verme de Pelakka lançou-se à frente, todo boca e corpo sinuoso, brilhando em verde. Os guardas pararam, atônitos com a visão. Vivien não esperou pelo rescaldo. Levantou-se e renovou sua corrida em direção ao palco, mesmo enquanto gritos subiam às suas costas, o som rapidamente abafado pelo estalo das mandíbulas do verme. Não precisava olhar. Sabia o que se seguiria. Como frequentemente acontecia com as vítimas do verme, elas provavelmente morriam com espanto em seus rostos. Ninguém nunca espera ser perfeitamente do tamanho de uma mordida.

Verme de Pelakka | Arte de: Daniel Ljunggren
Verme de Pelakka | Arte de: Daniel Ljunggren

Vivien saltou sobre um parapeito e permitiu que o ímpeto a carregasse para baixo. Encastoou uma flecha, disparou novamente. Nesta ocasião, foi um herbívoro que irrompeu do ponto de impacto, cambaleando em um galope irregular como o de um potro, o cervo — corpo como uma carapaça de pangolim, galhadas em forma de pá varridas para trás de seu crânio como asas erguidas — fazendo várias órbitas ao redor da arena antes de finalmente notar os guardas.

Assustado por sua aparição, alguém atirara uma lança no animal. Seu arremesso fora perfeito. Ela passou através do brilho verde do ombro musculoso do cervo, mas a criatura etérea deu um coice como se tivesse sido atingida, chutando ambos os pares de pernas antes de finalmente empinar em suas patas traseiras. Os guardas haviam contado com o instinto burro, reflexos animais atados aos gatilhos de dor e rapto. Mas Skalla, bela e voraz, Skalla das monções estranguladas por manguezais e dos vaga-lumes e dos incêndios florestais que cantavam vertiginosamente sobre novas estações, a vida selvagem de Skalla, até a última formiga listrada de coral, era mais astuta que aquilo.

O cervo não entrou em pânico. Avançou sobre seu agressor, galhadas cintilantes dobradas em um ângulo de noventa graus, raiva em seus olhos e na definição de sua expressão. O guarda teve tempo de inalar antes que o cervo, mais alto que os melhores de Luneau por várias mãos, o colhesse e o atirasse contra uma parede. Um estalo: curto, repentino e nauseante. Seu corpo encolheu-se em um monte conforme deslizou para o chão.

Vivien pousou delicadamente ao lado do palco, Arco das Arcas ainda pronto.

O último bramido triunfante do verme de Pelakka estremeceu através da arena, suas percussões amplificadas pela acústica do teatro, tão alto que afinou o mundo nos ouvidos de Vivien até um zumbido. Foi seguido por gritos. Ela lançou um olhar pelo coliseu, o olhar subindo pelos assentos em níveis até onde o Barão de Vernot estava nos corredores, cercado por homens com bestas. Seus perseguidores sobreviventes estavam com eles.

"Você." Sua voz, de orador, carregava facilmente até onde Vivien estava agachada.

A Planeswalker mostrou os dentes em um rosnado. "Este lugar é uma abominação."

Algo brilhou no olhar do barão, um visual não muito diferente de reconhecimento, um meio sorriso fixando-se no lugar conforme ele descia os degraus. Apenas mais um punhado de flechas. Vivien estreitou os olhos para as bestas, imaginando qual de seu viveiro mágico chamar: as vespas ou as aves de peito arco-íris com os bicos de cimitarra, o verme devorador, o urso pardo de suas memórias mais antigas, cheirando a água fria e montanhas e vestígios animais.

"Vocês rurais são sempre os mesmos, sempre tão certos sobre o formato do mundo." As palavras derramavam-se como óleo, viscosas. "Sempre tão assustados com a ideia de mudança. Você tem alguma ideia de quantos de vocês eu já vi? Com quantos de vocês eu já lidei?"

Vivien do Arco das Arcas | Arte de: Magali Villeneuve
Vivien do Arco das Arcas | Arte de: Magali Villeneuve

Metade da comitiva do barão avançou por ele e para baixo, para baixo em direção à briga onde corpos jaziam, brilhando viscosamente. Dividiram-se em duas fileiras: a primeira caiu de joelhos, enquanto a segunda permaneceu firme. Miraram na hidra conforme ela começava a se desfazer em uma convulsão de faíscas esmeralda.

"Discursos são mesmo uma obsessão com tiranos, não são?" Vivien libertou outra flecha de sua aljava. As vespas, decidiu ela. "Pessoas como você são tão apaixonadas pela própria voz."

"Tirano?" Seu riso foi efervescente. "Por favor, mademoiselle, não passo de um humilde pesquisador. Até minha baronia me foi imposta. Um presente de sua Alteza Real."

Vivien lembrou de seu primeiro vislumbre da rainha, do rosto de traços agudos sob sua coroa rígida de cachos de mármore, aquela boca sem sorriso e olhar distraído, atenção já em outro lugar. Ela sentara jogada em seu trono, queixo segurado na concha de sua palma, entediada com o quadro, entediada com a crueldade. Tal mulher não brincaria de favoritismo. Mas o barão não parecia um homem que se importasse.

"Seja qual for o caso," Vivien encastoou sua flecha, cada movimento deliberado. Os besteiros reuniram-se ao redor do barão. "Verei Luneau pagar pelo que fez a este mundo."

Desta vez, não hesitaram. Soltaram seus virotes de besta, apenas para ver seu assalto passar inofensivamente através da hidra, mesmo enquanto ela finalmente se dissipava.

"Tenho certeza de que você gostaria disso. Mas o que eu gostaria é de saber mais sobre esse arco seu." O olhar do barão dardejava para o Arco das Arcas no punho de Vivien. "Que arma fascinante. Como você a usa? De onde vêm suas criaturas?"

Em resposta, Vivien deixou voar sua flecha. Vespas saíram em espiral dos rastros resultantes, asas translúcidas iridescentes por um momento antes de se livrarem do encantamento, os insetos coalescendo em um enxame tão espesso que escureceu o ar. Vivien correu em seu rastro, sentindo cada corpo de listras cor de cobre vibrar sob seus pensamentos. As vespas reluzentes eram do tamanho de cães, de cavalos, todos com apetites condizentes. Nenhuma rainha à vista, nenhum ninho, mas aquilo pouco importava: a fome era ainda mais antiga que a memória delas.

"Skalla." Vivien arquejava enquanto trocava o Arco das Arcas por suas adagas. As vespas abriram-se, revelando o barão, mãos unidas como em prece, seu sorriso sereno. "Somos os mortos de Skalla."

Ela baixou suas lâminas. Girou. Sentiu o aço encaixar entre costelas, sentiu o ferro travar em tecido macio. Vivien deu um puxão em seus pulsos, e as adagas cortaram através de membranas. Mas a expressão plácida do barão não mudou. Apenas olhou para cima, e quando sorriu, mostrando todos os dentes, Vivien teve um momento para pensar em quão vermelha era sua língua, quão gorda sua boca, e em quanto ele a lembrava de uma lampréia saciada. Seus dedos fecharam-se ao redor dos de Vivien, quase ternos, seu toque escaldante.

"Minha vez."

O barão esbofeteou Vivien com as costas da mão, um golpe tão casual, tão sem arte que Vivien viu-se surpresa com sua força. Ela deslizou para trás, para longe do ponto de impacto. Um calor úmido escorreu pelo canto de sua mandíbula. Vivien limpou o queixo com as costas da mão e rosnou.

"Ah, você estava esperando um almofadinha então?" A voz do barão permaneceu suave. Ele arrancou as adagas de Vivien de seu peito e as atirou no chão. "Receio ter que decep — "

"Eu me viro." Não se podia confiar apenas em armas em Skalla. A natureza não esperava por duelos, por rituais, por homens desembainharem suas espadas. Frequentemente, não passava de dente e garra e tendão. Vivien girou em um chute circular, parando o barão no meio da frase, enganchou uma perna em seu ombro, e permitiu que o ímpeto puxasse a ambos para baixo, no chão.

A dor explodiu em seu ombro; a queda não fora exatamente correta. Recebera muito do peso do barão sobre si, mas Vivien recusou-se a ser dissuadida. Ergueu-se, trazendo o Arco das Arcas para baixo como um porrete, visando a têmpora do barão. Vivien conseguiu três golpes agudos na cabeça de sua presa antes de seus asseclas chegarem para arrastá-la para longe.

Vivien lutou. Raivosamente, e com o abandono amargo de quem ficara sem nada a perder. Levou dois guardas à inconsciência com ela: o primeiro com um chute estratégico na cabeça, o outro com um golpe de cotovelo, um tão forte que Vivien ouviu os pequenos ossos do homem estalarem no recuo. Foi, ela decidiu conforme a consciência se esvaía, ao menos uma resistência final decente.

Insubmissa, Parte 2

Vivien acordou com gosto de estanho na boca. Pastoso, cobria o interior de suas bochechas e a parte de baixo de sua língua. Tateou o caminho ao longo de seus dentes, encontrou um vão onde dois deveriam residir e o toco arruinado de um terceiro. Vivien fez uma careta. Estava claro demais, e o ar não estava quente mas morno, como a goela de uma vaca recém-abatida, untuoso e úmido e puramente animal.

Dedos entrelaçados em seu cabelo puxaram sua cabeça para trás.

"Achei que você fosse morrer durante o sono." A voz do barão, enjoativa, sua silhueta surgindo à vista, veludo e pele branca como vela. "Isso teria sido terrivelmente inconveniente."

"O que vo — " Vivien cuspiu sangue. As palavras formaram-se com esforço, sílabas coagulando como gordura, mais grossas e gredosas do que ela recordava tais coisas serem, um sabor cúpreo permeando sua garganta. "O que você fez?"

"Prendi você, ao que parece." Lentamente, a definição retornou. Sua visão desenhou detalhes: as cavidades profundas das órbitas do barão, a curva de seu nariz, tão curto em um rosto de resto destinado a ângulos lupinos. "Pegamos o seu arco."

Ela lançou-se à frente antes mesmo de conseguir juntar dois pensamentos, antes mesmo de ter tido tempo de inventariar sua condição, os pulsos algemados, o modo como seu corpo doía por estar suspenso, a falta de sensibilidade de seus pés e a maneira como as cordas cerravam seus tornozelos. A mão enraizada em seu cabelo deu outro puxão, agudo, mais vicioso que o último, e Vivien uivou em objeção.

"Um dispositivo bastante interessante." O barão deslizou as mãos em mangas excessivamente largas. Mesmo seus menores maneirismos eram afetações, não mais autênticos que o sorriso, a qualidade parafinada de sua pele. Vivien contorceu-se em seu confinamento, sibilando. "Como você o impediu de matá-la? Tentamos tantas coisas. Fizemos um urso emergir uma vez. Mas ele sobreviveu por segundos. Justo o suficiente para matar mais dos meus homens."

Ele caminhou em círculos ao redor dela, cabeça angulada precisamente, parando na terceira rotação para agarrar sua mandíbula, dedos virando como chaves no ponto onde as mandíbulas se encontravam, forçando sua boca a abrir. O barão encarou sua garganta como se ela fosse um cavalo de premiação.

"O que é você?"

Vivien o encarou com fúria.

"Não um espírito da natureza, certamente. Não um deus. Você parece humana." Sua voz silenciou-se. "Pergunto-me se você é uma Planeswalker. Temos alguns desses aqui. Mas se você for uma, mademoiselle, é excepcionalmente desleixada. Sem feitiços protetores, sem direção senão para frente. Uma marreta sem mestre."

Ele a soltou.

"Se você gostaria de me ameaçar, acredito que tenhamos alcançado uma pausa natural. É aqui que a maioria destes diálogos ocorre. Ao custo de parecer presunçoso, espero que não demore. Tenho tantas perguntas."

A sala — cela, Vivien corrigiu-se, notando a ausência de janelas e a falta de ruídos ambientes — era branca, de teto baixo, sem emendas. Uma única entrada e nada mais. O suficiente de suas faculdades retornara para permitir uma observação inteligente, alguma medida de análise, e a conclusão que ela derivou de ambas foi desanimadora. Estiveram prestando atenção. "Devolva-o."

"O quê?"

Vivien lambeu sua boca seca, um gesto que nada fez. "Devolva o Arco das Arcas."

"Não." O hálito dele soprou contra a bochecha dela. O outro homem entrou em vista. Vestia luvas de ferreiro e os acessórios de um carrasco, era largo de peito porém de pernas de garça, e se curvava como uma árvore moribunda: uma caricatura, hilariamente proporcionada, mas não menos perigosa por isso. "Não. Não devolverei. Agora, diga-me: o que é você?"

Vivien encarou-o com fúria.

"É este o jogo que jogaremos? Fine. Não me diga o que você é. Diga-me sobre o Arco das Arcas. Como ele funciona? Já conseguimos invocar o urso. Mas a serpente? Falamos sobre a serpente? Ela morreu. Dissipou-se em segundos de sua conjuração, natimorta e mal feita." Atrás dele, o outro homem cuidava de uma série de ferramentas, prata disposta sobre veludo cor de vinho, uma ameaça implícita em sua meticulosidade.

Vivien estremeceu. O verme devorador fora outra memória precoce, um triunfo juvenil, e embora a Planeswalker não tivesse apego àquele espécime em particular que estremecera, ele a lembrava de dias melhores. "Skalla."

"Você disse essa palavra antes. Lembro-me agora. 'Os mortos de Skalla'." O semblante do barão ganhou vida com o senso de maravilha cuidadoso de um acadêmico. "É isso o que você é? Fantasmas escravizando fantasmas? Toda uma história deles."

"Devolva o Arco das Arcas."

Ele soltou uma risada desagradável. "Não. Nunca."


)

O Barão de Vernot retornou duas vezes e então outras duas vezes depois disso, cada vez com perguntas sobre a genealogia dos habitantes do Arco das Arcas e a história celebrada de Skalla, cada vez mais enfurecido que antes. O artefato provara-se mal disposto para com seus captores: o Arco das Arcas desarticulara vários dos assistentes do barão, reduzindo-os às suas partículas constituintes, uma camada úmida de preto infiltrando-se profundamente nos ladrilhos.

"Como ele funciona?"

Vivien manteve o silêncio. O barão era incomumente esperto. Tortura como Vivien a entendia era uma matemática de facas e cortes precisos, mas tal comportamento primitivo era apenas o começo para o barão. Ele possuía meios adicionais, mais sofisticados de atormentá-la, maneiras de ferir que não infligiam cicatrizes físicas.

Bispo da Prisão | Arte de: Bastien L. Deharme
Bispo da Prisão | Arte de: Bastien L. Deharme

"Como ele funciona?"

Cada vez que ele fazia suas perguntas, a magia do barão estendia-se, encontrava o sangue correndo pelo corpo de Vivien e o levava à ebulição. Lentamente. Mas a Planeswalker apenas ria da queimação em suas veias. Nicol Bolas já fizera pior. Não importava quanto o barão a perseguisse com magia e fórceps e escalpelo, não importava o que fizesse, não conseguia encontrar tração, não conseguia encontrar um lugar que Nicol Bolas já não tivesse cicatrizado com a morte de Skalla.

Vivien cuspia maldições contra o barão e gargalhava da raiva dele.

Ele mantinha curandeiras ao seu lado durante todo o suplício de Vivien: freiras em robes nacarados, com as bocas costuradas com fios de ouro, que guiavam Vivien de volta à sanidade junto com sutras e feitiçaria cada vez que o barão terminava, suas incantações zumbintes como canto de grilos. Sempre que o barão cansava, sempre que ficava entediado, elas vinham juntas para lavá-la, alimentá-la com pedaços de pão amanhecido, goles de caldo de vegetais, água da chuva tão fria e pura que queimava sua língua.

O tempo passou a ser medido por estes eventos, horas e minutos substituídos por rangidos de portas, o sibilo de tecido arrastando pelo chão, o raspar de uma faca no veludo.

"Como ele funciona?"

Vivien observava o barão por um olho, o outro fechado por hematomas. "Devolva o Arco das Arcas, ou verei você morrer. Gritando."

Não houve visita subsequente. As freiras, no entanto, vieram uma última vez. Exceto que nesta ocasião, chegaram com camisola e anágua, gola e robe, todos acomodados em longas e brilhantes caixas de nogueira cheias de pot-pourri. Jacinto seco foi tecido no cabelo de Vivien enquanto a lavavam, removendo as roupas que haviam encrustado em sua carne, o tecido tão rígido que havia punhados que precisaram ser serrados.

As freiras realizaram as abluções sem comentário ou censura, dedos frios ao longo da curva musculosa de suas coxas, os tendões de seu pescoço, este último tenso demais, gentil demais mesmo com aplicações repetidas de água fervente com cheiro de lilás. Vivien estremecia sob os cuidados das freiras. Quando finalmente concluíram, as freiras vestiram Vivien em um conjunto modesto da cor da asa de uma pomba de luto. A Planeswalker vislumbrou a si mesma e fez uma careta. Sua nova vestimenta a fazia parecer menor, mais mansa, sua silhueta difundida pelo tecido macio e sem forma. Assemelhava-se a uma penitente vinda implorar socorro à igreja.

Vivien odiou aquilo.

Mas nada disse, silenciosa enquanto as freiras enlaçavam seus pulsos com correntes de filigrana, suas expressões relaxadas e serenas. Drogadas, Vivien pensou a princípio. No entanto, o olhar das freiras, por toda sua falta de personalidade, era aguçado. Autômatos, Vivien decidiu, conforme a conduziam por corredores que corriam como labirintos sob um firmamento de terra, sem traço da opulência de Luneau à vista. O fedor de salmoura coalhava em uma textura.

Vivien lançou um olhar ao redor. Havia ratos por toda parte, e larvas em amontoados da grossura de um polegar, toupeiras e minhocas, mas nada que ela pudesse usar; os ratos tanto a devorariam quanto devorariam o restante de Luneau. As larvas não teriam interesse nem as minhocas, e as toupeiras poderiam acidentalmente colapsar o teto. Desanimada, Vivien nada fez, permitindo que as freiras a conduzissem adiante.

Procissão Profana | Arte de: Bastien L. Deharme
Procissão Profana | Arte de: Bastien L. Deharme

Outra esquina, outra volta. A terra tornou-se mármore palaciano, ouro rosa e drapeado com seda vermelha. A passagem subiu, tornou-se envolta pela luz de velas. Vivien teve ânsia com o fedor súbito de pot-pourri: essências de rosa, jasmim, prímula e ylang-ylang. A procissão parou em frente a portas de jacarandá, um bruto de ombros largos em cada lado. Ambos os homens haviam sido enfiados em coletes e camisas de babados, os debruados longos demais, as mangas apertadas demais, gravatas desajeitadamente atadas sob seus pomos de Adão. Luneau podia espalhar todo o verniz que quisesse, mas estes homens permaneciam inequivocamente criminosos, bandidos de favela até seus cerne de nós dos dedos nus. Como um só, curvaram as cabeças para as freiras, um movimento afetado e mal executado por corpos mais acostumados à violência.

Nem as freiras nem Vivien comentaram. Os homens abriram as portas e a Planeswalker foi conduzida para dentro. Para sua surpresa, não era outra cela, ou ao menos, não uma que se conformasse à estética tradicional de uma prisão. Vivien visitara capelas com ornamentos menos luxuosos, prefeituras mais decorosas em design. O quarto era suntuoso, até berrante. O dote de uma rainha em superfícies espelhadas e madeira cara, o piso de ônix e arabescos de ouro.

Lá dentro, havia uma única mesa redonda, um penico, um catre minguado, uma cadeira esculpida para assemelhar-se a um grifo. No topo da mesa repousava uma tigela de frutas tão vibrantemente coloridas que pareciam irreais e um caneco de vinho picante.

A porta fechou-se atrás de Vivien.

Estava presa, novamente.


)

Como antes, Vivien logo se viu incapaz de medir a passagem do tempo. Sua tortura e sua correção haviam ao menos provido alguma estrutura ao seu dia. Agora, não havia nada, nem mesmo o som do mundo exterior, nada exceto seu próprio caminhar interminável, o estalar de seus dentes através da polpa das frutas, sucos respingando nos ladrilhos. Vivien quase conseguia discernir seu próprio batimento cardíaco naquele silêncio infinito e vazio.

Contou o comprimento e a largura do quarto duas vezes, depois outras duas vezes, primeiro medindo-o com sua passada e depois com o comprimento preciso de seus pés. Magia mantinha o quarto imaculado, a tigela de frutas cheia. Vivien experimentou. Alimentou o penico com núcleos de maçã e caroços de pêssego; o encantamento os levava embora, mas não o sapato que ela encaixou em sua boca, ou mechas macias do cabelo de Vivien.

A Planeswalker continuou a caminhar.

Isto era pior que a tortura, pior até que o espetáculo no coliseu, pior que qualquer coisa exceto a visão de Nicol Bolas erguendo-se naquele céu em chamas, rindo enquanto Skalla piscava para o branco. Aqui, Vivien nada podia fazer exceto revisitar o momento repetidamente. Nem mesmo o sono conseguia desviar de suas recordações. Quando Vivien dormia, sonhava com Skalla.

Eventualmente, a porta abriu-se novamente, algum ponto entre a primeira instância de cativeiro e um ponto no tempo, a Planeswalker quase se atropelou em gratidão, exultante pela distração. Um homem estava à saída: era um de seus guardas, puxando nervosamente o colarinho, o rosto rosado e gorduroso de suor.

"O barão quer ver ocê." Ao contrário de todos os outros que ela conhecera, o sotaque dele era provincial, relaxado e arredondado. O homem engoliu em seco. "Ele diz que tem algo importante pra perguntar pra senhora."

"Diga a ele para devolver o Arco das Arcas."

O homem deu de ombros. "Eu diria, mas não sô ninguém que possa fazê nada. O barão diz que a senhora pode vir ou pode ficar aqui."

A morte, naquele momento, apelava mais que o tédio contínuo. Vivien rangeu os dentes contra a verdade disso. O Barão de Vernot tinha que saber, tinha que ter previsto esta aversão à quietude. A capitulação parecia demais uma traição pessoal, mas Vivien estava farta deste lugar. Ela correria o risco, e o barão poderia ter o orgulho dela como pagamento.

"Tanto faz."


)

"Mademoiselle Reid, bem-vinda."

Ela piscou contra o brilho. Haviam emergido em um salão de baile: tetos abobadados e murais incrustados nas paredes, ouro e pérola e tons de ameixa rica onde não eram janelas que se estendiam do teto ao chão polido. Lá fora, Vivien conseguia ver o oceano, suas águas coroadas de prata.

O Barão de Vernot estava de posse de equipamento cirúrgico em frente ao monstressauro do show de dias antes, máscara sobre seu rosto estreito. O Rei Lucard sentava em uma assistência indiferente, cercado por cortesãos, ministros que dividiam seu tempo entre assuntos de estado e o escrutínio ávido das atividades do barão, o último dos quais era realizado através de óculos de observação escuros. Ele estava, Vivien percebeu com um sobressalto atordoado, não realizando uma autópsia, mas uma vivissecção. O monstressauro vivia.

Mas apenas por pouco. Espelhos pela sala, astutamente posicionados para que a audiência do barão pudesse ver de cada ângulo, ofereciam cada visão do procedimento. Foles e polias, máquinas complexas de vários tamanhos, tinham espasmos e latejavam. Cada vez que se moviam, o monstressauro urrava de dor. As freiras que haviam atendido Vivien, seus robes agora sujos com fluidos escuros, cercavam o sujeito do barão. Sempre que algo se rompia, apressavam-se a reparar o dano, sua magia uma lâmina de ouro cintilante. A audiência do barão assistia ao procedimento desapaixonadamente, ocasionalmente rompendo em aplausos polidos. A vivissecção era inteiramente periférica à noite deles, um tópico de conversa, uma distração, e uma que era menos importante que a mulher que caminhara em seu meio.

Eixo da Mortalidade | Arte de: Bastien L. Deharme
Eixo da Mortalidade | Arte de: Bastien L. Deharme

O barão limpou as mãos em um pano segurado por uma gamine e puxou sua máscara para baixo, sorrindo como se a visão de Vivien fosse tão bem-vinda quanto um saco inesperado de ouro. Como se fossem velhos amigos, criados nas mesmas cortes, legados com as mesmas ambições. Aliados, em oposição a torturador e vítima. O silêncio ondulou pelo salão de baile, absoluto. Não precisavam respirar, Vivien pensou distraidamente, seu adversário aproximando-se, o barão seguido por uma mulher com um carrinho de prata.

"A Rainha dos Fantasmas. Devo ser honesto. Senti falta de sua companhia, mas a pesquisa tem seus caminhos conosco cientistas. Como você está? Como tem passado?" O barão olhou por cima do ombro e assentiu para sua acompanhante, que retribuiu. Seu sorriso permanecia resplandecente. "Você certamente parece melhor do que antes. Gostou da fruta?"

"O Arco das Arcas." Havia demais deles para Vivien agir. Muitos arcos, muitas espadas, muitas oportunidades para que desse errado. Mas aquilo em si não era o problema. A questão era o que jazia no meio do salão de baile, morrendo em graus, fôlego espumando através de seus dentes. Embora grandes esforços tivessem sido tomados para manter a criatura viva, ninguém se dera ao trabalho de reparar sua perna. E por que se dariam? Vivien pensou amargamente. Melhor mantê-la assim, manca, indefesa, incapaz de fazer nada mais que estremecer através de seu tormento.

"Aquela palavra que você continuou mencionando. Skalla. É o seu plano natal, não é?" O barão continuou de forma relaxada, expressão saciada.

Uma batida de silêncio.

"Era," ele corrigiu-se, veneno em sua enunciação. "Era o seu plano natal. Peço desculpas. Posso ser inconsiderado. Nunca se deve confundir seus tempos verbais, especialmente quando se trata dos mortos. Skalla era o seu plano natal, não era? Antes de ser reduzido a cinzas, ao menos."

Vivien nada disse.

"E você é a última relíquia viva do plano. Um fantasma." O barão assentiu novamente para sua acompanhante, um movimento mais sucinto. Foi, como se viu, um sinal. A mulher empurrou seu carrinho para frente e puxou de volta sua cobertura de tecido marfim com um floreio. Lá estava o Arco das Arcas, seu corpo salpicado com sangue negro mas de resto parecendo quase inofensivo ao lado da aljava vazia de Vivien. "Sempre tive o dom de entender coisas que não entregam seus segredos facilmente. Mas até eu fiquei surpreso com quão preciso eu fui. Você é um fantasma, Mademoiselle Reid. Um fantasma que carrega seus mortos nas costas."

Ainda assim, Vivien nada disse. Sangue cobria o olho do dinossauro, rolado agora até a metade do branco, o fluido mais espesso ao longo da circunferência da íris. Ele arquejava em arquejos superficiais. De onde estava, Vivien conseguia ver os hematomas em seus pulmões, uma mancha negra ao longo dos órgãos pálidos, rosados.

"Mas o tempo de segredos acabou. Skalla não passa de brasas e cadáveres. Você tem uma opção, no entanto. Ensine-me como fazer uso da arma e nós a coroaremos com glórias, garantiremos que você nunca tenha um desejo não realizado. Faremos de você uma verdadeira rainha, e Skalla viverá novamente nestes salões."

Vivien exalou.

"Tudo bem. Mas preciso do Arco das Arcas."

O barão arqueou as sobrancelhas. "E que promessas eu tenho de que você não o usará para escapar?"

"Você não tem nenhuma." Vivien deu de ombros, tentando sem sucesso tirar os olhos do réptil moribundo atrás do barão, seu rosto contorcendo-se em uma careta. "Mas obviamente, você tem a vantagem. Estou aqui, não estou?"

O silêncio recompensou sua afirmação.

"O Arco das Arcas tem um mecanismo . . . único." Vivien fora criada para a caçada, e sabia, do modo como conhecia as migrações das aves e os hábitos da raposa ártica, quando atraíra a atenção de sua presa. O barão, por toda a sua pose, suas expressões comedidas, sua simulação de indiferença, fora aguçado pela declaração de Vivien. "No momento da morte de uma criatura, ele atrai uma imagem do moribundo para dentro de si, preservando o ser em suas fibras para sempre."

Lobo de Skalla | Arte de: Luis Lasahido
Lobo de Skalla | Arte de: Luis Lasahido

O barão virou-se no meio da exposição de Vivien, já gesticulando para sua armada de assistentes. "Isso soa simples o bastante para se fazer."

"Apenas se você for eu."

O barão parou.

"Perdão?"

"Você pode tentar o quanto quiser, mas não funcionará a menos que eu esteja realizando o ritual."

"Oh?" O barão lançou um olhar impaciente em sua direção, mãos unindo-se atrás de sua coluna. Girou sobre o calcanhar, um movimento lento, deliberado em sua graça, e começou a espreitar em direção a Vivien. "É mesmo? Uma ostentação interessante a se fazer."

Vivien deu um de dar de ombros relaxado. "O Arco das Arcas é meu. Foi feito para uso pelos xamãs de Skalla. Mais especificamente, foi feito para mim, e destinado à minha mão. Você pode tentar o quanto quiser, mas nada fará senão sofrer por sua impudência."

Arte de: Ken Lashley
Arte de: Ken Lashley

Não era uma mentira. Não realmente. Uma verdade, talvez, tecida pelos ossos carbonizados de tudo o que Vivien amara, e e daí que ela não desvendaria suas nuances para o barão, não cortaria a verdade e a colocaria sobre a mesa dele? Nesta conjuntura da história, ele bem poderia ter sido feito para Vivien. De todas as pessoas que poderiam ter reivindicado o artefato, ela era a única restante.

"E se eu não acreditar em você? Se eu decidir empenhar-me nisso eu mesmo?"

"Então seu povo continuará morrendo." Vivien lambeu sua boca rachada, a língua deslizando sobre seus dentes. "Você sabe que tenho razão, Barão. Você viu o preço de sua obstinação. Está disposto a arriscar mais disso, Barão? Quantas semanas mais levará até que lhe tragam outro espécime? Quantas oportunidades de fuga você me dará?"

O silêncio estremeceu com riso. Vivien ergueu os olhos e observou enquanto a expressão do barão se transformava, seu verniz imperturbável cedendo — apenas por um relance de momento, um arquejo de tempo tão infinitesimalmente curto que ela não o teria visto se não estivesse olhando — a algo como raiva. Ele remendou aquela rachadura em suas defesas com um sorriso quase imediato, mas foi o suficiente para Vivien saber que tirara sangue.

Seu próprio sorriso cresceu. "Somos ambos prisioneiros da situação, Barão. Tenho pouquíssimas escolhas, e você também."

O barão produziu um ruído de desgosto pela garganta. Lançou um olhar frio do topo do crânio de Vivien até seus pés calçados em sapatilhas, o próprio olhar da Planeswalker cheio de um desafio quieto e à espera. Ela o tinha em sua mira. O barão sabia disso, e Vivien também. Ela inclinou a cabeça em direção ao ouvido dele. Vivien tinha cinco polegadas de altura a mais que o nobre e quase outras tantas de ombro a ombro. Atrás deles, o monstressauro gemeu novamente, a morte passando mãos suavizantes sobre um corpo que deveria ter sido entregue à sepultura há uma vida atrás.

"Você sabe o que se aprende assistindo seu plano morrer, Barão?" Vivien baixou o tom de voz. "Vendo tudo o que você conhece e ama subir em chamas? Da permanência de tal conhecimento? Você tem noção do que isso faz com uma pessoa?"

Desta vez, foi o barão quem nada disse, bochechas retraídas conforme as mordia por dentro. Vivien imaginou se sua audiência estava ouvindo. Conhecia os rumores, os vários boatos sobre quais talentos o vampirismo poderia prover, e "sentidos aprimorados" era uma frase que se repetia em cada história. O silêncio no salão de baile certamente contribuía para a veracidade daqueles contos folclóricos. Era um silêncio conhecedor, presunçoso, indulgente, cortado do mesmo material diamantino que as joias que circundavam a garganta do Rei Lucard, quase felino em sua demonstração daquelas qualidades.

Vivien esperava estar certa. Luneau parecia deleitar-se em sua dramaturgia, independentemente de quem pudesse ser espetado no desfecho; qualquer coisa valia desde que o show prosseguisse e impressionasse. E Vivien planejava usar aquela ganância. Seu sorriso espalhou-se ainda mais.

"Diz a você que existem coisas piores que a morte, piores que a tortura, piores que qualquer horror que o homem possa visitar sobre outro. Você não me assusta." A Planeswalker subiu os dedos pelo esterno dele, tocou o nariz do barão com efeito espetacular: o silêncio flexionou e então deu lugar a um rugido de riso. "Mas acho que eu assusto você."

"Acho que você pode estar fazendo presunções demais para a sua saúde, mademoiselle." O barão rosnou entre dentes cerrados.

"Não." Vivien dardejava o olhar para o Rei Lucard, que há muito abandonara suas conversas e sentava agora com um visual de interesse ávido. Ao contato visual, ele dobrou dois dedos para uma de suas damas de companhia. Ela assentiu e circulou o grupo de cortesãos, movendo-se em direção a um carrinho festonado com decantadores de cristal e taças de vinho graciosas. A mulher serviu uma porção generosa de algo cor de mel e quase preto, a luz quase iridescente através do prisma do álcool, e começou a mover-se de volta em direção a Vivien, que permitiu-se então uma risada baixa e rica.

"Eu realmente acho que não."

Cálice do Hierofante | Arte de: John Stanko
Cálice do Hierofante | Arte de: John Stanko

Insubmissa, Parte 3

Das muitas mentiras que ela recitara ao Barão de Vernot, o processo por trás da adição de outra vida ao Arco das Arcas não fora uma delas. A relíquia de fato fazia instantâneos dos moribundos, embora qualquer feitiçaria trabalhada nos ossos do Arco das Arcas não parasse simplesmente ali, transformando cada memória de farrapos e ossos de uma criatura em seus últimos momentos no animal em seu auge. Houve um tempo em que Vivien, é claro, não era a única que podia realizar o ritual. Seus colegas xamãs também possuíam aquele conhecimento.

Mas agora Vivien era a última de Skalla.

E o barão não estava disposto a confiar em suas afirmações. Para a surpresa de ninguém em particular, o barão recrutou uma pequena frota de secretários para seguirem Vivien, pergaminhos na dobra de seus braços, uma pena em suas mãos dominantes. Pequenos acólitos os perseguiam por sua vez, segurando potes de tinta. "Para a posteridade," ele informou Vivien, girando conhaque em um cálice de âmbar levemente translúcido, sua expressão tempestuosa de desconfiança.

O que surpreendeu Vivien foi o equipamento que trouxeram para o salão de baile: halos de fiação, junto com postes metálicos, artefatos filigranados gravados com feitiçaria que ela não reconhecia. Seu quebra-cabeça não durou muito. Rapidamente, os asseclas do barão montaram a engenhoca ao redor do monstressauro moribundo. Mais freiras foram convocadas para a sala e, cantarolando um par de acordes, conjuraram uma barreira cintilante.

"Lá dentro," disse o barão.

Vivien obedeceu.

Não haveria oportunidade de revisitar o processo, não com o que Vivien pretendia, não com a verdade que ela mantinha guardada atrás dos dentes como os últimos ritos de um mundo há muito morto. Ela tinha uma oportunidade de fazer isto certo. Levemente, a Planeswalker correu os dedos ao longo da superfície da barreira mágica. Embora majoritariamente translúcida, parecia uma parede de aço.

Vivien agachou-se ao lado do monstressauro, o réptil tão fraco agora que mal se agitava ao seu toque, apenas exalava um letárgico estertor de morte, seu hálito fedendo a bile, ferrugem e carniça e, muito, muito levemente, uma tintura de lilases e açafrão. Ele piscou úmido para Vivien, dutos lacrimais vazando uma emulsão gredosa.

"Anestésicos," disse ela suavemente.

As freiras trocaram olhares entre si, assim como os escribas.

"Ou álcool. O que quer que sua generosidade permita aqui." Vivien contraiu a boca. "Sei que não faz parte do seu credo pessoal, mas o Arco das Arcas é excruciantemente preciso. Se ele capturar esta coisa no auge de sua dor, a invocação partilhará de uma condição similar. Como você pode imaginar, é difícil lutar quando se está meio louco de dor."

O barão entornou seu conhaque, serviu-se de uma porção fresca, antes de acenar com a mão irritada para as freiras. "Façam como ela pede."

As freiras obedeceram. Conforme sua magia infiltrou-se no monstressauro, ele suspirou e desmoronou, parecendo encolher-se sobre si mesmo, recuando para o novo entorpecimento. Seus olhos fecharam-se trêmulos e, lentamente, a pausa entre cada respiração começou a se alongar.

Interdição Piedosa | Arte de: Lake Hurwitz
Interdição Piedosa | Arte de: Lake Hurwitz

"Pronto," Vivien disse e murmurou uma prece às brasas de Skalla, sua voz tão baixa que estava certa de que nem mesmo os mortos-vivos de Luneau poderiam discernir seus louvores. Acariciando o monstressauro uma última vez em seu nariz largo, Vivien levantou-se, seu peso inclinado contra o Arco das Arcas, sua ponta encaixada em uma rachadura no ladrilho do chão.

Ninguém mais tentava fingir apatia. A totalidade da sala inclinava-se no ato de observar; cada nobre, cada cortesão, até as servas de cozinha curvavam-se sob o fardo de sua posição. Observavam, ávidos como cães de caça. Vivien fez um arco com seu dedo indicador e polegar, acariciando o Arco das Arcas como um amante. Ela tinha precisamente um truque sobrando, uma última coisa a tentar. Vivien fez uma reverência para sua audiência, colhendo risos.

Chegara a hora.

A Planeswalker bateu o Arco das Arcas três vezes contra o chão e, no terceiro impacto, o som ecoou. Energia revolveu-se e ondulou pelo salão de baile, saltando pelas paredes, sibilando através da ligadura dos lustres, um brilho transparente de luz refletido em cada rosto que observava. Então, como em qualquer explosão, o poder retornou uivando ao ponto de parturição, o chão sob os pés de Vivien irradiado de tal maneira que quase parecia que a realidade descascara, deixando apenas o branco, apenas um brilho tão intenso que não havia espaço para o conceito de sombra.

Vivien golpeou o chão com o Arco das Arcas novamente.

O artefato abriu-se. Espalhou-se em casca e galho metálicos, florescendo em intervalos, configurações geométricas de liga brilhante e misteriosa. O Arco das Arcas fendeu-se até o cerne, revelando um lampejo de luz tão brilhante que fez os olhos de Vivien lacrimejarem. Mas ela assistiu a tudo sem piscar. O monstressauro merecia aquela dignidade ao menos.

Conseguia sentir os resquícios do espírito do monstressauro, um turbilhão de nervos disparando errado e uma raiva que ele estava exausto demais para satisfazer. Cuidadosamente, Vivien atravessou o poder do Arco das Arcas através de seu esqueleto arruinado, persuadindo aquela centelha final de consciência para si, promessas zumbindo através da conexão. O monstressauro não resistiu. Veio a ela em uma torrente, cavalgando o elo para dentro do Arco das Arcas com um guincho de alegria. Vivien estremeceu conforme rompeu o momento, desorientada pela pequenez de seu próprio físico, a presença do monstressauro minguando para um toco no fundo de seus pensamentos. Seu corpo permaneceu, em repouso finalmente, agora envolto na mesma estranha liga que revestia o Arco das Arcas.

"Isso foi tudo muito bom e dramático. Um show excelente, de verdade." A voz do barão. "Você terminou, então?"

Vivien piscou, atônita. Luz infiltrava-se de suas pontas dos dedos e descia de sua língua. Tinha para ela gosto de giz e cálcio, uma fúria como nada que ela vivenciara, fúria como se pudesse comer o mundo inteiro. Isso era novo.

"Sim."

"Bom." Ele agitou uma mão. "Agora, vamos ver os resultados."

"Sim," Vivien disse novamente, sentindo-se lenta, a palavra como melaço entre os dentes. Tangenciou o Arco das Arcas, sentiu-o zumbir sob a carícia de seu polegar, o monstressauro tão perto sob a superfície que era tudo o que ela podia fazer para mantê-lo quiescente. Sua ansiedade vertia através do contato, derramava-se em seus ossos. O que estava acontecendo? As essências no Arco das Arcas eram normalmente muito mais quietas, meio adormecidas, felizes por estarem seguras, paradas, silenciosas no escuro do artefato. Mas não o monstressauro.

A Planeswalker conteve o impulso de lançar-se contra o barão, educou-se para a estabilidade, ergueu o Arco das Arcas apenas para o barão limpar a garganta.

"Não. Teremos outra pessoa para fazer as honras."

Sinalizou para um guarda que bem poderia ter sido um touro transformado em uma forma mais conveniente, o homem de pescoço tão grosso que não havia separação entre sua garganta e sua mandíbula. Ele olhou feio para Vivien enquanto caminhava pesadamente em direção a ela, o campo de força surgindo para permitir sua entrada. O barão gesticulou para as freiras, e suas vozes soaram novamente, selando o guarda dentro da área de contenção com Vivien.

Sacramento Sanguíneo | Arte de: Bastien L. Deharme
Sacramento Sanguíneo | Arte de: Bastien L. Deharme

"Agora, mostre a ele como fazê-lo."

Vivien passou o Arco das Arcas para o guarda carrancudo. Grosso como o homem era, logo divulgou uma destreza que Vivien não antecipara, seus dedos rápidos apesar de sua largura de salsicha. O Arco das Arcas cantou conforme ele ergueu a relíquia, o guarda mirando peritamente ao longo de seu braço, a flecha de Vivien encastoada e pronta. Um espasmo minúsculo daqueles dígitos carnudos, e seu corpo explodiu para fora.

A Planeswalker olhou de volta para o barão, rosto plácido. "Eu avisei."

"Não aceitarei isto," sibilou ele. "Tivemos sucesso em invocar o urso. Deve haver um processo. Algo que você não está me contando. Você está fazendo isto deliberadamente? Deve estar."

"O Arco das Arcas é meu. Não obedecerá a outra mão."

"Mentirosa."

Vivien estendeu o artefato em desafio. "O senhor é bem-vindo a tentar."

O barão fechou a mão em um punho e Vivien decidiu, com um prazer mórbido, que o visual no rosto dele seria o suficiente. Que não importa o que seguisse, não importa o que viesse a acontecer, aquela memória da clara frustração do barão seria uma luz à qual ela se agarraria. Ela sorriu. "Eu avisei."

"Silêncio."

Vivien baixou os olhos para os remanescentes do cadáver do guarda. O Arco das Arcas o deixara uma bagunça. Quase por acidente, Vivien captou um movimento. Ela abaixou-se.

Uma aranha. Vivien observou em silêncio conforme o aracnídeo escolhia seu caminho cuidadoso do bolso do guarda e avançava polegada a polegada em direção à borda da barreira. Era pequeno o suficiente para a magia ignorar sua existência, pequeno o suficiente para os vampiros descartarem sua presença.

Vivien teve uma ideia.

"O problema," disse a Planeswalker. "O problema com pessoas como o senhor é quão frequentemente ignoram as pequenas coisas, como presumem que a relojoaria dos mundos opera sem esforço, alimentada apenas pela sua vontade. Presumem que as engrenagens não existem. Não conseguem nem vê-las."

"Que conversa fiada é essa?" disparou o barão, avançando de volta em direção à parede de luz que os separava.

"Diga-me," Vivien traçou o mundo com seus pensamentos, sentiu a aranha estremecer e inchar sob sua atenção. "Já se perguntou como pode ser ser tão pequeno e insignificante quanto uma aranha?"

Não deu ao barão oportunidade de responder, seu poder latejando através do mundo, arabescos de verde espalhando-se dela em um halo. O barão ergueu a cabeça bruscamente, olhos arregalados.

"O que você fez?"

Ingurgitada na magia de Vivien, a aranha tornou-se do tamanho de um cão pequeno, do tamanho de uma onça, de um urso. Cresça, pensou ferozmente para a aranha, desenhando um sigilo no ar com os dedos, os movimentos rápidos e imundos. Alarmada pelo seu crescimento, o aracnídeo virou-se e lançou-se contra o rei. As freiras e os nobres soltaram gritos à visão, toda atenção subitamente voltada para seu governante. No caos, as primeiras afrouxaram seu domínio sobre a prisão de Vivien.

Aranha Gigante | Arte de: Randy Gallegos
Aranha Gigante | Arte de: Randy Gallegos

Era como ela esperava. Sem perder um tempo, encastoou uma nova flecha e liberou o projétil conforme as paredes caíam. A flecha queimou pelo ar, evaporando em brasas, em osso e penas vívidas gravadas em magia, em um corpo não mais aleijado por ferimentos, um corpo perfeito e intocado, primorosamente preparado para decretar aquele desejo final e desesperado.

A flecha enterrou-se na parede, e o monstressauro etéreo arrancou-se para fora, rugindo, os poderes de Vivien lançando-se para frente para envolver a estrutura recém-nascida do réptil. Ele balançou a cabeça, piscando, e nem mesmo o choque de estar vivo novamente foi suficiente para distrair o monstressauro de sua intenção. A criatura morrera faminta por retribuição. Não partiria silenciosamente sem cumprir aquele desejo.

Vivien mergulhou lateralmente conforme o dinossauro trovejou em direção ao Barão de Vernot, cortesãos gritando dispersando-se em seu rastro, uns poucos indefesos pisoteados sob seus pés com garras, seus corpos prensados tão chatos que poderiam ser dobrados ao meio. Os raros guardas leais o suficiente para ficarem em seu caminho foram espancados para o lado, atirados contra as paredes com um balanço da cabeça da criatura.

A forma cintilante do monstressauro esforçava-se contra o firmamento, fendendo o teto como se fosse a pele de uma fruta. Escombros e cinzas caíam em fitas de cima. O edifício gemia. O trabalho de escoramento, agora desatado, cedia em incrementos, a gravidade puxando a alvenaria. Nada disso servia para dissuadir o monstressauro, seus olhos selvagens.

Apesar das probabilidades, o Barão de Vernot não fugiria. Embora abandonado por seus comparsas, com o salão de baile já colapsando em ruína, manteve sua posição, dentes à mostra e espada desembainhada, sua estrutura parecida com a de um boneco nesta justaposição contra a enormidade do monstressauro. Ele borrou-se em sombra, ziguezagueando para cima, a cauda de cometa de seus movimentos acelerados revelando uma trajetória ascendente através dos escombros que caíam. Vivien captou um clarão de prata conforme o barão desferia o golpe, mas não importa as habilidades de alguém, não importa os diferenciais de poder oferecidos pelo treinamento, a natureza possuía favoritos empíricos.

Dente-de-sabre Enfurecido | Arte de: Izzy
Dente-de-sabre Enfurecido | Arte de: Izzy

Ao final do dia, a vida sempre fora um concurso de força bruta.

A espada do barão passou inofensivamente através da cavidade sob o olho direito do lagarto, sofrendo erosão até tornar-se um caroço de liga. Antes que pudesse reverter a estocada, o monstressauro lançou sua cabeça para cima, atirando o barão para o ar. Vivien viu a surpresa dardejar pelo rosto do vampiro, óbvia mesmo à distância. E mais rápido que o barão, mais rápido que qualquer um pudesse ter antecipado, o monstressauro projetou sua bocarra para frente, um movimento de cascavel, dentes fechando-se sobre o torso do vampiro.

Vivien parou cambaleante, encarando.

O monstressauro voltou um olhar pesaroso para ela, expressão tão ludicamente meditativa, tão humana em sua incerteza que ela quase riu à visão. O barão encarou seu captor, um terror animal surgindo em seu rosto. Então, com considerável aprumo e não pouca cerimônia, o monstressauro mordeu com força e as duas metades do que outrora fora o Barão de Vernot caíram silenciosamente, desordenadamente no chão.


)

A maioria das invocações de Vivien era de natureza transiente, raramente persistindo por mais que um minuto, as criaturas contentes em dissipar-se após um namoro perfunctório com o caos. Mas o monstressauro não se dissiparia. Tendo lidado com o Barão de Vernot, o réptil estava agora sem rumo, mas não permaneceu assim por muito tempo. Farejou o ar uma vez antes de escolher cuidadosamente uma rota através das portas para dentro do palácio, alheio aos cortesãos ainda girando para fora de seu caminho. Vivien seguiu atrás, ignorada em seu rastro.

Sua trajetória os levou além do Viveiro Real, que fervilhava agora com fauna agitada, seus cativos ou galvanizados pela proximidade do monstressauro ou simplesmente excitados pelo fedor de destruição no ar. Não levou muito tempo para Vivien chegar a uma decisão. Conforme o monstressauro tomou outra esquina, Vivien atravessou sua magia através de uma família de gnus, estimulando suas células até as criaturas crescerem o suficiente para esmagarem seu confinamento. Fez o mesmo novamente para tudo por que passou. Cabeças-de-martelo e coatls e ursos de corpo largo, poder saltando sob eles como relâmpagos.

Alguns dos animais caíram juntos em nós frenéticos, carnívoro e presa arrancando pedaços um do outro, mas a maioria não o fez. Como o monstressauro em fúria, pareciam absortos pelo pensamento de vingança. Seus adestradores, anteriormente seguros em seu conhecimento de que estavam inoculados contra a consequência de sua própria crueldade, rapidamente viram-se engajados em batalhas de vida ou morte. Gritos avultaram pelo ar.

E ainda assim, o monstressauro mantinha sua forma, de alguma forma, alimentado por algo. Sua raiva, talvez? Ou a de Vivien? A Planeswalker decidiu que não importava. Em vez disso, contou os minutos entre a corporificação e a desintegração. Cada vez que o monstressauro cintilava para fora da existência, disparava uma nova flecha pelo ar. Os corredores alargaram-se em uma galeria. Ali, o monstressauro parou, cabeça inclinada para um lado. Homens em perucas em camadas e mulheres pintadas com pós perolados, seus corpetes altos e inaturais, olhavam de boca aberta para a visão.

Uma garota magra como um trilho, mal uma adulta por qualquer estimativa da palavra, cambaleou incertamente para frente. Uma coleira pendia de sua mão; Vivien seguiu a corda até onde ela se prendia ao colarinho de um pequeno raptor. Alguém passara blush em suas escamas esmeralda, equipara seu pescoço com uma gola tão palhaçamente grande que ficava amplamente claro que a decoração impedia sua habilidade de ver. Vivien franziu o cenho para a criatura. Parecia miserável.

Aquele momento, o monstressauro começou a desvanecer, minguando em pontos brilhantes, um contorno de criatura que logo se degradou em uma névoa indistinta. Vivien cerrou um punho, a congregação ainda silenciosa, ainda atônita pelo que transcorrera. Atrás dela, ouvia-se o rugido do Viveiro Real ainda em amotinamento, o clamor baixo de seus habitantes periodicamente interrompido por gritos aterrorizados.

"Suponho," Vivien finalmente disse. "Que este é o lugar onde costuma-se fazer um discurso dramático."

O raptor saltou para frente, cabeça inclinada primeiro em uma direção e depois na seguinte, movimentos bruscos e parecidos com os de um pássaro. Chilreou uma nota inquisitiva para Vivien.

"Ou ao menos, informá-los do que está acontecendo."

Os sons estavam ficando mais altos.

"Realmente não tenho certeza de qual é o protocolo nisto." Sem ser chamado, um sorriso ancorou-se. "Mas continuo sentindo que alguma medida de exposição informacional é necessária."

Baixou a mão.

"Qual o significado disto?" começou um homem de aparência patriarcal com uma barba aparada, seu físico ainda formidável apesar da evidência de meia-idade. Pousou dedos longos na bainha de seu sabre, encarando com fúria. "Quem é você? E o que está acontecendo no palácio?"

"Alguém uma vez descreveu a morte de uma nação para mim como uma 'misericórdia'. Realmente não entendi o ponto dele então, ou de onde ele vinha. Mas agora, agora encontro-me em perfeita compreensão." Vivien desenhou oitos preguiçosos com os dedos, magia começando a se coletar em sua palma, raios de poder cintilante. "Enfim. Isto é uma misericórdia. Isto é o último que vocês verão de Luneau. A esta hora amanhã, o ermo terá este lugar novamente e vocês serão nada além de uma memória a ser esquecida."

Vivien fechou o punho e o raptor soltou um sibilo confuso, seu corpo subitamente assolado por convulsões. Ao contrário dos habitantes do Viveiro Real, não cresceu de maneira uniforme. Em vez disso, a criatura inchou em surtos, seu crescimento medido pelos movimentos da mão de Vivien e pelas moções de seu poder, desenrolando-se verde e serpentino de sua estrutura. Pernas primeiro, cauda, depois sua cabeça antes de finalmente seu torso seguir o exemplo. Durante todo o processo, sua dona só pôde encarar, de boca aberta em perplexidade sem palavras.

Gigantossauro | Arte de: Jonathan Kuo
Gigantossauro | Arte de: Jonathan Kuo

Em segundos, o raptor superou sua mestra, baixando-se para observá-la com um olho ametista luminoso. Em resposta, ela abriu a boca como um peixe em silêncio, um tremor de som agudo eventualmente escapando. "O-o-o — "

Seu antigo animal de estimação não partilhava de sua confusão. Empinou, chilreando várias notas cristalinas, sua curiosidade sobre sua dona claramente saciada. Então, sem qualquer reserva, moveu-se para frente e fechou as mandíbulas ao redor do crânio da vampira, dentes triturando através das vértebras.

A decapitação da jovem vampira deslocou algo na multidão. O pandemônio irrompeu através da burguesia em ondas, espalhando-se, crescendo, até não ser nada além de histeria, todos os pretextos de comportamento esclarecido esquecidos diante da carnificina. Aqueles com comando ao menos passável de suas faculdades fecharam o cerco sobre Vivien, sibilando, mas a Planeswalker apenas os escrutinou com vaga indiferença.

Algo estava se aproximando.

Um segundo antes de o estouro irromper através das portas, Vivien deu um passo lateral. Seus adversários, por sua vez, só tiveram momentos para olhar para cima, momentos para notar as feras trovejando pelos corredores. Conforme os fugitivos do Viveiro Real reduziam seus antigos algozes a uma polpa uniforme, Vivien viu-se sorrindo.


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O Palácio Real desmanchou-se como uma carcaça roída até os farrapos por cães. Em surtos e paradas, sem sequência coerente, a arquitetura lutando o tempo todo para permanecer vertical. A gravidade, no entanto, possuía um apetite insaciável. Logo, o Palácio Real caiu, poeira subindo ao ar.

Ceratops da Trompa de Cerco | Arte de: Filip Burburan
Ceratops da Trompa de Cerco | Arte de: Filip Burburan

Mas Vivien Reid não estava nem na metade do caminho com Luneau.

Havia mais caos a ser operado.


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O café era, em mais de um aspecto, indistinguível dos outros que festonavam o distrito cultural de Luneau. Ali, museus e matinês devassas compartilhavam as mesmas ruas. A arte tomava muitas formas, algumas menos saborosas que outras, mas Luneau raramente estava inclinada a julgamentos. Os estabelecimentos de comida desfrutavam de negócios movimentados como resultado desta ideologia generosa. Havia sempre clientes. Às vezes, eram estudiosos e conhecedores, famintos por um espaço para discutir e dissecar o dia. Às vezes, eram indivíduos mais berrantes, embriagados de luxúria e simplesmente desesperados para sentar. Independentemente de sua natureza, estavam inevitavelmente carregados de dinheiro e, para o deleite do proprietário deste café em particular, frequentemente excessivamente generosos com gorjetas na forma de frascos de sangue.

O homem em questão estudou seu reflexo no espelho. Era alto, esguio, com ombros estreitos demais para prover qualquer peso à sua estrutura. Mas não pouco atraente. Ao menos, fora isso que inferira das interações com sua clientela feminina. O proprietário corrigiu o ângulo de sua peruca. Não ficaria bem parecer desarrumado.

A noite estava abafada, imperturbada por qualquer coisa que sequer lembrasse uma brisa, e o ar assentava sobre Luneau como uma toalha molhada aquecida sobre um cadáver. Não que muitos parecessem se importar. A elite da cidade, particularmente aqueles numerados entre a Legião do Crepúsculo, parecia ter preferência por tais climas, banhando-se no calor, enquanto os humanos murchavam.

Escolheu um caminho lento em direção a onde seus clientes mais recentes residiam. Ambos eram oficiais condecorados, esguios, impressionantemente asseados apesar do fato de passarem a maior parte do tempo embarcando em expedições rumo a território estrangeiro. O proprietário gostava deles por esse motivo. A maioria dos exploradores eventualmente perdia o jeito com a higiene, junto com qualquer interesse em reconciliação com a ideia.

"O café da manhã dos senhores," disse o proprietário.

Reconheceram-no com um olhar e sorrisos mornos. O proprietário pousou um arranjo de víveres.

Luneau estremeceu sob seus pés.

Um terremoto? Era possível. Embora apenas infrequentemente assolada por tais tremores, não era um fenômeno desconhecido e, como tal, o proprietário apenas via motivo leve para preocupação. Precisaria segurar seu rack de especiarias, garantir que o modesto estoque de garrafas de vinho do café permanecesse seguro em seu abrigo. Pequenos detalhes. Tarefas simples. Ficaria tudo bem.

"Pare de amuado," disse um dos homens. O proprietário desacelerou os passos para bisbilhotar. Fofoca era sempre boa com tais homens do exército.

"Como se você estivesse mais alegre com isto. Você sabe que o Barão de Vernot está estudando o dispositivo agora mesmo," disse seu companheiro.

O primeiro homem soltou um ruído exasperado. "Espero que ele falhe, então. Se ele tiver sucesso em decifrar aquele artefato estúpido, ficaríamos sem emprego."

"Cuidado com essa sua língua," retrucou o amigo. "Isso é traição o que você está cuspindo."

"Não traição. Verdade. Se Luneau aprender a fazer uso de algo assim, seríamos deixados para mendigar nos becos. Escreva o que eu digo. A realeza não se importa com pessoas como nós, emblemas ou não. Se eles podem fazer seus próprios animais, por que se dariam ao trabalho de nos pagar para encontrar mais?"

Antes que seu amigo pudesse responder, o tremor sob seus pés, que fora constante mas inofensivo, subitamente tornou-se algo impossível de ignorar e, ainda mais impossivelmente, algo que recordava a juventude do proprietário. Uma vez por ano, como que para compensar sua mundanidade, o minúsculo assentamento de onde ele vinha entregava-se a uma tradição inesperada:

Soltava raptores jovens pelas ruas.

Como tal costume bizarro passara a existir e por que alguém acharia necessário pedir a adolescentes para coletarem penas de lagartos em fúria era algo que o proprietário nunca entendeu. Mas como cada imigrante da cidade, como cada homem ou mulher nascido naquelas colinas, ele carregava consigo memórias de como o mundo estremecia e sacudia a cada ano sob os pés daquele estouro anual.

Isto era pior.

Muito pior.

O café que ficava oposto ao seu no cul-de-sac cedeu como uma perna quebrada, mesmo conforme corpos animais inundavam as ruas, tombando uns sobre os outros em um aguaceiro de pelo e garras e gargantas uivantes. Sob outras circunstâncias, o proprietário poderia ter se deleitado com a visão, mas não havia tempo. Não havia sequer palavras para descrever o que ele estava vendo. Lêmures balançavam entre as balaustradas, caçados por gaviões. Bovinos de tamanhos variados, felinos dentes-de-sabre e mais mundanos. O som de porcelana estilhaçando atraiu a atenção do proprietário.

Soltar o Viveiro | Arte de: Simon Dominic
Soltar o Viveiro | Arte de: Simon Dominic

Olhou e riu, meio histérico, meio maravilhado com a situação. Havia touros em sua loja de louças local, perseguindo sua clientela pomadada para as ruas. E por toda parte no meio, humanos nas roupas mais sujas, garçonetes e açougueiros e marinheiros de peito nu, uivando de alegria enquanto corriam em meio ao caos, mal conscientes do perigo. Ao contrário dos donos das lojas, eles tratavam aquilo como um festival, uma celebração tão primal quanto qualquer coisa que o proprietário conseguisse recordar.

No meio de tudo aquilo, havia os dinossauros:

Sim, os raptores da juventude do proprietário, só que adultos e radiantes de penas. Bandos de aegissauros de movimento lento, mugindo como touros. Espinossauros e dentes-de-espada, esforçando-se para ficar à frente dos monstressauros, dos tiranos, dos necrófagos de bocarra mortal negros como o crepúsculo. Estes não tomavam interesse pelas estradas. Esculpiam novas para si mesmos, chocando-se através da cidade, derrubando os edifícios no chão. Os herbívoros levaram sua profanação de Luneau um passo além. Eles paravam para roer os jardins verticais da cidade, mordiscando suas flores até as raízes.

Conforme o distrito cultural de Luneau evacuava de suas respectivas casas e negócios, o dilúvio de vida selvagem rapidamente demolindo tudo em seu caminho, o proprietário soltou uma risada, delirante de confusão. Percebeu então o que era: estas criaturas não estavam apenas inesperadamente em toda parte, elas tinham cada uma três vezes seu tamanho habitual, massivas demais para serem plausíveis. Como isto estava acontecendo? Nada disto parecia real.

Um ruído captou sua atenção. Virou-se para ver um par de monstressauros cambaleando através dos corpos fervilhantes. Um novo duo reprodutor, trazido para Luneau para substituir o último. Mas não foi isso o que atraiu sua atenção. Não, foi a mulher sentada no topo do crânio da fêmea, expressão fixada com um olhar de sombria satisfação.


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Se Luneau escolhesse reconstruir, Vivien decidiu friamente, levaria décadas até que tivessem sucesso. Ela engatinhou para uma posição agachada, equilibrando-se no topo da cabeça do monstressauro, e saltou ao passarem por uma sacada. Vivien deu uma cambalhota nonchalant até parar, levantando-se em um movimento suave. Espanou sua bata. Haveria necessidade de encontrar couros de verdade, algo que não prendesse em espinheiros e rasgasse à menor provocação. Os gostos de Luneau, mesmo em seu nível mais humilde, eram inteiramente impráticos.

Um brontodonte passou pesadamente pelo poleiro de Vivien. Seria o da sua viagem naval? Era difícil dizer. A passagem através do oceano parecia ter sido há uma vida inteira. Certamente, ela nutria esperanças de que fosse o mesmo brontodonte. Embora dificilmente o perigo que os carnívoros do Viveiro Real poderiam representar, ainda seria uma entidade a se temer. Especialmente se sua espécie fosse inclinada a rancores, a memórias longas. Talvez ele encontrasse uma parceira nos ermos de Luneau. Seja qual for o caso, levaria muito tempo até que os vampiros da cidade atribulassem o restante do mundo. Havia dinossauros em suas selvas agora, mais do que jamais poderiam esperar lidar.

Vivien debruçou-se sobre os trilhos, observando a anarquia que desencadeara sobre Luneau. O Viveiro Real, ou o que restara dele, começara a descobrir os jardins verticais da cidade. Ela sorriu, mais satisfeita com a situação do que talvez o justificado. Mas a estadia por Ixalan fora uma experiência esclarecedora.

Quase sem ser chamada, suas mãos vagaram em direção ao Arco das Arcas. Vivien não considerara quão genuinamente simples era remover a relíquia de sua pessoa, ou o risco iminente de ser tomada e usada por partes externas. Algo precisava ser feito sobre isso. Vivien não toleraria um bis. Mas talvez a resposta jazesse com os habitantes do Arco das Arcas.

O monstressauro provara-se excepcionalmente útil. Até mais que qualquer outra de suas aquisições. E como não poderia? Era maior, mais feroz que tudo o mais em seu arsenal. Se Vivien continuasse a encontrar presas maiores para caçar, poderia ter uma resposta.

Fechou os olhos. A membrana que dividia os planos era fina aqui, dificilmente mais substancial que uma película de pele. Através do filme, Vivien conseguia quase ver o próximo mundo. Dragão. A palavra saltou por seu cérebro, assentando-se na imagem de seres colossais, antigos e assustadoramente estranhos, seres com pulmões cheios de fogo e risada zombeteira. Nicol Bolas não era o único dragão no Multiverso. Havia outros. Menores, menos astutos, mas dragões no entanto. Se aprendesse a aproveitar o poder deles, se pudesse aprender como funcionavam, poderia ser capaz de aprender o segredo para a destruição de Nicol Bolas.

Mas primeiro, precisava de um alvo.

Distantemente, Vivien recordava conversas sobre dragões shivanos, o nome apenas sussurrado em vozes baixas. Por medo, os anciãos Ghitu disseram, de que pudessem desviar-se para seus assentamentos, atraídos pelo som de seus nomes.

Mas se um dragão shivano visse-se atraído por ela, não seria aquilo para o melhor?

Na distância, Luneau unia-se contra a insurreição.

Nada escapava através do crepúsculo, nenhum som exceto o clamor distante de homens de armas zangados, e animais elefantescos bramindo em desafio. Vivien franziu a testa antes de rir bondosamente.

Cachoeira de Enxofre | Arte de: Cliff Childs
Cachoeira de Enxofre | Arte de: Cliff Childs

A Planeswalker girou os ombros e inspirou. Ergueu uma mão, tocando o ar, sentindo a estrutura do universo sob sua pele. E então pressionou para baixo e o Multiverso, viscoso como mel, cedeu sob a pressão, engolindo-a do braço para cima. Vivien poupou a Ixalan um olhar final, antes de lampejar para o próximo plano e sentir o ar duro e quente de Shiv em sua pele.